SOBRE LUTO, PENSAMENTOS, ESPINHOS E FLORES…

Por: Jairo Lima

Olhando para o cursor piscando na página em branco virtual a tela do meu computador fico pensando em várias coisas, enquanto a brisa fria alisa-me as sensações e me fazem querer voltar para a cama, deixando ‘tudo pra lá’.

Os fortes ventos e a fria chuva do inverno nos trouxe uma semana de tristeza e indignação no Aquiry indígena, trazendo dois fatos que, apesar de singulares, na essência, trazem um ponto comum de reflexão e nos remetem a pensamentos profundos sobre essa natureza social e cultural que separa os grupos humanos, destacando as virtudes de uns e ignomínia de outros.

O fato que entristeceu a muitos, principalmente os Yawanawá e parte da grande família Apurinã foi o trágico e precoce falecimento da jovem Rayane, filha de duas grandes figuras do movimento indígena acreano, Letícia Yawanawá e Antônio Apurinã. Seu espírito voou para as dimensões sagradas cedo demais, ainda em tenra idade, trazendo uma grande comoção a todos que, mesmo sem conhecê-la, tiveram (ou têm) contato com seus pais ou com os povos de origem das duas famílias.

Não estive em seu funeral. A distância impediu minha presença física, mas fiquei acompanhando as notícias através de amigos e amigas, com quem conversei e troquei impressões. Mas, mesmo com toda esta distância, não deixei de, mais uma vez, atestar a beleza e a solidez das relações familiares e das afinidades dos povos indígenas, quando muitos saíram de suas aldeias em direção à cidade de Rio Branco para as cerimônias fúnebres.

As conversas e cuidados com os pais da jovem, onde alguns parentes falavam a respeito de levá-los para a aldeia, a fim de apaziguar seus espíritos. Sabe.. o sentimento verdadeiro de cuidar do parente, deixando-o exaurir-se em sua dor e tristeza, sem fantasiar sobre a perda (tão comum em nossa sociedade), onde tenta-se mascarar os sentimentos tristes como estes com frases batidas e clichês do tipo: Ela foi pra um lugar melhor…. – Nada disso.

Com a morte todo um mundo se perde, afinal, cada ser é um mundo em si, então, independente da certeza sobre o que ‘vem após a ponte’, a falta da presença material daquele ‘mundo’, representado pela presença material de um ser querido, principalmente quando este se vai tão jovem, é sim um algo de extrema tristeza, sentimento este que não se deve represar sob o véu da frieza.

Fiquei refletindo sobre essa triste situação, não conseguindo evitar de comparar com a nossa sociedade, ao mesmo tempo em que relembrava minhas próprias perdas de entes queridos. Nos dias que se seguiram durante e após o funeral, senti-me triste, abatido e, ao passo que diariamente lia (e via) as tristes notícias mundo afora, ou visualizava diferentes manifestações tipo #somostodossomalia, dividindo espaços com fotos de pessoas sorridentes, ou a notícia que determinada celebridade ‘quase mostrou demais’, não pude deixar de pensar que estamos, à cada click do mouse nos distanciando cada vez mais uns dos outros.

Não me refiro ao distanciamento físico, mas, sim, ao isolacionismo egoísta que faz com que alguém compartilhe um #somostodosalgumacoisa ou uma triste mensagem de dor e sofrimento pela perda de alguém e, quinze minutos depois, esteja divulgando seu prato do dia, ou a viagem que esteja fazendo, ou a revolta política do momento, ou a polêmica social do momento, ou a indireta para alguém, ou a ameaça, ou… ou…ou…

Tudo bem, entendo perfeitamente quando citam que ‘a vida continua…’ mas, vejo que a consagração dessa frase como um band-aid para todos os sentimentos tristes, ou para as tragédias da vida só nos assinala que caminhamos à cada dia para uma masmorra de solidão e insensibilidade.

Assim, ao ter notícias sobre toda a comoção e os detalhes da passagem e do velório da jovem Rayane, com seus parentes reunidos numa só tristeza, senti, mesmo de longe, aquele calor humano tão necessário à nossa existência quanto o alimento que consumimos, ou o sol que nos ilumina e energiza. E nisso vejo mais uma grande lição de vida social e parental, percebida somente se nos detivermos em refleti-la.

Quantos não postam e pregam o amor, a tolerância e o respeito, mas não se preocupam de manter contato com os pais, ou com os irmãos, ou com aqueles amigos e amigas queridas, ou pior, nem se emocionam com a perda destes? – Pois é, vive-se um culto ao egoísmo e a vaidade, onde ser o revoltado, ou a vítima da vez, em busca de curtidas é o que mais próximo que se almeja de calor humano.

