Sobre Kambô, Huni, Espírito e Controle…

Por: Ibã Huni Kuin Inu Bake – 

Bom dia txai Jairo!

Muito bom txai, duas décadas de estrada e de estudo. Que legal, pelo menos tem pessoas que estão vendo essa realidade acontecer.

Sou filho do Kupi, tenho 37 anos e desde que nasci acompanho meu pai, e nesse acompanhamento eu, mesmo sendo indígena, não estou habilitado a fazer certos tipos de trabalho, principalmente a medicina do kambo, que é como uma armadura onde você vai se proteger e camuflar, por uma coisa que vai te proteger.E ainda existem outros detalhes da aplicação que é a dieta e o acompanhamento com as ervas medicinais.

E hoje você encontra todo mundo aplicando, como se fosse qualquer tipo de brincadeira ou uma ‘pegação’.

Eu durante uns cinco anos, desde que casei com minha esposa Arani Anelise venho fazendo uma caminhada pelo Sul do Brasil e aqui no Norte, no Acre. Vi muita coisa txai, muita coisa mesmo, e fiquei triste, muito triste mas, também, com o coração mais limpo. Fiquei triste sem poder desabafar sobre estas coisas que estão acontecendo, principalmente sobre esse nosso conhecimento e a nossa consagração.

Hoje as pessoas estão ‘pelo brilho’ e não pelo cuidado ou conhecimento. Então, hoje o mundo, as cidades estão abraçando as aldeias e o pior é que aparecem pessoas que acham que podem tirar um proveito, não estão ‘nem aí’ para o que vai acontecer para as pessoas, para as almas, para as famílias.

Durante esse tempo eu já ví muitas coisas, meu txai, e como elas acontecem. ‘Eles’ estão sorrindo e curtindo achando que isso não faz o mal, mas, essa medicina tem o próprio pensamento e a ação dela. Então, isso tá causando uma grande coisa, txai, não só nas cidades como, também, dentro das aldeias. Hoje, quem são os pajés? – São os jovens, pois os anciões estão ficando um pouco de lado.

E essas pessoas que estão fazendo isso na cidade nem imaginam o que é essa medicina, nem sabem como ela atua na verdade, pois, se você fizer uma aplicação e não souber e não fizer a dieta corretamente, isso é como tirar um pouco da sua ‘sorte’, o que nós (Huni Kuin) chamamos de hau yuxin bikï (pegando a alma dela), como se estivesse ‘incorporando’. Ela (medicina) vai aguentar, é claro que ela vai te fazer bem, mas, até quando? Até que dia?

Durante minha caminhada tenho visto que, realmente, muitas pessoas tem o coração bom e realmente vem em busca de um tratamento, mas acabam encontrando certas pessoas que, como eu disse antes: não estão nem aí pra vida para o que vai acontecer. – Estas pessoas querem é sugar.

E as coisas já estão acontecendo, mas, de uma maneira que as pessoas nem percebem, pois estas comercializações vem acontecendo faz um tempo. não começou agora.

Na viagem que que fiz com meu pai Kupi, a gente viu como é a sociedade aí fora, como é que ela está, e como as pessoas que precisam mesmo dessa cura e a buscam acabam se deparando com outra realidade, que não é a que imaginavam…

Vinte anos… e eu ainda tenho uma caminhada bem grande pela frente.

Seria muito bom se o grande Epa Kuxipá e o Yurá Yuxibu* permitissem uma grande visão ‘de fora’, que  pudesse mostrar a estas pessoas o que estão fazendo e no que estão se metendo. Porque, a partir do que você aplica isso vai pro seu corpo, pois é uma vacina. Assim como  primeira ‘vacina’ que dão no hospital quando se nasce, fica uma marca,  isso também é assim (com o kambô), faz parte disso. E isso é uma realidade não vista.

