Fechando o balanço do calendário indígena no ano de 2017, no Acre: Pelos povos originários, por suas vozes, pelas estrelas, pelos renascidos e que sempre resistiram, Feliz Ano Novo!

Por: Raial Orotu Puri – 

Como eu havia comentado em meu texto anterior, no qual fiz um balanço parcial desse ano de 2017, eu tentaria ainda acrescentar as minhas impressões a respeito dos dois eventos ocorridos na semana passada na TI Puyanawa, os quais encerraram para mim o calendário oficial de atividades do mundo indígena no Acre. Nesta reflexão, tentarei fazer isto, ainda que boa parte do que eu vivenciei esteja para além da palavra.

Confesso que não será fácil, pois há muito por dizer sobre essa semana. Coisas demais e temo que por isso o texto seja longo e desconexo… E mesmo assim, sei que restará muito por ser dito, porque a verdade é que não tenho como dizer tudo. Creio que mesmo que cada um dos centenas dos presentes nestes dias na TI Puyanawa relatasse sua própria experiência, seriam centenas de relatos e olhares diferentes e, mesmo assim, ainda restaria tudo por dizer. Mas, em todo caso, farei o meu possível…

Pois bem, como se sabe, ao longo da semana passada, a Aldeia Ipiranga, TI Puyanawa sediou a I Conferência das Organizações Indígenas do Vale do Juruá e a Yubaka Hayrá – I Conferência Indígena da Ayahuasca. Na minha percepção, fez muito sentido que os eventos se dessem em sequência, para além do fato óbvio da praticidade no custeio do deslocamento único para aqueles que iriam participar das duas reuniões.

Pode não parecer, mas as duas reuniões falaram de uma mesma coisa: da necessidade de diálogo entre mundos distintos, mas que precisam cooperar e alcançar consensos em diversas instâncias. Isso é válido para a relação entre o mundo não-indígena e os mundos indígenas, assim como também é internamente dentro das comunidades, organizações e instituições que compõe o universo representativo dentro do movimento, em um contexto em que cada vez mais criticamente a união se faz necessária e premente.

O primeiro evento teve um caráter mais institucional, e foi dedicado à avaliação, deliberações e planejamento das organizações regionais – OPIRE, OPITAR e OPIRJ – tratando de temas como educação, cultura, gestão ambiental, saúde, dentre outros.

Os três primeiros dias tiveram a participação de representantes de diversas instituições governamentais e ONGs com as quais os povos originários se relacionam, além de também contarem com a presença de três pessoas muito especiais a respeito das quais precisarei abordar também neste texto mais adiante.

Ao longo desta primeira Conferência, enquanto acompanhava os debates, minha memória me conduziu mais de uma vez a uma lembrança recorrente de um episódio que se passou no meu primeiro semestre de residência no Acre, e que desde então tem sido um ponto nevrálgico da minha experiência de pesquisa. O fato se deu em uma reunião ocorrida na Casa Civil, na qual tomaram parte o Governador, alguns Assessores, Secretários, a Federação do Povo Huni Kui do Acre – FEPHAC e algumas lideranças também deste povo.

A reunião tinha por objetivo apresentar uma série de demandas, mas, para além dos discursos, rapapés e salamaleques tradicionais desse tipo de evento, a situação que chamou minha atenção e tornou-se inesquecível teve a ver com o protocolo de acesso àquele espaço, que para mim foi completamente inusitado: para começar, não houve qualquer tipo de revista, nenhum detector de metais, nem a necessidade de deixar pertences em um armário.

E por não ter havido revista, todos entraram com o que portavam, e foi assim que, já na sala, reparei que nas mãos do liderança sentado ao meu lado havia uma lança ritual com cerca de 60 centímetros de cumprimento. Já conhecia a pessoa e aquele instrumento: trata-se de um ancião, Cacique Geral de uma das cinco regiões muito conhecido e respeitado pelos feitos históricos que realizou nos tempos da luta pela demarcação das terras indígenas no Acre.

O instrumento que ele empunhava era um símbolo de seu poder de mando e autoridade sobre o povo. Não necessariamente uma arma de guerra, mas ao mesmo tempo uma insígnia de guerreiro. E, sim, ainda que simbólico, inegavelmente se trata de um ícone de agressão, que, no entanto, permaneceu pacífico sobre o colo de seu portador.

