UMA NOITE MÁGICA NO TERREIRO DO POVO ASHANINKA: Quando entendi que poderia aprender a voar…

Por: Jairo Lima –

Em 2003 as coisas não estavam nada bem pro meu lado. Muitos problemas e pensamentos cruzados infernizavam-me a existência e o juízo. Não saberia dizer o que ‘tava pegando’, mas, com certeza, estava diretamente ligado a uma mudança de ciclo na vida: eu havia tomado uma decisão que me daria um novo ‘rumo’ na vida.

Não que eu estivesse passando por alguma ‘panema’*, mas, tinha certeza que ‘algo’ turvava-me a ‘visão’ e prendia-me num círculo vicioso de tristeza e incertezas.

Como já conhecia e comungava rotineiramente do ‘vinho das almas’** sabia que boa parte desse sentimento poderia ser de origem espiritual ou energético. Quem tem um mínimo de senso de espiritualidade deve saber muito bem do que estou falando.

A questão é que isso estava me fazendo mal, perturbando-me de tal maneira que havia transformado meus dias em triste rotina melancólica, desprovida de cores e alegrias, onde nada parecia fazer sentido.

Como nunca fui submisso a essa ‘senhora’ que a tudo suga (a tristeza), sabia que, do jeito que tava, a coisa não podia continuar. Eu precisava meter o pé na bunda desse sentimento e reerguer-me. E se isso não fosse possível pelas minhas próprias forças, ou dos que estivessem próximos a mim (pelo menos fisicamente), a solução seria ir em busca dessa ajuda, e eu tinha exatamente noção de quem eu procuraria: Benki.

Já éramos amigos fazia um tempo. Tínhamos comungado juntos de muitos trabalhos na Barquinha da madrinha Chica Gabriel, onde eu aprofundava meus dons musicais e trilhava o profundo e infinito caminho ‘da busca’.

Também era comum estar com ele nas famosas e saudosas noites de cipó no sítio da CPI/AC**, onde juntamente com outros parentes indígenas e alguns convidados como o txai Antônio Macêdo e o txai Terri Aquino, era possível fazer lindos rituais onde todos cantavam um pouco de sua cultura.

Claro que nessa época, apesar de já ser uma liderança bastante requisitada para agendas em todo o mundo, ele dispunha de mais tempo livre em suas passagens por Rio Branco, ou na sua aldeia, já que nesse tempo ele estava desenvolvendo um trabalho pioneiro de repovoamento de tracajá nos rios e igarapés tanto da sua comunidade quanto do entorno.

Por isso, quando o ‘bicho pegou’ de maneira que eu senti que precisava de uma força a mais, resolvi que tava na hora de por a mochila nas costas e buscar ‘minha cura’.


Após alguns contatos e acertei com Benki que o encontraria em sua aldeia, oportunidade que levaria comigo dois amigos que poderiam apoiar seus projetos (um deles financiou a gravação de seu primeiro CD no ano seguinte, produzido e tocado por mim).

E assim, pouco tempo depois, em um pequeno monomotor partindo de Cruzeiro do Sul vencemos os traiçoeiros ventos do Juruá e pousamos na pequena e barrenta pista do ‘aeroporto’ de Marechal Thaumaturgo.

Poucos minutos depois já me deparava com o rosto sorridente e acolhedor do Benki que já havia providenciado tudo para continuarmos a viagem. Claro que, na empolgação do encontro já me pus a recitar o rosário de contas tristes de meus pensamentos, mas poucos minutos depois, com a etiqueta e estilo típico dos Ashaninka, ele me fez entender que o momento ‘do chororô’ chegaria, usando, para isso a frase: “Calma! Deixa pra sofrer depois, porque ainda temos viagem a seguir.”

Exato! Me toquei na hora que estava me transformando em um poço de lamúrias e descontentamentos, somente em busca de um ouvido para descarregar tudo, em vez de exercer controle sobre mim mesmo e meus pensamentos, disciplinando-me.

E assim seguimos para a querida e acolhedora aldeia Apiwtxa.

Na aldeia, Benki fez valer a frase que me disse ainda em Thaumaturgo, pois, sempre nos envolvia em alguma atividade ou conversa que não abria brecha para o ‘bicho-melancolia’ preso dentro de mim. Beleza, afinal, uma festa de piarentsy ou um dia de cantoria com violão são coisas deliciosas e alegres. E assim os primeiros dias passaram…

Certo dia logo após o café da manhã, Benki me chamou, pois uma pessoa havia chegado em sua casa para conversar comigo. Ao ver quem era um frio percorreu minha espinha e, tal qual uma criança que fez pirraça na escola fica diante do diretor, fiquei com o ‘estômago na goela’. A figura não era ninguém menos que o Aricêmio Ashaninka, o  poderoso tutor do Benki, seu professor e guia no caminho espiritual.

