Céu de diamantes: Quando encontramos nossa ‘isla’ em uma aldeia indígena… Por Jairo Lima –

“Fiquei deitada olhando para o céu. Estava cheio estrelas, e a todo momento eu via uma estrela cadente…”

Estava no trabalho quando recebi estas palavras enviadas por minha esposa, que está participando da festa de demarcação da Terra Indígena do Povo Ashaninka, na aldeia Apiwtxa*. Palavras que chegaram via ‘zap zap’, uma das facilidades da tecnologia virtual que aproxima – e por vezes separa – as pessoas no nosso mundo globalizado.

Feliz, respondi dizendo que sei muito bem o que é essa sensação e como me vi, bem mais jovem do que sou agora, no mesmo local e olhando para este mesmo céu formoso e mágico há uns quinze anos atrás.

Com a imagem deste céu em minha mente cheguei em casa ao fim do dia e, após os ritos domésticos paternos, sentei-me para ler algo. Desisti. Resolvi assistir algum documentário da RT Española, optando por um com um título  pouco convidativo: “Historia de una isla”. Sem muito interesse e com pensamentos distantes, sem perceber, me deixei levar pela interessante e emocionante história, que tocou-me profundamente, marejando-me os olhos. Indico este vídeo, vale a pena.

À noite, enquanto ansiava pelo entorpecimento de Morpheus, fiquei pensando no céu apinhado de gotas de diamantes contrastando com o fundo azul profundo; Os sonhos da vida noturna da floresta;  A suave brisa perfumada com odores diversos; O som baixinho do borbulhar das águas do rio; O som preguiçoso ou sonolento da presença humana ao redor; A sensação de isolamento, distância, desprendimento; A percepção de que ‘uma presença’ está por perto, rondando poderosamente com uma onipresença totalmente benfazeja.

Estes são sentires perfeitamente compreensíveis para quem já esteve em uma aldeia no meio da floresta, longe de tudo ‘e de todos’. Mas, o que isso teria a ver com o documentário que citei? Bem, eu creio que tem tudo a ver.

Fiquei matutando, nesta noite insone, que em essência todos nós ficamos sempre em busca de nossa ‘isla’, onde possamos preencher um vazio que assombra nossa humanidade desde sempre: a resposta para o sentido da vida.

Creio que, a cada dia, fica-se mais distante de compreender este sentido, pois, o ser humano cerca-se a cada vez mais de uma artificialidade e de um individualismo que o cega e afasta desta busca. Hoje em dia, muitos nem se dão conta de que buscam isso, e não percebem que ao publicarem suas frustrações, felicidades superficiais e selfies nas redes sociais, ou quando se deixam engolir por algum vício autodestrutivo estão somente procurando ‘preencher o vazio’ e ‘diminuir a dor’ que assola sua existência.

Este afastamento também se dá em nosso meio coletivo, representado or nossas cidades e sua sociedade que, quanto mais urbana se torna, mais distante transporta seus habitantes de sua raiz espiritual, ambiental e coletiva.

Esse meio urbano, em sua claustrofóbica composição que mescla asfalto, barulhos diversos, cimento, prédios e etc., amofinam e embrutecem nossa percepção, tornando-nos por vezes insensíveis não só para os dramas que nos cercam, como, também, para a simplicidade e beleza da natureza primeva que ali reinava, ou que ainda resiste em pequenos nichos reduzidos a parques ou jardins.

A natureza torna-se somente um enfeite ou, em muitos casos, um problema, quando insiste em se pôr no caminho do desenvolvimento. Por vezes, quando ao andar pela cidade, observo uma árvore solitária em alguma calçada, ali sozinha em meio ao ambiente estéril ao redor, não deixo de pensar que a mesma é uma testemunha solitária de nosso desgraçado degredo por abandonar a natureza.

Quando tive a oportunidade fortuita de sair do casulo urbano e subir pela primeira vez o Juruá em direção à terra dos Ashaninka, me senti pequenino e desamparado, tal como a cena antológica do hacker Neo após engolir o comprimido vermelho dado por Morpheus, no filme Matrix.