Bom… o que tanto me causou impacto neste fato tem a ver com minha experiência pregressa, de outros lugares e outras paragens, como, por exemplo, os ATLs em Brasília, nos quais até mesmo os bastões de apoio para caminhar dos mais idosos são retirados pelos seguranças – no último em que eu estive em 2015, acompanhei com revolta a medida ser aplicada em ninguém menos que Raoni Txucarramãe. Sim, eu sei… Um bastão na mão de alguém tão poderoso pode ser algo muito perigoso, assim como me ensinou uma passagem escrita pelo meu autor preferido*, mas ainda assim não vejo outra forma de encarar essas medidas como outra coisa que não desrespeito, até porque o mundo branco sequer acredita nesses poderes.

E é por isso, por ter sido tão acostumada a uma realidade diversa, de desrespeito e cerceamento do ir e vir dos indígenas nas “Casas do Povo” que aquela lança levada a plena vista tanto me causou impacto. É preciso, no entanto, que eu me faça entender sobre este fato: os crédulos que me perdoem, mas desconfiança é fundamental, razão pela qual ainda me pergunto sobre o que de fato as maneiras do Acre para com os indígenas significam. Isso poderia ser realmente interpretado como respeito para com os povos originários e seus símbolos? Ou seria isso um signo de confiança mútua? Ou, ao contrário, tratar-se-ia de nada mais que incredulidade de que possa haver qualquer ação agressiva?

Não sei… Ainda hoje não sei. Penso que talvez nenhuma das respostas seja totalmente certa ou errônea, e penso também que esse episódio representa para mim um pouco do que faz do Acre o Acre, e o que faz muitos indígenas de outras regiões almejarem algum dia converterem-se em um Acre, mesmo que no fundo saibamos que nada aqui é tão simples quanto parece, e que tudo que parece óbvio e certo pode ser justo o seu contrário e também o seu espelho.

O que sei, acima de tudo, é que o Acre é assim pela luta de seus povos originários, pelo sangue que foi derramado aqui, e por tudo o que tiveram de demandar e negociar aqueles que resistiram ao esmagador processo de 100 anos de escravidão da borracha. Sei que se espaço existe ele foi conquistado a um alto preço, e é por isso que ele é tão importante e caro.

É como disse o grande Txai Terri no filme – sensacional – Xinã Bená da – maravilhosa – Dedê Maia, exibido em avant premiére na Arena Puyanawa: durante anos tendo sido proibidos de falar a língua, se pintar e se adornar, agora neste novo tempo, os Huni Kui se adornam numa exuberância ímpar.

Esta profusão de cores, trajes e ornamentos é, sem dúvida, bastante distinta do modo tradicional, e talvez seja assim precisamente por ser a reação a todo o tempo de opressão sofrida. Eles, que por tanto tempo foram reprimidos a expressar na potência do que sempre foram, agora finalmente podem livremente expressar o que são, e o fazem da forma mais colorida e chamativa possível. Porque agora podem.

E foi neste novo tempo (Xinã Bená) que o Acre viu o renascer de muitos povos, tanto do ponto de vista do que em linguagem acadêmica se chama ‘etnogênese’, como no caso dos Nawa e Kutanawa, como no caso do reavivar espiritual e cultural, como ocorreu com os Yawanawa e com os nossos anfitriões Puyanawa. Povos que nunca desapareceram, povos que resistiram, povos que precisaram travar lutas imensas para voltar a Ser, e que hoje São.

Em todo o caso, sei, e com certa felicidade sei, que a despeito de tudo o que mudou, os encontros entre o mundo raion e os mundos indígenas sempre contarão com as marcas diacríticas: sempre haverá de um lado os paletós e as canetas, e do outro as lanças. São mundos distintos, e para o bem de todos os povos originários, espero que com todas as forças continuem a ser.

Mas por outro lado, sei que aqui, como em qualquer outra parte do país, se faz necessário que esses mundos dialoguem quando se encontram, e que as canetas e as lanças não sejam empunhadas uma contra a outra. E, como eu disse no meu texto anterior, talvez o que torna o Acre tão especial seja que aqui ainda existem aqueles que minimamente tentam.

É claro que há também uma parcela grande que não tenta, e um dos motivos pelos quais se deu a Yubaka Hayrá é precisamente a ocorrência no ano passado da “White Conference”, a qual se propôs a tratar com total desrespeito e falta de abertura ao diálogo um tema tão importante e caro para os indígenas.

Neste sentido, sinto antes de qualquer coisa a I Conferência Indígena da Ayahuasca como uma resposta em alto e bom som contra aquele desrespeito, mas não só o que foi vivenciado naquele evento de triste memória em particular: creio que a Yubaka Hayrá foi uma resposta a anos – séculos – de desrespeito, opressão, apropriação e silenciamento. Talvez apenas o começo de uma resposta, pois muito ainda há por ser dito, e o mundo raion (não-índio) ainda precisará aprender e ouvir muito o que os povos originários têm a dizer sobre o seu patrimônio.