Sentando-se ao meu lado, ele me disse que aquele seria o momento para eu contar sobre minhas tristezas e problemas. Ufa! Finalmente tinha chegado o momento de ‘alguém me ouvir’ e, com certeza me aconselhar. Acontece que a presença de Aricêmio olhando-me fixamente me deixou um pouco constrangido e, não sem gaguejar um pouco, contei-lhe o que me oprimia.

Hoje em dia, olhando para trás e visualizando essa cena, com a maturidade que tenho hoje não nego que a cena parecia ridícula. E o que rolou em seguida? Aricêmio não falou nada! Caracas! Eu tinha me exposto totalmente, abrindo as portas dos recônditos mais escondidos de minh’alma e o cara só ficou me olhando?

Não nego que no momento um misto de desilusão e desapontamento tocou conta de mim, pois, pensei que ele iria me dar uns conselhos, um ‘passe energético’, um tapinha nas costas, enfim, fazer algo, mas, em vez disso, ele virou-se pro Benki e falou algo em Ashaninka e, se despedindo com um sorriso foi embora.

Olhei pro Benki com cara de ‘hã!?’ e ele só fez rir e me chamar pra ir tocar violão, o que, não sem um gostinho ruim na boca, assenti. Ao fim da tarde, Benki me disse que o Aricêmio havia falado que faria um Kamarãpy (ayahuasca) para bebermos em breve.

Dois dias depois estávamos mais uma vez tocando violão numa roda com parentes rindo e batendo um tambor. A alegria misturava-se com o movimento das mãos e bocas mascando coca, quando alguém chegou e falou algo para o Benki que, parando um pouco de tocar me avisou: O Aricêmio disse que é pra gente ir beber Kamarãpy hoje na casa dele. Senti um frio na barriga…

À noite atravessamos o pequeno rio Amônia e fomos à casa do velho Antaviary***. Não deixei de me impressionar com o lugar: um grande terreiro bem capinado, com um enorme banco de madeira um pouco reclinado em seu encosto e, contrastando com a beira do rio e a floresta ao redor, uma pequena casa tradicional, típica dos Ashaninka.

Sem nenhuma cerimônia, na semi-negritude que fazia, com uma lua ainda preguiçosamente escondida entre nuvens, tomei assento no grande banco. Ao meu lado um jovem sentou-se e Benki avisou-me: ‘Esse é um jovem aprendiz. É um pajezinho que vai cuidar de você’.

Olhei pra cara do garoto e em seguida pra do Benki achando que ele estava fazendo troça de mim, afinal, já estava calejado de anos de rodadas de cipó e, certamente, não confiaria minha segurança a um garoto. O jovem, por sua vez, com um sorriso enorme e segurando um pequeno cachimbo de coco encarava-me com uma feição amabilíssima.

Sorri pro garoto e olhei pro Benki que já tomava assento um pouco mais distante, no grande banco que contava com a presença de outras figuras, que, excetuando-se meus dois acompanhantes da cidade, aos meus olhos eram figuras anônimas, cobertas com suas cushmas****.

Aricêmio chegou acompanhado por sua esposa, falou algo com todos (creio que uma saudação) e, segurando uma pequena garrafa e um copo, acompanhado pelo Benki que ligava a lanterna para ele enxergar melhor, começou a servir o precioso ‘chá’ aos presentes.

Chegando minha vez, ele serviu uma quantidade e, antes de me entregar o copo, olhou-me novamente e resolveu por um pouco mais, inda assim, a quantidade me pareceu pouca, pois eu já me acostumara a beber bem mais que isso nos muitos rituais que participara até então, mas… simbora. Aricêmio sentou-se com a esposa e Benki ao seu lado na ponta do banco e lá ficou, em silêncio total…

De olhos abertos fiquei observando a cena: pessoas sentadas; um céu de azul profundo ainda clareando com a luz da lua onde pinguinhos de luz tremeluziam por todo lado; a floresta imponente nos cercando; o murmuriinho do rio Amônia alí perto; o som miúdo mas constante de pássaros aninhados; aqui e ali ouvia-se o latir de algum cachorro mostrando-se sentinela aos movimentos; Muito ao longe ouvi o chorar de uma criança… o tempo passou devagar…

… Comecei a ficar apreensivo com o ‘silêncio’ das pessoas*****… o som do ambiente agigantou-se em meus pensamentos para, em seguida, diluir-me totalmente nessa sensação… pensei: ‘Não estou sentindo a força do cipó…. acho que foi pouca a quantidade que tomei’.