Sentado num ‘rabeta com motor de treze’**, singrei o barrento Juruá, vendo o mundo passar velozmente ao redor, iniciando com suas casas de madeira ruas e iluminação e transmutando-se à medida que minha pequena embarcação avançava. Quanto mais subia, mais parecia estar voltando no tempo, com as casas rareando, sem postes de luz, sem ruas. A sensação de pequenez ia aumentando exponencialmente até eu ter a impressão de que desapareci totalmente.

No entanto, essa sensação de desaparecimento difere da dissolução total, pois, ao contrário desta, era algo mais parecido com uma transformação, onde o ‘eu’, espírito individual e egoísta, passou a um novo estágio, mesclando-se com a natureza que encerrava-se ao meu redor à medida que nela adentrava.

Dormir na praia durante a viagem foi uma mistura de prazer e desafio, pois precisava sentir-me seguro no ambiente em que me encontrava, sabendo que esta segurança ia além da falsa sensação propiciada por nossas casas com paredes e grades. Dormir sob as estrelas, ao relento, entregue aos humores da natureza (e porque não, das Moiras) que zelava por mim.

Ver o astro rei surgindo, iluminando com sua luz divina o verde da floresta, e dando vida a tudo ao redor numa explosão de sons, cores e movimentos, foi uma visão que jamais apagarei da memória. E fui subindo e seguindo… e me transformando…

E esta transformação acontece até hoje, quando vou para alguma aldeia.

Se por um lado viajar de avião é prático para quem o relógio e o calendário escraviza em seus tristes grilhões, por outro, o lento avanço de um pequeno barco, ou através da caminhada, nos eleva a um estado de transformação e mesclagem com o meio. Para mim, uma vez experimentada esta sensação, poucas vezes a deixei de lado, em prol da velocidade artificial dos meios aéreos ou automobilísticos.

Tem um hino do Txai Macêdo que nos fala, em uma de suas estrofes sobre “os caminhos que se trilhou e as belezas que viveu”. É isso mesmo. Trilhar estes caminhos na floresta e viver as belezas simples e profundas em uma aldeia, sempre foram algo que me encheram de felicidade, e, como não citar, a gostosa sensação de pertencimento a algo real. Sensação esta que poucas vezes sentimos em nosso meio urbano, onde, como já citei em outro momento, somos como reféns sem que ninguém queira pagar pelo nosso resgate.

Não preciso citar nesta crônica o lado espiritual, propiciado pelo contato com o sagrado dos rituais indígenas quando nestas minhas ‘peregrinações’ nas comunidades. Excluo  intencionalmente. Estas são um plus à experiência, uma parte, não sua essência. Creio que por isso sinto que estar entre estes povos é algo pleno em todos os aspectos, do social ao espiritual.

Você só entende o que é ser feliz na simplicidade e na essência, quando se desprende de certos lastros existenciais e, este desprendimento, só é possível quando encontramos nossa ‘isla’. E esta torna-se parte de nós. Algo em que passamos a trabalhar pelo resto de nossas vidas, restaurando, construindo, zelando. E para mim, minha ‘isla’ são todas as comunidades e seus moradores, que sempre me receberam carinhosamente, e com os quais sempre dividi os meus e os seus momentos.

Assim como a ‘moral da história’ do documentário sugerido, eu sei que, o que almejo para estes povos, infelizmente, pode estar além de minha presença material. Não importa, desde que eu possa fazer parte desta história. Isso, por si só, já me enche de uma sensação boa e plena de ser mais que um número de CPF, imerso na ‘matrix’.

ANOTE AÍ:

Notas do autor:

* Terra Indígena Kampa do Amônia, município de Marechal Thaumaturgo – Acre

** Pequeno barco de madeira ou alumínio que utiliza um motor de 13 Hp.

Sobre o autor:

 

Jairo Lima é escritor e indigenista acreano, radicado na região do Vale do Juruá, no estado do Acre, na Amazônia brasileira. Jairo publica seus textos semanalmente no blog: www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br  Por gentileza de Jairo Lima, seus escritos são publicados também aqui no nosso site da revista Xapuri.

As imagens que ilustram esta matéria foram selecionadas por Jairo Lima e são da autoria de:

Fotos 1 e 2: Tashka Yawanawá

Fotos 3 e 4: Arison Jardim, SECOM-AC

 

 

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