Ou: como uso o conhecimento do Povo Ashaninka como uma de minhas filosofias de vida…

Por: Jairo Lima

“(…) Nossa cabeça é como o mundo e o mundo é como nossa cabeça. A testa é o pensar. O pensar é a calma (1), a ação, a adrenalina, o susto (2) e a reflexão (3). Os Ashaninka sempre agiram para manter esses três em equilíbrio” – Wewyto Ashaninka*

Parece que o céu se diluiu totalmente em lágrimas que lavaram e abençoaram o Juruá. Miríades de cupins voadores, que o povo daqui costuma dizer que é uma ‘formiga’, invadiram o céu à tardinha e se aglomeraram enlouquecidamente em torno de qualquer facho de luz, como se estivessem hipnotizados. Assim foi o fim de semana que oficialmente abriu nosso inverno, e que, se nos balizarmos por esta pequena amostra, certamente teremos meses muito ‘molhados’.

Não sei definir como foi a semana que passou, ao contrário do que faço comumente, pois, ao sentir que começava a sentir os nervos à flor da pele e a mente sobrecarregada de preocupações, me dei conta de que precisava ‘retirar-me’ desse plano, camuflando-me de maneira despercebida, como se o ‘mundo’ passasse por mim inadvertido de minha presença e eu, também, despercebido, não daria conta da passagem deste.

Com esse intuito, mais uma vez, lancei mão de algum pressuposto filosófico de vida de alguns dos povos que tenho contato. Afinal, como já afirmei mais de uma vez, e quem acompanha meus textos sabe disso, que, assim como temos os pressupostos filosóficos apurados e profundos de ‘visão de si próprio e postura em relação ao mundo’ de civilizações mais antigas, apreciados e bastante estudados, como o Confucionismo, o Taoísmo, o Budismo, o Platonismo, etc., também, os encontramos, na essência, dentro das culturas indígenas, no que se trata do ‘Ser’ e ‘portar-se’ em relação ao ‘mundo’ (quando o percebemos como um todo, e não somente em suas singularidades). Creio mesmo que, o que muitos chamam de ‘cultura’ (como se esse termo por si só resumisse tudo, o que não concordo),  eu costumo perceber como Filosofia de Vida, e procuro, quando preciso, utilizar-me dessa filosofia, seja nas labutas diárias profissionais, seja na vida espiritual, seja na vida pessoal.

E assim, quando o calor, as notícias vindas das mídias de comunicação, os telefonemas, os emails, os ‘zap zap’, os papéis sobre a mesa do escritório, o corre-corre das labutas cotidianas do ‘ir e vir’ frenético da rotina, enfim, tudo o que normalmente me cerca começou a me afetar os nervos, dei-me conta que precisava ‘retirar-me’ desse mundo, mesmo que por poucos dias. Uma espécie de ‘retiro sem retirar-me fisicamente’. E assim, quando no dia de Venus** a ‘Carruagem de Apolo’ chegou ao seu pino, decidi que era hora de ‘desaparecer’, assim como fazem os Ashaninka, quando precisam.

Entre os refinos de suas práticas de relação do ‘Ser’ com o mundo, por vezes, os Ashaninka pintam totalmente o rosto com a tinta de urucum. Para eles, este tipo de pintura é usada como uma camuflagem para que passem despercebidos: ‘Esse estilo de ‘viver sem ser percebido’ é uma das funções ou ‘expressões’ do kitarentse, a túnica longa dos Ashaninka. “Assim, como o silêncio, o controle das emoções marca profundamente o estilo Ashaninka de ser, onde a atenção é sempre concentrada em atividades que associam à sua prática da vida diária, traduzida em múltiplas formas de autocontrole e organização” ****.

E foi isso: tchau mundo! Até o dia da Lua*****! – Disse para mim mesmo e, mesmo sem pintar fisicamente meu rosto, o fiz metaforicamente, ‘desligando-me’ dessa vida on line que, em suma, toma boa parte de nossa percepção atual de mundo. Parece ‘sacau’ né? Mas acreditem, saber que está precisando ‘desaparecer’ sem precisar pegar um avião e ir pra bem longe não é algo simples, pois, em verdade, muitos afogam-se semanalmente por ‘excesso de mundo’ e nem percebem isso.

Subsistir a deterioração do mundo, manter-se com o corpo e não somente com o rosto fora d’água é necessário para que nos sintamos completos e possamos ver tudo à nossa volta em outra perspectiva. Essa sacação é o suprassumo do que pude aprender com essa antiga e salutar prática Ashaninka.