Olhei pro lado e o ‘pajezinho’ a quem Benki confiou minha ‘segurança’ fumava seu pequeno cachimbo, fazendo um som baixinho e constante com a boca puxando a fumaça. Fui ficando ‘agoniado’ e senti que precisava levantar e ir ‘fazer uma limpeza’, ou seja, tinha a sensação que precisava ir vomitar. Olhei para o local onde iria e, quando fiz menção de levantar-me uma espécie de gongo zuniu em minha percepção, pois, nesse exato momento, a força do Kamarãpy chegou.

Nesse instante tudo ao redor fragmentou-se em milhões de pequenos pedaços coloridos e a sensação de diluir-me tomou proporções que, em minha percepção, eu simplesmente deixei de existir, tornando-me o ‘tudo’ e o ‘nada’ ao mesmo tempo, como se todo o ambiente da floresta ao meu redor fosse ao mesmo tempo parte de mim, e eu fosse parte dela. Infelizmente o ‘peso’ que me prendia ao estágio inicial da viagem espiritual não me deixava ‘ir’, por isso vi que, realmente, era hora de fazer minha ‘limpeza’.

Com grande esforço consegui levantar-me e seguir em direção a um local e, quando me inclinei sob o peso do mal-estar, de repente, alguém segurou-me por trás, evitando que eu caísse de cara no chão. Virei-me para ver quem era e vi os brilhantes olhos do Benki me encarando. Ele perguntou se estava me sentindo mal, o que confirmei com um pequeno aceno de cabeça… o chão faltou-me e meio que ‘desfaleci’, pois mesmo mantendo noção do que se passava ao redor, senti como se tivesse perdido os sentidos.

No entanto, percebia que estava sendo carregado para longe… eu ouvia o barulho de mato sendo afastado, o barulho da cushma do Benki enquanto ele andava. Para resumir a sensação: era como se eu estivesse sendo carregado por um grande pássaro floresta a dentro.

 

Em determinado momento paramos e, me dei conta de que eu estava sentado embaixo de uma grande laranjeira, com o Benki ao meu lado preparando um cachimbo lindamente talhado em forma de beija-flor.

Pondo tabaco e acendendo, entregou-me  pedindo que eu fumasse um pouco. Consentindo, olhei ao redor e vi que o grande banco com todos sentados estava a uma distância considerável de onde me encontrava naquele momento: ‘como vim parar aqui?’ – Pensei, ou falei… tudo era muito real e muito ‘dimensional’, se é que me entendem.

Benki então, começou a me falar um monte de coisas, tendo como pano de fundo tudo aquilo que eu havia descarregado em seus ouvidos e no ouvido do Aricêmio… claro que não posso escrever ou revelar o que me foi dito mas, asseguro-lhes que foram as palavras mais reveladoras que eu já havia escutado até então. Tudo fez sentido…

Passado um tempo, eu já me sentia mais ‘dono de mim’ e Benki perguntou se eu já aguentava andar até o banco. Respondi que sim e juntos fomos seguindo, mesmo sabendo que eu estava trôpego, segui-o. Antes de sentar, porém, disse-lhe que precisava tirar de mim algo, e para isso sabia que tinha que ‘limpar-me’ e, quando comecei essa limpeza senti algo batendo em minhas costas, um ramalhete de folhas, com certeza, e destas emanava um delicioso perfume.

Virei-me assustado e, para minha surpresa, o próprio Aricêmio era quem agora socorria-me. Pondo-me de pé, passou a limpar minhas energias com essas folhas cheirosas… passado um tempo, com o dedo indicou-me o lugar no banco, de onde eu saíra e que, devido a força do Kamarãpy, parecia que faziam horas.

Sentando-me, já me sentindo leve como uma nuvem, vi que Aricêmio se aproximou de mim e, novamente com auxílio do Benki, serviu-me mais um pouco de Kamarãpy que, confesso, tomei achando que não daria conta, pois ainda estava ‘alto’ na força com a primeira dose.