Neste sentido, aplaudi a decisão da continuidade da conversa internamente, através de outras Conferências, encontros, diálogo com as bases, para construir um entendimento coletivo, para só então se dirigir às instâncias externas. E é assim também porque essa conversa não é só ‘com os brancos’; é também interna, entre o povo em particular e os povos em conjunto. Pois há muita coisa a ser falada e pensada que não tem a ver com as relações com o exterior, mas consigo mesmo.

Entendo que isso é necessário, mesmo não sendo descendente de um povo amazônida. (A dor ao expor valores tão caros a nós e tão desrespeitados pelo raion é uma linguagem universal e compreensível a qualquer um que tenha sangue indígena, ainda que outro seja o Sagrado, outras sejam as plantas de poder e outras as medicinas Puri.).

Ah, sim… é preciso também que eu revisite um comentário feito dias atrás ao compartilhar um texto do Jairo, no qual eu disse esperar ansiosamente por esta Conferência por vir, por crer que ela seria Indígena e seria também da Ayahuasca, porque assim, seriam ouvidas tanto as vozes indígenas quanto a Voz dEla, verdadeira Senhora deste Sagrado.

E sim. Foi. Estas vozes foram ouvidas em alto, bom e belo som, e o que disseram foi grande e forte. Muito do que foi dito é irrecuperável em palavras, por ser inalcançável agora… Outro tanto, talvez possa ser dito no futuro… E outro tanto ainda… bom… acho que os entendedores entenderão…

Mas estava lá, nas falas fortes e nos cantos maravilhosos de cada um dos povos presentes…

…Os anfitriões Puyanawa, com seu canto triunfal e retumbante, subindo para o céu e se derramando sobre a terra como um brado de liberdade, de batalha vencida pela qual; um canto que arrepia e aquece, que derruba barreiras de resistência e ressoa para muito além das fronteiras de sua terra. Sua melodia se desenha nos ares como um desfile de triunfo, aonde mora alegria e certeza.

O canto Puyanawa é como a fala de seu Cacique Joel, forte, aguerrida, sábia. De uma sabedoria temperada pelo que sofreu e pelo que venceu. Um canto que chora de emoção e não mais de tristeza, um canto de retomada. Da terra, da cultura, da vida. Neste canto se ouve o eco dos Ancestrais que os chamaram de volta, e por isso ele alcança as maiores lonjuras da desesperança de muitos povos, trás calor e faz crer que sim, é possível reviver.

… Os Yawanawa com sua melodia pura e cheia de harmonia, com suas canções que ‘brilham em mim e em você’… Sim, brilham, e como brilham! É também um canto de vitória, de certeza, de história, alegria e paz. Canções de Cosmologia, tradição, renovação. Um canto que fala também da força de mulheres que também ousaram carregar o peso da missão de ser ‘pajé’, e o fazem com honra e coragem; um canto de um povo também renascido e sempre vivo.

… Os Huni Kuin, com sua alegria em música, seu ritmo colorido e forte, seus espirais que nos fazem ver Yube/Sidika e os Kenê cambiantes entre sombra e luz. Um canto que chama e ecoa as florestas e rescende a flores, frutos e caça abundante. Um canto de cura, continuidade, mudança e permanência. Cantos que têm o saber antigo dos Dawiá, e a juventude dos jovens cientistas da floresta. Que fala em tradição desde o tempo das malocas, e em toadas fortes e ricas que têm ultrapassado distâncias, alcançado e encantando pessoas nos mais diferentes continentes.

… E, é claro… Singular e único, Benki Ashaninka… Sempre que ouço-o cantar, penso no personagem Aslam criado por C. S. Lewia: o leão que canta na escuridão do princípio dos tempos, e através de sua voz vai dando forma ao mundo… Em minha cabeça, é assim que a voz de Benki soa… Em meio à escuridão, sua voz anuncia o henóki, e então o céu se faz, e dele brotam as estrelas.

