Ensaio sobre o fim do mundo: E o que isso tem a ver com minha percepção sobre as luta dos Povos Indígenas… DIANTE DO FIM IMINENTE: Será realmente o “fim”?

Passei a semana num mal-estar danado. Não sei bem precisar de onde vinha este mal-estar, qual seria a sua origem. Claro que as peripécias políticas e as derrapadas governamentais contribuíram, em certo grau, com essa sensação infernal, afinal, para quem trabalha, se identifica ou milita junto a questão indígena não tem como não se indignar com as decisões mequetrefes daqueles que, em tese, deveriam zelar pelas leis e pelos direitos dos povos indígenas.

Mas o mal-estar prosseguiu a semana inteira, alternando entre picos de resignação e desalento até sensações de ‘fim iminente’, ocasionado por tudo o que vem ocorrendo nesse mundo doido que vivemos, onde, dos devaneios do alaranjado presidente americano em sua arenga com o anão norte-coreano, até as arapucas sanguinárias dos jagunços contra os índios nos fazem sentir como se vivêssemos dentro de uma panela de pressão prestes a explodir.

E essa sensação de ‘fim do mundo’ tende a se agravar se lermos e dermos atenção a tudo o que postam nas redes sociais; Ou se crermos na miríade de informações que nos chegam através do rádio do carro; Das manchetes e textos dos meios jornalísticos da televisão e da internet;  Da miríade de blogs e sites de pensadores que, de alguma forma, acreditamos nos identificar; Dos inúmeros grupos de ‘what zap zap’ (que de alguma forma surgem aos montes e alguém tem sempre a infeliz ideia de nos incluir) e que, a cada dia, assumem o papel de verdadeiros anjos tocadores das trombetas do apocalipse, pois se acercam e nos invadem a privacidade com mais facilidade que outras ferramentas de comunicação e informação.

Isso tudo,  quando somado,  nos trás a angustiante sensação de que estamos à beira do precipício existencial.  Nesse momento nos vem (pelo menos para mim) a pergunta retórica e tipicamente clichê: E se o mundo acabasse? A sensação de desastre iminente e essa pergunta são interessantes, apesar de não serem monopólio do confuso e desastroso biênio em que vivemos, como se 2016 e 2017 fossem um ano só.

Não é a primeira vez que sinto essa angústia, ou me faço esta pergunta. Pelo contrário, já passei por isso diversas vezes, e acredito que muitos dos que estão lendo este texto, se fizerem um breve exercício mental, com certeza chegarão à mesma conclusão. Isso me faz refletir sobre muitas coisas. Entre estas sob essa sensação horrível de acharmos que nunca estamos preparados para o ‘fim’, seja este do tipo que for.

Esse fatalismo trágico que nossa sociedade nawa (não-índia) ocidental carrega consigo é uma herança que trazemos já há muitos séculos. Estigma este gravado a fogo em nosso ser desde que Santo Agostinho teve a infeliz ideia de destrinchar e nos pregar à alma  a pecha do ‘Pecado Original’,  como mote para nossa eterna imperfeição e sofrimento. Ou seja: Já nascemos filhos do Diabo e condenados à danação eterna.

Assim, desde o nosso nascimento, já chegamos ao mundo doentes, com a “doença do espírito”, que nos empurra cada vez mais para o eterno dilema existencial, no qual o ‘quem sou e o que estou fazendo aqui’ transformam-se em sina e o entendimento de ‘tempo’ varia conforme nossa percepção de mundo. Por isso é que acredito termos esta predisposição para a sensação de fim iminente à cada nova crise.

É interessante resgatar aqui uma memória que tenho registrada, no meu diário de campo de 2001, quando me encontrava entre os Ashaninka do Amônia e, num contato com o ‘mundo exterior’, representado pela minha família nawa,  através de um orelhão que havia na aldeia. Isso se deu quando o tédio de balançar na rede me impeliu a entrar em contato para saber como andavam as coisas, quais eram as novidades.

Na conversa, fui informado que um conhecido amigo, muito religioso e do qual eu comungava muitas afinidades espirituais e filosóficas, havia recebido uma mensagem via internet (ainda bem capenga à época). Na mensagem havia a revelação do ‘Terceiro Segredo de Fátima’* e, que segundo constava: “Um governante muito poderoso seria assassinado.

A partir disso ocorreria uma guerra total, sequenciada por um devastador terremoto com duração de oito horas, que prenunciaria uma total escuridão e frios, que durariam dois dias. Isso dizimará três quartos  da população mundial; E os sobreviventes passariam a viver uma nova era”. – Bizarro né? Mas acreditem, essa notícia me deu um desespero enorme –  não me julguem. Tanto o contexto da minha vida quanto da ‘vibe’ em que eu estava eram outras.

