Meu avô, meu pai e eu: Sobre despedidas, reencontros e uma fotografia que não falta mais…

Por Raial Orotu Puri –

No começo deste mês recebi a notícia de que meu avô José Baia faleceu. Mineiro, com uma idade imprecisamente estabelecida em ‘mais de 100’, ele foi declarado morto pela segunda vez em sua vida.

A princípio, eu havia pensando em escrever um outro texto para esta semana, mas acontece que no mesmo mês em que está instituído ‘o dia dos pais’, o meu pai perdeu o pai pela segunda vez (terceira, se for incluir na conta o pai adotivo), e eu perdi esse avô que eu não tive durante mais da metade da vida…

É uma perda estranha. E é uma falta estranha. E sinto que não poderia terminar este mês sem falar dele, para que meu silêncio não se acrescente à ausência agora renovada e tornada definitiva. E é sobre isto que me proponho a escrever agora. Sobre o avô que eu não tive, e já adulta passei a ter, e agora se foi…

Sobre o pai que faltou a uma criança, e o marido que falou a uma esposa…  sobre a falta de alguém importante, sobre o retorno de alguém querido e ao mesmo tempo desconhecido, e sobre o fata de que a sensação de agora perde-lo de novo é de tristeza, mas é, de certa forma, também de consolo. E, além disso, também sobre o quanto essa ausência se fez presente na minha existência e busca de mim…

Da primeira vez que disseram que ‘o Velho Baia’ havia morrido, ele não era tão velho assim, e eu nem era nascida; meu pai era ainda uma criança. Para mim, era uma história estranha, talvez até um pouco cômica, mas era bastante simples de ser contada, já que eu não vivera as emoções envolvidas nela,  e, por isso, tratava-se apenas da narrativa sobre alguém há muito tempo ausente. Tempo demais para que eu entendesse a falta que ele fez na vida daqueles que o conheceram.

Para mim, era apenas um causo a mais, dentre os muitos da minha família que certamente nunca entrou na fila das trajetórias comuns – porque estavam todos aguardando a vez na fila das complicadas! E é assim que, sempre que eu ia contar essa história, eu começava com uma analogia: “Sabe aquele lance do cara que vai à esquina para comprar uma carteira de cigarros e nunca mais volta?

Então, com o meu avô foi mais ou menos assim também”… Ele havia vendido uma terra e partiu em viagem com esse dinheiro para fazer algum negócio. A paisagem dessa história, portanto, não era o cinza da cidade, posto que se passou entre os horizontes belos e montanhosos das Minas Gerais, e a viagem que ele empreendeu teve a lentidão do passo do cavalo que, coisa de ano e meio depois, trouxe para a minha avó a notícia de que ela ficara viúva.

A vó Madalena era jovem quando enviuvou. Casaram-se por volta dos 13 anos; estava agora pelos 20, e tinha três filhos para criar, num tempo e num lugar aonde mulheres sozinhas não têm uma vida fácil, ou são consideradas de vida fácil.

Para o bem e para o mau, ela casou-se de novo, e, para o bem e para o mau, o novo marido logo tomou para si a responsabilidade de administrar-lhe a existência. Negociou os bens que possuíam, fez nela outros filhos, e impôs-se como homem da casa e padrasto das crianças que ela já tinha.

Sei bem, meu pai contou, sobre o quanto de dureza e falta de afeto adveio deste tempo, e de como isso também reverberou no tempo. Em breve, a família migraria para o norte do Paraná, aonde anos mais tarde a minha avó faleceria vítima de complicações cirúrgicas.

Meu pai a essa altura tinha 16 anos, e sei o quanto esses acontecimentos marcaram por demais a sua vida. Na ausência da mãe, e na falta de condição de conciliar-se com o padrasto, ele fez os rumos da vida que lhe eram possíveis. Foi adotado, alfabetizou-se e, em poucos anos, formou-se. Mudou-se para Curitiba e conheceu sua futura e atual esposa em Santa Catarina.

Seria bem simples esvaziar essa história de todos os seus nuances, e dizer resumidamente que meu pai ‘deu certo na vida’. E realmente deu. Mas não dá para ignorar quanta luta foi necessária para isso, nem dá para minimizar do quanto esse ‘dar certo’ foi dificultado pelo nada pequeno detalhe de sua cor da pele e de todos os silêncios e hiatos que permeiam as origens de quaisquer famílias formadas por sangue indígena e negro.

Vale lembrar que os caminhos do meu pai o levaram para o Sul do Brasil, aonde as pessoas preocupam-se absurdamente com  ‘as origens’, e aonde ‘origem’ tem a ver com ter ancestrais vindos da branca Europa. E meu pai… é “negro da terra”, filho da filha da índia puri pega no laço com um descendente de um povo escravizado, ascendências essas que são tratadas nessa escala de valores distorcidos como  ‘falta de origem’.