No ritual de abertura da Conferência, quando ele iniciou seu canto, eu estava justamente na arquibancada do lado de fora da maloca, admirando o mar de estrelas de que é feito o céu daqui. Ouví-lo então falando do henóki e de Pawa me fez chorar uma vez mais, porque vi o céu responder àquele canto, e sei que algumas estrelas mais se acenderam perante a sua voz…

E foi assim…

No ritual e nos debates, em tudo isso e em muito mais se fez a Voz dos Povos do Acre, e dEla também, a Ayahuasca, ou Réu, como chamado pelos Puyanawa. Ela falou em voz de canto e em vozes particulares a muitos dos presentes, para cada qual a mensagem que era preciso. (Salvo no caso daqueles que ainda não têm seus ouvidos prontos, ou os fizeram moucos…)

De minha parte, saí dos dois eventos com a sensação de ter vivido um recomeço, pra mim muito necessário e almejado depois de um ano de muitas coisas difíceis que atravessei… Mas sim, começa por aí: atravessei! Tenho agora uma sensação de conforto e paz que não tinha antes de minha chegada à Terra Puyanawa, e antes de ter participado dos rituais, sobretudo o último, que certamente foi uma das experiências mais intensas da minha vida.

Foi para mim sem dúvida um ligar de pontas soltas: como disse, nos primeiros dias do evento, contamos com a participação mais do que ilustre de três indígenas de recente contato da região do Xinane, e que têm sido ainda provisoriamente identificados como pertencentes ao povo Sapanawa.

Tê-los ali conosco foi algo que causou enorme impressão a todos os presentes. Era como rever um espelho de passado, e era também temer o futuro… o deles, e o nosso. Era ter receios e cuidados para com eles, e ao mesmo tempo admirar sua coragem… E, além deles três, eu, filha de um povo declarado morto, ainda fechei o encontro com a descoberta de outro descendente de Puri encontrado no Acre por obra e graça das listas de presença do evento.

Quando anunciei no grupo virtual do meu povo a descoberta, ouvi de um ancião uma frase que já escutara muitas e muitas vezes antes: “Eu cheguei a pensar que era o último Puri do mundo!” (Jerry Puri) Esta fala diz daquilo que disseram de nós desde o início do século, diz de uma outra forma de ser ‘isolado’, em meio a um mundo hostil, diz da desesperança que já esteve em nós, e que a muito custo temos limpado de nós.

Felizmente, essa frase não é verdade. Jerry não é o último; há muitos de nós, pois somos poeira de estrelas… Temos estado as vezes isolados em lugares distantes, mas estamos nos reunindo e nos reencontrando de novo, e espero que um dia também possamos elevar nossas vozes unidas em triunfo, melodia, reconquista e reconstrução de tudo o que nos foi roubado.

Meu último compromisso obrigatório na TI Puyanawa foi visitar o Igarapé que é também um marco da vitória daquele povo. Foi somente na manhã da partida, quando o silêncio já era mais presente que o vozerio, quando já desfeito o acampamento, e as malas prontas, me dirigi sozinha àquele sítio afim de meditar sobre tudo o que vivi naqueles dias…

Rememorei as palavras e as imagens miradas nos rituais, as belas frases ditas ao longo da semana, os cantos poderosos, as vozes, os filmes, e principalmente, aquela que não esteve lá em corpo físico, mas esteve, porque sempre está e estará em tudo aquilo que é verdadeiro e humano: a querida amiga Dedê Maia, a grande mulher cuja história se confunde com o indigenismo no Acre, e que nos enviou também sua voz através de uma linda carta lida na abertura da Yubaka Hayrá.

Sabe, minha querida… este encontro também foi para você, também foi pensado com o seu jeito, seu amor e seu coração, e é por isso que ele foi tão bom! Você esteve, você está e sempre estará aqui no Acre que você ajudou a construir, e nós todos que te amamos estaremos sempre com você, segurando sua mão e lhe dando toda a nossa força e amor.

… Assim, termino o ano com o sentimento de esperança que desesperadamente tenho precisado. Por tudo o que vi e ouvi naquele lugar sagrado que é Terra Puyanawa, eu posso me lembrar do que jamais devo me esquecer nesse ano que finda para dar início a outro: este mundo é um mundo de lutas sim… mas de vitórias, encontros, descobertas, reencontros, renovação e vida. E por isso, posso desejar a todos um Feliz 2018 a todos os que lutam deste lado da existência!

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* Tolkien, é claro…

ANOTE AÍ:

jairo-foto-raial

 Raial Orotu Puri – Indígena do povo Puri. Graduada em Direito. Doutoranda em Antropologia. Chefe de Divisão no IPHAN/Acre. Assessora jurídica da Federação Indígena do Povo Huni Kui do Acre (FEPHAC). 

As imagens utilizadas nesta matéria são todas do fotógrafo Bruno Valentim e foram selecionadas por nosso parceiro Jairo Lima (www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br).

 

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