Claro que, também, dada as perspectivas de mundo em que eu vivo (e certamente você, caro leitor também vive), essa atitude, além de filosófica, é uma postura diante dessa dinâmica esquizofrênica e psicologicamente prejudicial que tentam (quem tenta? Nunca sabemos) nos esfregar na cara, de maneira que esse subterfúgio de ‘desaparecer’ é uma maneira ‘filosófica’ de mandar tudo, literalmente, às favas (pensei noutro verbo mais ‘carnal’, mas…).

É lógico que ninguém acorda de manhã com dilema ético na cabeça, mas, os problemas existenciais se sucedem a cada dia em nossa dinâmica de vida e se acumulam tal qual um dique, e, para que este não colapse e nos engula, é preciso esvaziá-lo.

E assim dediquei-me a percepção e vivência somente de minha pequena aldeia, representada pela minha casa, cuidando de minhas plantinhas e outros pequenos afazeres que, na idade em que estou, parecem fazer mais sentido que a ânsia combativa e altamente volúvel das pelejas intermináveis em que muitos se dedicam nos palcos dos dramas sociais, políticos e existenciais, ultimamente representados pelas redes sociais, em especial este teatro dos horrores em que pode tornar-se o ‘feicebuqui’, onde polêmicas e briguinhas ridículas sucedem-se numa velocidade vertiginosa.

Com isso,  não vi novas postagens ou tweets daqueles amigos que conheço há muitos anos, e que não entendi onde o mundo os sacaneou tanto, que os transformou em apóstolos das virtudes do Bolsonaro, ou o nirvana de uma existência sob o báculo dos generais.

Tão pouco li notícias, de maneira que, se ‘o meteoro finalmente veio’, devo ter passado para o outro lado, ‘atravessando a ponte’ para a aldeia dos yuxin sagrado sem nem perceber, por isso já valeu a pena desaparecer.

O que percebi foi a chuva que lindamente amainou a detestável sensação de estar sob o escaldo. Ouvi os trovões durante o aguaceiro e meus pensamentos voaram na mesma sintonia dos ventos frios que balançavam minhas plantas e as árvores do quintal.

Pensamentos que se transformaram em ‘relembrações’ gostosas e sensações queridas, de outros tempos, onde eu estava à beira de algum rio, em alguma aldeia, vendo a chuva e sentindo o odor agradável da floresta molhada, e sentindo que os trovões traziam palavras da natureza, e levavam minha imaginação às planícies e estepes de viagens feitas através de leituras prazerosas, como as peripécias do Frodo, na Terra Média.

Os corrupios das crianças e os pequenos momentos familiares completaram o saneamento mental e existencial a que me propus neste pequeno retiro a que me dispus, e que apesar de pequeno, mostrou-se eficaz, tal qual a cura mágica de uma folha de athelas.******

Finalizei meu retiro. ‘Despintei’ o rosto e novamente percebi e fui percebido pelo mundo. No entanto, com a mente e o espírito mais leve, este vai demorar mais outro bom tempo para me afetar e posso, assim, valorizar as pequenas alegrias e vitórias no dia-a-dia que, na verdade, é o que dá sentido e nos coroa com os louros a existência, afinal: “Irooperori aseik kameta!” – (“O melhor da sorte é estar feliz” – adágio Ashaninka).

ANOTE AÍ:

 

JAIRO LIMA  é indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC, com especialização em antropologia. Atua há mais de vinte anos junto aos povos indígenas do Acre e desde 2012 é servidor da FUNAI, no Acre.

NOTAS DO AUTOR:

* Citação retirada do livro ASHANINKA – O poder da beleza.

** Dia de Vênus – Dia que os povos pagãos antigos dedicavam a esta deusa,  o que hoje chamamos de ‘sexta-feira”.

*** Carruagem de Apolo – o sol.

***** Citação retirada do livro ASHANINKA – O poder da beleza.

***** Segunda-feira.

****** Athelas (em Sindarin) é uma planta, que segundo a obra O Senhor dos Anéis, foi primeiramente trazida para a Terra Média pelos Numenorianos, mas que no final da Terceira Era daquela Terra, tinha suas propriedades curativas esquecidas.

CRÉDITO DAS IMAGENS – SELECIONADAS POR JAIRO LIMA: Imagem 1: Criança Ashaninka, foto – David Hill; Imagem 2: Mulher Ashaninka, Foto – Alessandra Melo – Capa; Imagem 3: Mulher Ashaninka, Foto: Carlos Eduardo Magalhães; Imagem 4: Jovem Ashaninka, Foto: Talita Oliveira

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