Por Zezé Weiss

“Meu Brasil/que sonha com a volta do irmão do Henfil/de tanta gente que partiu…” João Bosco – Aldir Blanc

Já se vão 23 anos desde que Betinho partiu do espaço físico deste mundo.

Foi em 9 de agosto de 1997 que o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, criador e líder da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, que acabou ficando conhecida como Ação da Cidadania, virou pó de estrela nos mistérios do infinito.

Com Betinho, o irmão do Henfil que, citado nos antológicos versos de João Bosco e Aldir Blanc, imortalizados por Elis Regina na música “O Bêbado e a Equilibrista”, para não morrer sob tortura precisou sair do Brasil, exilado, nos tempos bicudos da ditadura militar (1964-1985), o Brasil descobriu o valoroso poder da solidariedade humana no enfrentamento da pobreza e no combate à desigualdade social.

Para o exílio, o militante da Ação Católica e um dos fundadores da Ação Popular (AP), grupo católico pró-socialismo, enquanto era estudante de sociologia na Universidade Federal de Minas Gerais, partiu em 1971. O engajamento na luta pelas reformas de base do governo João Goulart nos anos 1960 o colocaram na mira do golpe militar de 1964. Enquanto exilado, morou no Chile, no Canadá e no México.

Uma intensa campanha pela anistia no final dos anos 1970 trouxe de volta ao Brasil Betinho, em 1979, e “tanta gente que partiu” nos anos seguintes.

Dois anos depois, Betinho cria o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), junto com os companheiros de exílio Carlos Afonso e Marcos Arruda. Em 1990, sob a liderança de Betinho, o Ibase organizou o encontro “Terra e Democracia”, que contou com a presença de 200 mil pessoas no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Diagnosticado como portador do vírus HIV, Betinho ajudou a fundar a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (Abia), em 1986.  Em 1992, fez parte do Movimento pela Ética na Política, que culminou com o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. O movimento serviria de base para a mobilização da campanha contra a fome.

BETINHO VIROU SEMENTE

Em 4 de dezembro de 2012, o legado de Betinho foi reconhecido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como parte relevante da memória mundial. O arquivo de Betinho está disponível para consulta no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio.

Ao reconhecimento internacional, soma-se a ação cidadã e solidária de milhares de pessoas voluntárias espalhadas Brasil afora, fazendo germinar as sementes deixadas por Betinho.

Entra ano, sai ano, não há lugar do Brasil onde não se saiba de um cuidado, uma atenção, uma cesta básica enviada pela Ação da Cidadania, em gigantesco movimento que move a solidariedade na rota do esperançar. Há 28 anos consecutivos, por conta das sementes que Betinho plantou, a sociedade brasileira se mobiliza por um “Natal Sem Fome”.

QUEM TEM FOME TEM PRESSA

Essa pauta do Betinho quem nos sugeriu foi o Jacy Afonso, conselheiro da Revista Xapuri. Faço, eu lhe disse, mas quero alguém que possa me explicar como funciona o trabalho voluntário da Ação da Cidadania, de preferência aqui na nossa região de Brasília. “Fácil, só falar com o Zé Ivan”, respondeu Jacy.

José Ivan Mayer de Aquino, Especialista em Políticas Públicas e Gestão no Ministério da Cidadania, lotado na Coordenação Geral de Economia Solidária, Associativismo e Cooperativismo e professor de Educação Física aposentado do GDF é, desde 1993, coordenador voluntário da Ação da Cidadania no Distrito Federal e Entorno.

Pergunto ao Zé Ivan como se envolveu e como funciona a agenda da Ação da Cidadania. Descubro um calendário estruturado:

Comecei, em 1993, por um chamado do Betinho. E desde que, em 1997, Betinho virou beija-flor, aqui na nossa região, tenho organizado a seguinte sequência de eventos e atividades solidárias: 14/07 – Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Equidade, com ações solidárias de distribuição de alimentos e eventos de visibilidade na Esplanada dos Ministérios; 09/08 – Betinho Virou Semente; 23/09 – Betinho Virou Flor; 16/10 – Betinho Virou Fruto (desde 1993), dando início à campanha Natal Sem Fome, por ser o Dia Mundial da Alimentação; 20/11 – Betinho Virou Cidadão do Mundo.”

Neste ano de 2020, além da coordenação do calendário regular, Zé Ivan está especialmente envolvido na Campanha Ação Contra o Corona, em resposta à crise gerada pela pandemia da Covid-19.

Desde março, já ajudei a coordenar a logística da entrega de 330 toneladas de alimentos e itens de higiene e limpeza para comunidades vulneráveis do Distrito Federal e região, Goiás, Acre, Rondônia, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, onde contribuímos com mil cestas básicas para a Campanha SOS Xavante,” conta.

Pergunto, também, ao Zé Ivan o que faz com que um cidadão aposentado de Brasília assuma, por toda uma vida, o compromisso de seguir, como um beija-flor, plantando as sementes de Betinho. “O que me move, a mim e às centenas de voluntários e voluntárias que, junto comigo, organizam e distribuem os alimentos doados por empresas e indivíduos, é a lição aprendida de Betinho: ‘QUEM TEM FOME TEM PRESSA’”.

Jacy tinha razão, o Zé Ivan era quem eu deveria procurar. O problema em achar a pessoa certa para a matéria justa é que, pra nós da Xapuri, o assunto tende a não se encerrar com a publicação da matéria. Dito e feito: essa semana, no meio da produção da edição 70, paramos tudo para ajudar o Zé Ivan a distribuir mil cestas básicas e mil kits de higiene para famílias do nosso nordeste goiano.

Zezé Weiss – Jornalista.

 

 

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