Irônico, não? As origens de meu pai são sim, belíssimas e muito honrosas, porque são feitas de resistência e de uma força que não se vergou nem se vergará ante as pressões que vieram, e que ainda hoje vêm, mas conhecer e reconhecer esse Resistir é coisa que se demora a perceber e compreender, porque ela se passa nos bastidores, nas margens, longe dos holofotes e da projeção das Casas Grandes.

Essa tão grande resistência é nascida nas matas, e carrega com elas o cheiro e a força da terra da onde brotou; foi temperada de suor e sangue, e muito sofreu em cativeiro. É cheia de silêncios, de heróis e heroínas sem nome, de histórias partidas, de hiatos, imprecisões e silêncios.

Para o bem e para o mau, essa é a minha história também – minha e de incontáveis outros como eu, que descendem dessas raízes partidas e desses desterros constantes. Somos esses que se tornaram nômades por sermos constantemente acossados, expulsos, massacrados.

Somos os que não têm terras nem territórios, porque delas fomos roubados. Somos os que têm sua identidade constantemente questionada e contestada, porque somos frutos de estupro, escravização e misturas forçadas. Mas, a despeito e acima de tudo isso, somos Resistência.

E, por isso mesmo, essa é principalmente a parte da minha ancestralidade que eu aprendi a admirar, com todas as suas peças que não se encaixam e todas as perguntas que nunca tiveram respostas.

Algumas dessas perguntas haviam dobrado a curva da estrada no lombo do cavalo que levou esse avô, e a história dizia que nunca seriam respondidas, desde o dia distante em que alguém chegou com a informação de que ele morrera.

Foi assim até por volta do ano 2000, quando o passado mudou para nós, no dia em que meu pai fez, depois de muitos relutantes anos, uma visita a Atalaia, e lá ouviu a notícia de que o ‘Velho Baia’ estava muito vivo e gozando de plena saúde.

Ao contrário do que havia sido contado em 1955, meu avô apenas demorara-se em demasia em sua viagem, mas tinha voltado. Só que quando retornou já não mais encontrou nem esposa, nem filhos, nem notícias de paradeiro.

E assim, logo também se casou de novo, e teve outros filhos, outros rumos, e outra história. Àquela altura, estava pelos lados do Mato Grosso, e, tempos depois, ele adentraria de novo na nossa existência, mas isso foi sendo feito pouco a pouco, e eu hoje compreendo bem esse caminhar cuidadoso do meu pai em retornar e em ir a busca desse pai que há tantos anos ele havia aprendido a acreditar morto, mas que na verdade estivera esse tempo todo ‘apenas’ ausente.

Acontece que esse caminhar não é fácil, porque é preciso tocar em feridas que podem a qualquer momento sangrar de novo. Compreendo mais ainda, que quando o encontro se deu, não houve lugar para perguntas ou explicações. Fossem quais fossem os motivos e as dúvidas, elas não tinham sentido, mais de quarenta anos passados. Do mesmo modo, não houve pedidos de perdão nem atribuições de culpados. Não havia sentido para tais coisas!

O que houve foi um filho tentando conhecer o pai que ele achou que já não mais tinha, e um pai aprendendo a ser pai de um filho que teve toda uma vida entre sua partida e o seu regresso.

E devo dizer que talvez a parte mais bela e emocionante desse reencontro tenha sido ver os dois conversando na varanda da chácara em que morávamos à época, enquanto o céu se tingia de noite. Ver os dois, tão fisicamente parecidos quanto o eram em personalidade, com o mesmo tom de voz mansa falando de tempos passados juntos ou separados, e perceber através disso a reconciliação do meu pai consigo mesmo e com seu pai me fez um bem maior do que eu possa dizer em palavras.

Quanto a nós, éramos netos que nunca tivéramos aquele avô. E não posso negar que isso fez falta. Para mim, sonhadora de histórias que sou, fez muita… Mas compreendi também que esse não seria o avô que as contaria a mim.

Mas, ainda assim, essas histórias foram chegando. E não, não é que ele tenha se sentado alguma vez em uma cadeira de balanço com uma neta a seus pés e tenha se dedicado a me contar essas coisas. Como eu disse, quando ele retornou para nossas vidas, já havia cessado esse tempo, para mim e para ele.

No entanto, ele contou algumas histórias, é verdade, mas já não mais no tom de um avô que coloca os netos para dormir. Pelo contrário, algumas dessas histórias me fizeram insone, e acordaram em mim partes adormecidas.

