“Kiyawõtsi”: O Tempo das Águas, segundo o Calendário Ashaninka

Por Manuela Carneiro da Cunha e Mauro Barbosa de Almeida –

O desabrochar das flores do taxi e do ingá marcam a passagem da estação seca para a estação chuvosa. O pássaro katsinarite (espécie de uru, Odontophorus sp., família Phasianidae) se alegra com as primeiras chuvas e canta para avisar a todos quando o inverno chega.

Anunciando a nova estação, várias espécies de insetos, como formigas, grilos, gafanhotos, entre outros, que passaram por um longo período de silêncio, começam a cantar. o rato coró e algumas espécies de sapos também começam a manifestar-se da mesma maneira. Homo (um anfíbio, jia-do-baixo, Leptodactulus rhodomystx), que passou o verão inteiro calada, volta agora a cantar quase todas as noites; ao ouvi-la, os Ashaninka sabem que o inverno se aproxima e que as primeiras chuvas devem cair dentro de poucos dias.

Os primeiros sinais da chegada da estação chuvosa são as nuvens escuras, pouco vento e um calor muito intenso. Ventos e trovões acompanham as fortes pancadas de chuva do início da estação, que em geral são rápidas.

As águas dos rios e dos igarapés começam a modificar-se já com as primeiras chuvas, adquirindo um aspecto barrento, turvo. Ao perceberem os primeiros sinais da estação chuvosa, os Ashaninka que estavam acampados nas praias retornam às suas casas para cuidar de seus roçados, que já estão cheios de  mato, precisando de limpeza.

Os dias escuros de chuva continuam, obrigando as pessoas a se dedicarem à confecção de artefatos ou a atividades que podem ser realizadas dentro de casa, e são características da estação das águas.

As chuvas levam embora os peixes, que desaparecem nas águas barrentas do inverno; mas, por outro lado, trazem consigo coisas boas, como a abundância da caça, os bichos gordos e a fartura das frutas.

Imagem: Paolo R. del Aguila Sajami

ANOTE AÍ:

Manuela Carneiro da Cunha e Mauro Barbosa de Almeia em “Enciclopédia da Floresta – Alto Juruá: Práticas e Conhecimentos das Populações. Editora Companhia das Letras, 2002.

 

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