Aricêmio e Benki sentaram… olhei pro céu que agora era o reino de uma enorme e brilhante lua, que a tudo e a todos iluminava… estrelas brilhavam tanto que eu jurava poder ‘ouvir sons’ oriundos desse brilho. Uma brisa leve e perfumada inundava o ambiente… a sensação de que ‘algo’ aconteceria era palpável… o ‘pajezinho’ ao meu lado estava concentrado e, notei que de garoto este não tinha nada, pois sua figura emanava maturidade e firmeza. Fechei os olhos e finalmente me entreguei…

Um som começou a preencher o ambiente: Aricêmio começou a cantar. acompanhado de sua esposa.

A força subiu…subiu…subiu. Abri os olhos e vi Benki com os braços abertos no meio do terreiro cantando com todas as forças as canções tradicionais do Kamarãpy. Nisso, os pássaros japós que se aninhavam por perto começaram a voar por todos os lados, os cães começaram a latir com força total e, nesse momento, tudo se transmutou…

Pararei por aqui maiores detalhes dessa noite, mas não a deixarei guardada somente em minha mente, no futuro retomarei essa história, podem esperar. O epílogo dessa noite e da seguinte, onde sem a presença do Aricêmio tivemos outro ritual, dessa vez na casa do Benki é que, terminada toda essa aventura, os conselhos que ouvi, a atenção e o carinho que recebi tanto do Benki quanto do Aricêmio, e claro, dos demais membros da comunidade que tive contato, fizeram com que meu retorno à minha ‘aldeia’ de caos, confusão e pedra, fosse bem mais tranquila.

A melancolia e a ‘confusão’ que me assolava foram devidamente expulsas, a energia positiva tomou conta de mim e os ensinamentos que tive ficaram gravados em minha mente e em meu espírito. Ainda tivemos muitos momentos especiais após essa viagem, como, por exemplo, a gravação de seu primeiro CD, o qual pude produzir e tocar suas canções.

No anterior À minha partida da aldeia ganhei um kitarentsi, pois, afinal, eu estava ‘nu’*******.

Resolvi contar essa história exatamente há uma semana antes de iniciar as atividades que culminarão, no próximo dia 14 de novembro, com o início da 1a Conferência Indígena da Ayahausca e que contará, além da presença de muitos txai curadores, com a participação do Benki e do Wewyto.

Vejo que narrar essa ‘viagem’ não se trata de criar mais um monte de idolatria a essa figura, mas sim de singelamente, agradecer pela acolhida e amizade nesses anos todos.

Aprendi que não devemos deixar o ‘bicho-melancolia’ criar raízes em nossa alma. Aprendi que podemos e devemos ter controle sobre nós mesmos.

Aprendi que alguém pode até nos ajudar, tirando alguns obstáculos de nossa frente ou nos ajudando a vermos mais claramente o cerne do problema, mas que, em essência o que nos faz voar leves como pássaros são as nossas próprias asas, por isso, não devemos por sobre os outros todo nosso peso, ou buscarmos suas asas para que nos elevem ao céu.

Afinal como me disse o Benki nessa noite: “Somos todos pássaros com asas fortes, basta aprendermos a usar. É muito fácil se deixar ficar preso no chão, pois parece seguro, mas não é. Melhor mesmo é voar, livre de tudo que esse ‘chão’ representa”.

Jairo Lima é indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC, com especialização em antropologia. Atua há mais de vinte anos junto aos povos indígenas do Acre e desde 2012 é servidor da FUNAI, no Acre.

Notas do Autor:

* Panema – Estado de desequilíbrio do espírito.

** Ayahausca

*** Grau máximo de desenvolvimento espiritual entre os Ashaninka

**** Cushma é a vestimenta tradicional do povo Ashaninka

***** Anos depois entendi o que era isso, pois Benki explicou que antes de qualquer cantoria ou gesto era preciso que, primeiro, o coração das pessoas estivesse sintonizado para receber a cura que viria.

****** Kitarentsi é o nome específico da cushma. Para entender seu significado místico ler “Ashaninka, a arte da beleza”, publicação disponível no site do Museu do índio.

Imagens: As imagens desta matéria foram selecionadas por Jairo Lima e são da autoria de: Imagem 1 – Benki Ashaninka; Imagem 2 – Moisés Ashaninka;  Imagem 3 – Enrique Casanto. Imagem 4 – Moisés Ashainka;  Imagem 5 (capa)- Benki Ashaninka.

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