Enfim…

E assim, em meio a lágrimas,  choro e dor Rayane se foi, mas, ao mesmo tempo, para aqueles que tiveram contato com ela, vendo seu sorriso, timbre de voz e jeito de ser, sua presença permanecerá para sempre em seus corações e mentes.

Certamente que os ancestrais de seus povos (Apurinã e Yawanawá) a receberam com alegria na aldeia sagrada e eterna, onde a dor e a tristeza não passam de lembranças distantes de um pequeno ciclo de vida material, necessária ao engrandecimento espiritual.

Que vá em paz, pois os que hoje choram, um dia sorrirão ao encontrá-la do outro lado ‘da ponte’.

O segundo fato marcante da semana, e que corrobora muito do que refleti nos parágrafos anteriores, trata-se da carta de ódio, que uma estudante indígena, da Universidade Federal do do Acre (UFAC) recebeu durante a aula (para ver a matéria clique aqui).

Fiquei extremamente intrigado com o fato, inédito por seu descaramento explícito, onde o ódio racial destilou-se, mesmo que em português acadêmico, sobre alguém que, na opinião do sacripanta letrado não passa de uma ‘indiazinha nojenta’.

Impressionante isso, principalmente aqui na cidade de Cruzeiro do Sul, onde o fato se deu, pois, além de estar rodeada de terras indígenas, a chance de um natural da região não ter sangue indígena é muito pequena.

Mas, sinceramente, os tempos andam confusos mesmo aqui nesta distante região da Amazônia, e isso fica claro quando, ao nos dirigirmos para as labutas diárias, nos deparamos com outdoors enaltecendo pessoas violentas, racistas e homofóbicas como sendo o remédio que nosso enfermo país e nossa decadente sociedade precisa.

Esse horror todo, transmutado em ‘direito de se expressar’ espalhasse como uma gangrena em nosso meio e atinge principalmente os mais jovens, insensíveis e com a mente totalmente diluída por um mundo de informações confusas, e muitas vezes falsas, representado pela internet e a miríade de youtubers raivosos ( e sem conhecimento histórico nenhum), ou de escritores que exaltam revoluções (seja a bolchevique, seja o golpe de 1964).

Bem…

No começo do texto citei que os dois fatos da semana traziam na essência o mesmo ensinamento, e trazem mesmo, pois, pra ser sincero, as únicas ilhas de sanidade social que ainda perduram em nossos dias (pelo menos aqui no Aquiry), em minha opinião, são as aldeias espalhadas por nossas florestas, que, apesar das diversas dificuldades e desafios diários de sobrevivência, a tolerância e o sentimento de unidade perdura e se impõe.

E os momentos de alegria e tristezas são partilhados por todos. Nesses lugares (pelo menos nos que tenho contato), a lembrança do ódio e do sofrimento de outrora continuam vívidas, mesmo naqueles que nem nascido tinham, mas que souberam das atrocidade do passado.

Saio para respirar um pouco, antes de terminar este texto. Sento em minha varanda e contemplo o cinzento céu, sinto a brisa, observo as plantas de meu jardim e as árvores no horizonte. Fico pensando em muitas coisas e nada ao mesmo tempo: “que mensagem passo ao final deste texto” – Penso.

Nisso, sinto uma lufada rápida de vento rente ao meu rosto, e rapidamente foco o olhar em algo que passou por mim e rodopios fez em torno das plantas. Trata-se de um lindo beija-flor que, de tão escuro, suas penas brilham na pouca luz emanada neste dia cinzento.

Alegro-me ao vê-lo. Entendi a mensagem: apesar de tudo isso, o aroma das belezas naturais perduram e ainda atraem esses lindos seres da natureza e, dessa mesma forma, as pequenas belezas, povos e pessoas nesse mundão que vivemos também perduram. E assim como as flores, sempre existirão para mostrar que em meio a tantos espinhos e desafios. Seu aroma e néctar hão de continuar nos atraindo e dando sentido à nossa vida e orientará nossos caminhos…

O passado triste, violento e ditatorial não voltará…

Faço uma prece para a jovem Rayane, que ao se encantar olhe por nós…

 

ANOTE AÍ:

 

 

Jairo Lima é indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC, com especialização em antropologia. Atua há mais de vinte anos junto aos povos indígenas do Acre e desde 2012 é servidor da FUNAI, no Acre.

Os textos de Jairo são publicados semanalmente em seu blog www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br e, por gentileza do autor, também aqui neste nosso site da Xapuri www.xapuri.info.

Imagens, selecionadas por Jairo Lima: Imagem 1 – Entardecer no Envira, foto de Andressa Brandão; Imagem 2: Entardecer no rio Tarauacá, foto de Isaac Melo; Imagem 3: Rio Gregório, foto Tashka Yawanawá; Imagem 4: Super lua, Foto Helio Carlos Melo; Imagem 5: Pescando no lago, foto Assis Txanamashã.

 

 

 

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