Entre lembranças e urtigas: Encontro feliz com duas guerreiras Yawanawá…

Por: Jairo Lima

A chuva veio!!!

Finalmente, depois de muitos dias de secura e poeira, do céu as gotas de vida caem sobre o Juruá, trazendo aquele cheiro gostoso de floresta molhada e a paz de um céu cinzento.

Nessa semana que passou, enquanto o corre-corre para a organização da 2a Conferência Indígena da Ayahuasca trazia-me cansaço, um punhado de estresse e muita pentelhação de pessoas que, até então, nem imaginava que soubessem de minha mísera existência, recebi uma visita que, além da surpresa, trouxe consigo um jamaxim* cheio de lembranças e boas energias, afastando para longe os maus humores dos últimos dias.

A visita foi das irmãs Mariazinha e Julia Kenemeni Yawanawá, bem conhecidas nesse mundão como ‘caciques’, a primeira, inclusive, tendo sido citada em matéria do jornal O Globo sob o título “ Primeira cacique mulher do Brasil cria desenhos para coleção de grife carioca”**. A segunda, por sua vez, além de liderança de seu povo, também é muito conhecida pelas vivências e trabalhos que participa, tanto em sua comunidade como numa infinidade de encontros e rituais tanto em sua comunidade, como, também, mundo afora.

Eu já havia recebido a visita do Txai Benki Ashaninka nesta mesma semana, quando estivemos no estúdio Sananga Records gravando algumas músicas suas, e rindo bastante das suas histórias sobre as andanças que anda fazendo ‘por aí’, nesse planeta caótico.

As duas visitas foram benfazejas e queridas, cheias de significados, mas dedico aqui essa crônica de hoje à visita das irmãs Yawanawá, não por ser mais ou menos importante, mas, sim, pelo seu significado para mim.

Fazia muito tempo que não ‘topava’ com elas, sendo a última vez numa roda de conversa com o Conselho Yawanawá onde, entre os assuntos discutidos, acabei por ser posto ‘na roda’ como assunto, onde falaram sobre mim e minha relação com eles, iniciada há mais de dezoito anos.

E foi assim: abri a porta da sala e dei de cara com as duas! Fiz um gesto e uma cara de ‘Ai meu Deus!’, e de cara Mariazinha foi logo rindo e perguntando se ela tinha me assustado. Renovado do susto as convidei para um ‘papo de índio’ na minha sala. E foi um papo muito bom…

Lembramos das conversas e ensinamentos dos velhos Tuikuru, Tatá e Yawa. Falamos sobre esse mundão doido que nos cerca, dos desafios e perigos que nos rondam a cada momento. Fiquei sabendo que acabaram de se tornarem avós, com o nascimento da primeira neta das duas, isso mesmo, no singular ‘neta’, pois é uma só para as duas. Explico: elas criaram juntas a filha da Julia, por isso, quando ela teve uma filha tornou-se neta das duas.

A cada conversa, como a narrativa de uma pisa de urtiga que a Marizinha deu em dois jovens que andaram aprontando na aldeia, eu ia mergulhando naquela sintonia gostosa e simples da existência, sentindo o ar da aldeia, os odores tão característicos e os sons de toda a natureza humana e ambiental ao redor. Juro para vocês que até cheguei a sentir uma das lapadas de urtiga, chegando a coçar-me na perna, sentindo o desconforto do terrível toque das folhas malvadas dessa planta. Rimos um bocado de algumas lembranças e, também, ao vermos fotografias dos meus arquivos digitais, referentes a umas atividades feitas por mim e por Dedê entre 2002 e 2003: “Gente! Olha como tô feia com essa pintura toda torta…” – Foi o descontraído comentário da Mariazinha ao se ver numa das imagens.

Contei a elas minhas muitas lembranças dos contatos que tive com seu Povo. Não era a primeira vez que contava isso, na verdade não era nem a décima vez, já que sempre que encontro alguns dos parentes Yawanawá, acabo por repetir as histórias e, assim como as que ouço – e as quais, muitas, ouvi inúmeras vezes – parece que, a cada momento que são pronunciadas, saindo de nossa boca, é como se as vivêssemos novamente. É algo como se um sopro de energia tomasse conta de nós, trazendo alegrias e sentimentos profundos de pertencimento a ‘algo’, a uma comunidade, a uma família.