Hoje tem quinhentos e poucos anos que o Brasil foi invadido, então muitas coisas não são mais utilizadas nas aldeias. Tem pessoas que dizem: a cultura perdeu-se… – Na verdade, a cultura não se perdeu. Por causa dos massacres muita coisa não se faz mais, não é mais realizada, mas, a cultura continua viva e a espiritualidade também, porque, quando falamos de ‘espírito’, estamos falando de tudo. Então, estamos no meio de dois mundos: o material e o espiritual. – E se você não estiver equilibrado vai cair. Outra coisa importante de entender é que tanto o lado material quanto o espiritual tem a mesma forma.

Hoje, muitas das coisas as pessoas não sabem mais, elas estão controladas já, mas, não conseguem detectar isso. Uma ‘controlação’ que está acontecendo, talvez a maior controlação global que está ocorrendo é o da bebida ayahuasca, o nosso huni. As pessoas falam: Ah! Não! Estou trabalhando! Estou fazendo o trabalho! – Na verdade isso já não é mais a ‘vontade’ delas, pois já estão sendo controladas. E vou te falar, txai, com sinceridade: Este controle está custando muito caro, porque, imagine quantos trabalhos que acontecem. Quantas pessoas vão e quantas almas se juntam numa só localidade.

Então são coisas que as pessoas nunca souberam, ou, talvez, nunca saberão. E isso está tomando de conta não só na cidade como, também, nas aldeias. Isso os velhos falam, mas tem muita juventude hoje que não estão nem aí, não estão ligando, não estão zelando pela sua saúde, pela sua espiritualidade. Eles ‘estão brilhando’, só querem ‘brilhar’ e isso está causando um grande tumulto também.

Eu gosto, acompanhando tuas matérias (textos). Eu vejo o que você escreve e vejo também como você passou, e como chegou a ver com mais clareza ‘pra esse lado’, como você diz: Pra esse mundo místico.

… Haux, txai.. um grande abraço. Espero que eu tenha sido claro e, se falei demais, desculpa aí. É que venho visto você falar e acredito que estas coisas não são brincadeiras, que vão passar num toque de mágica. São portas que estão sendo abertas. São portas que estão trazendo e também que estão levando.  Em vez de crianças que ainda estão dando os primeiros passos, hoje as pessoas já querem serem doutores e estarem aplicando estas medicinas…

ANOTE AÍ:

Este texto nos foi gentilmente enviado por Jairo Lima, do blog Crônicas Indigenistas.

Atualização (por Jairo Lima)

No dia seguinte ao recebimento desta mensagem fui informado que, durante um ritual realizado em São Paulo onde participavam alguns txai, um não-índio aplicou kambô em um participante que, após passar mal e ser levado para o hospital, entrou em coma.

* Seres encantados e protetores

Ibã Huni Kuin é natural da aldeia Pinuya, Terra Indígena Kaxinawá da Colônia 27, município de Tarauacá – Acre. É um dos grande divulgadores da cultura tradicional de seu povo, realizando atividades pelo Brasil, em especial no Sul. Em seus trabalhos sempre procura alertar as pessoas para os cuidados com o uso das medicinas e, também, buscar explicar sobre a cultura de seu povo. (Nota de Jairo Lima).

Conheça a bela página de Jairo Lima no Facebook: Crônicas Indigenistas

Recebemos hoje, a informação de que a imagem de capa é de Mardilson Torres. Optamos por substituí-la até obter a permissão do autor.

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2 Responses

  1. Mardilson

    Deveriam ao menos dar o credito ao autor da pintura da capa Mardilson Torres,já que nem pediram autorização.

    Responder
    • Eduardo Pereira

      Mardilson, mil perdões. A imagem nos fei repassada, junto com a matéria, como sendo de autoria de Ibã Huni Kuin. Até você concordar, camos substituir a capa, e se você quiser podemos fazer uma matéria sobe você e o seu trabalho. Gratidão por nos informar!

      Responder

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