Ele nos trouxe os relatos da região de Atalaia, dos aldeamentos, das invasões em busca ‘do minério’, de perseguições, das muitas índias que foram pegas no laço ou ‘acuadas de cachorro’, de assassinatos; do grande massacre de mais de 300 Puri num único dia, e de como repartiram e separaram as mulheres e crianças sobreviventes como despojos de guerra.

Ele falou e confirmou informações daquilo que ele ouviu, viu e viveu naqueles rincões perdidos, daquelas coisas que, em Minas todos ouviram falar e está visível na pele de um povo que, como meu pai, é feita da mesma miscigenação – forçada.

Ele trouxe consigo cem anos de uma história não escrita, mas inscrita em uma memória lúcida e prodigiosa. No conhecimento sobre a natureza e a vida que foi ensinada a ele, simplesmente por ter vivido junto dela, e aprendido a conhecê-la como conhecia a si mesmo.

A última dessas histórias eu soube através do meu pai, e aconteceu há coisa de dois meses: estava-se chegando perto da época do aniversário do ‘Velho Baia’ e meu pai lhe telefonou para perguntar que presente ele gostaria de ganhar; a resposta foi um casaco e uma coberta grossa para aguentar o frio que vinha. Meu pai estranhou um pouco os pedidos, pois na época da ligação não estava necessariamente fazendo frio, muito menos no Mato Grosso.

Apesar de relutante, meu pai providenciou os presentes, e viajou para o último aniversário do meu avô nesta terra. Ele, como sempre estivera, estava lúcido e ficou muito agradecido pelo atendimento aos seus pedidos, pois assim ele iria passar bem no frio que vinha.

E assim se despediram, e meu pai retornou a Brasília. Dias depois, o frio de fato chegou a quase todas as regiões do Brasil, atingindo marcas históricas, mas meu avô passou o último mês da sua vida agasalhado e protegido pelo calor presenteado pelo filho que aprendeu a não lhe questionar ou fazer perguntas.

Foi também durante esse frio mês de julho que eu levei meu pai pela primeira vez ao encontro do Movimento de Ressurgência Puri, realizado na Troca de Saberes da Universidade Federal de Viçosa, e ele pode reencontrar-se com outros parentes e tantas histórias há muito perdidas, e naqueles poucos dias que passamos ali, eu vi renascer mais forte o sentimento de pertença de um povo que, como meu avô, foi declarado morto uma vez, mas prosseguiu vivendo, às margens da história oficial, aumentando, se espalhando, crescendo e continuando a Ser.

Nese encontro, eu sorri feliz do orgulho do meu pai de dizer que o pai dele ainda vivia ‘com mais de 100 anos, e ainda lúcido, e se vocês puderem ir lá ouvi-lo, ele vai confirmar tudo isso que eu estou dizendo aqui, e contar mais uma série de coisas para vocês’.

Acontece que, por essas ironias da vida, cerca de 20 dias depois do evento na UFV, eu acordei com a notícia de que neste mundo, o meu avô não vai mais ser ouvido. Desta vez, a morte dele veio acompanhada de provas concretas que fazem disso uma verdade sem grandes possibilidades de contestação.

E, apesar de ser triste, eu preciso dizer que sinto certo alívio na tristeza que sentimos, porque dessa vez, temos uma pessoa concreta de quem sentir falta. Sinto-me consolada, pois, a despeito de todos os anos de ruptura, houve o retorno, e houve o tempo necessário para que meu pai conhecesse o pai dele, e tivesse dele bem mais do que a imagem esmaecida dos tempos de criança. Felizmente, houve tempo. Pouco ou muito, mas houve.

Houve aniversários, houve presentes, abraços, conversas e histórias. Existem fotografias: na minha árvore genealógica cheia de gente sem nome e sem rosto, já não falta mais a foto do pai do meu pai. Ele está lá. Eu o conheci e sei que ele existiu, e existiu tanto e com tanta força que era capaz de ler o tempo e dizer que o frio vinha.

Mas ao mesmo tempo, apesar de todos esses consolos que eu tenho, preciso confessar que eu preferia que fosse mentira de novo…

ANOTE AÍ:

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Raial Orotu Puri (Andréia Baia Prestes Puri) é graduada em Direito e  doutoranda em antropologia pela UFPR. Mora no Acre onde atua na Divisão Técnica do IPHAN/AC e na Assessoria Jurídica da Federação do Povo Huni Kuin do Acre (FEPHAC).

As Imagens utilizadas nestes texto forma selecionadas por nosso parceiro Jairo Lima (www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br) e são da autoria de: Imagem 1: Site Elo7; Imagem 2: Elias de Paula; Imagem 3: Site Urban Arts; Imagem 4: Santana Artista plástico; Imagem 5: Blog do Netuno

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