As horas foram passando e só me percebia do tempo quando alguém abria a porta, e eu, olhando de soslaio, certamente dava a entender que não daria atenção ao que quer que fosse, pois, assim como esta se abria, era fechada segundos depois.

E o papo ia fluindo e todos os assuntos se misturavam e se separavam na dinâmica gostosa de um diálogo simples de pessoas que se sentem confortáveis umas com as outras. Por um momento eu não estava mais ‘ali’ e, sim, sentado no banco às margens do rio Gregório, sentindo a brisa da floresta e matando piuns enquanto ouvia a ‘prima’ Mariazinha, tal qual seu pai, o velho e saudoso Tuikuru, explicar algo de sua cultura tradicional com longas falas e gestos largos, puxando para si a atenção do ouvinte – nesse caso, eu.

A voz forte relembrava conselhos há muito tempo ouvidos e, também, experiências profundas e lindas, como uma conversa com o velho Tatá, já perto de sua passagem para a aldeia encantada, quando este lhe contou uma visão que teve ao tomar o Uni, de uma mulher que ia saindo do lago, onde a ‘parte de cima’ de seu corpo era humano e a parte ‘de baixo’ era de uma grande cobra. Ela vinha cantando uma canção na língua encantada de seu povo, onde segundo me disse Mariazinha, o velho Tatá contou que se tratava de uma exortação ao papel da mulher nesse ciclo místico e presente de seu Povo. Eu, entre uma frase e outra, ficava todo arrepiado, sentindo a emoção e a energia do assunto que me envolvia.

Julia, por sua vez, entrava no papo de maneira suave, com seus gestos contidos e delicados – uma característica que sempre percebi – puxando da memória lembranças de dias que se foram com o movimento da terra, mas que permanecem ainda muito presentes em suas lembranças. Contou-nos sobre os cuidados que devemos ter com os visitantes em nossas casas, mesmo estes não sendo nossos ‘parentes’, dando-lhes toda a atenção e gentileza, conforme ensinado pelo velho Tuikuru que por sua vez, aprendeu com seu pai. Com gestos leves ia dando vida às palavras que pronunciava, rindo muitas vezes e fechando-se em seriedade em outros momentos.

Como acordando de um transe, notei que o ‘papo’ havia chegado aos ‘finalmente’ quando minhas queridas visitas fizeram menção de que ‘tava na hora de ir’. E com palavras gentis e verdadeiras nos despedimos e fechamos acordos de novos encontros, entre estes, durante a 2a Conferência Indígena da Ayahuasca, em agosto na terra dos Puyanawa e, também, em outubro quando me comprometi de subir o Gregório, visitando as aldeias e, claro, abancando-me no Mutum, aldeia onde moram.

Sentado em minha cadeira vi as duas saindo do prédio e fiquei pensando em como me sentia uma pessoa felizarda por ter o conhecimento e carinho de pessoas como estas duas, e de outras desse povo lindo e cheio de histórias de superação e vitórias.

Me senti tão bem após esse encontro que, somado ao que tive com o txai Benki, tirou-me um peso e um mal-estar terrível que andava sentindo nas últimas semanas.

Voltei para casa, assustei-me ao ver que a sensação ‘coçante’ e a vermelhidão em minha perna era algo mais sério do que imaginava, pois uma pequena alergia fez com que sentisse uma sensação de ‘queimação’ no local… matutei: “Eu já ví esse tipo de queimação muitas vezes… perae… putz!!! Mariazinha me deu umas lapadas de urtiga!!!!”

Rindo, passei uma pomada e feliz fiquei, apesar do pequeno desconforto causado, pois como aprendi com este povo, esse tipo de ‘corretivo’ era, acima de tudo, uma maneira de passar um ensinamento e um conhecimento para alguém…

E assim, como o calor que me torrava o juízo, toda a má energia e sensações ruins que por perto pairavam, como que sopradas pelos ventos do Gregório, se foram… espero que pra bem longe…

ANOTE AÍ:

*Jamaxim – espécie de cesto, feito de palha;

** Para ver a matéria clique aqui.

Jairo Lima é indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC, com especialização em antropologia. Atua há mais de vinte anos junto aos povos indígenas do Acre e desde 2012 é servidor da FUNAI, na região do Juruá, Acre.

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Imagens: Imagem 1: Julia Kenemeni – Foto: acervo pessoal da Julia; Imagem 2: Mariazinha Yawanawá – Foto: GS Notícias; Imagem 3 – Rio Gregório ao entardecer – Foto: Tashka Yawanawá

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