Preocupei-me de um jeito que, garanto ao leitor, chegava até a enxergar aparecendo ao longe no horizonte a terrível escuridão chegando.  Pensei: “Putz! E minha família? Caramba, o mundo vai acabar e eu aqui? E o que vai ser de todos? Estou aqui junto a um povo que nem sabe o que é isso, que não tem ideia dessa profecia!”.

Passei o resto da tarde balançando na rede, mergulhado em pensamentos sombrios dos mais variados. Porém, à noite fui tomar um Kamarãpy (Ayahuasca) e me dei conta do tanto que eu estava sendo ridiculamente nawa, com o imediatismo material e o excesso de ‘esquisoterice’ ditando o meu pensamento de futuro e me cegando ao ponto de não refletir com clareza e discernimento a notícia.

Na força e na visão dos encantados do Povo Japó, sob as bênçãos de Pawa, nas instruções visuais e perceptivas dessa noite encantada, sob um céu totalmente cravejado de diamantes em torno da grande joia de madrepérola pude entender que, o que nos diminui e adoece nossa alma é sempre a ansiedade, o medo do fim, a sensação que tudo vai se acabar de repente, e que não sabermos o que faremos ou que acontecerá conosco nesse processo. Devido a isso temos constantemente a fragilidade de se achar sempre à beira de um abismo, sempre diante de um fim iminente.

Claro que um dia o supre ‘fim’ virá e, seja de um jeito ou de outro, despencaremos no abismo eterno que nossa matéria está fadada a encontrar. Acontece é que  a maioria de nossa sociedade vive despencando, antes mesmo da ‘hora final’, e nessa queda, se desespera, grita, se bate. E porque? Creio que seja porque nossa mente produz fantasias para dar significância à nossa insignificância. Temos esta necessidade constante termos um significado para viver, e como nossa visão de significado de vida está quase sempre atrelada à nossa percepção do agora, vivemos constantemente às portas do ‘fim do mundo’.

Cada época, seja contada  em décadas, em séculos, ou até mesmo em dias e horas a sensação de fim de mundo ou de caos iminente se apresenta e o que faz a diferença é como percebemos isso, e, acima de tudo, como agimos nesse momento, que leitura fazemos disso e que aprendizado teremos com a experiência.

Dito tudo isso acima, sinto que surge agora à mente do leitor a pergunta: “Tá, beleza, mas, qual a moral da história? O que todo esse papo tem a ver com indigenismo, com índios com questão indígena?”

Respondo: Tudo! Pelo menos para mim, que sempre busquei balizar-me pela ótica de mundo dos povos indígenas.

Como já citei logo no início, as notícias que recebemos, nossas conversas nos diferentes meios sociais em que convivemos e os ‘sinais’ que se mostram diariamente nos faz pensar que algo está prestes a explodir.

Para mim, esta sensação foi assistir as impressionantes imagens feitas pela Daiara Tukano, mostrando a invasão da cercanias do Congresso por milhares de índios, muitos com caixões negros jogados no espelho d’água defronte ao prédio; Foi assistir as imagens fortes de violência gratuita, por parte da polícia sobre os manifestantes indígenas; Foi pensar que teremos, em breve, um banho de sangue, ao ver as notícias dos conflitos fundiários que pipocam por todo  o país;  Foi sentir na alma o desespero e a dor, ao ler o brilhante texto da Raial “Ataque ao Povo Gamela: Quem dera o Brasil fosse apenas uma história de violenta ficção”, publicado neste blog, na semana que passou;  Foi se emocionar ao ler todos os manifestos e ouvir todas as entrevistas dadas à Rádio Yandê durante a Acampamento Terra Livre  2016; Foi se revoltar com a facínora ‘bancada ruralista’ e seu ministro da justiça, diante dos ataques constantes aos direitos indígenas e no enfraquecimento do órgão indigenista; Foi ler as matérias da Revista Xapuri ou os links do site Combate ao Racismo Ambiental.

O problema, a meu ver, foi ter somado a tudo isso:  o noticiário político nacional; As notícias sobre o aumento da violência nas cidades;  Ler sobre a falta de perspectiva de futuro de milhões de desempregados; Concordar ou não com os editoriais de ‘pensadores’ e ‘militantes’ expondo sua leitura do assim chamado ‘contexto político social’; Ver o massante cabo-de-guerra entre defensores e detratores da política econômica nacional; Rir, se preocupar ou só ficar sério, enquanto respondo com um emoji, ou comentário breve nos diversos grupos de “zap zap”; Passar a vista pelas manchetes dos diversos sites na barra de favoritos do navegador; Ler postagens revoltantes em compartilhamentos que, em tese, deveriam ser algo leve; etc.

Como não achar que a qualquer momento teremos uma guerra civil, ao vermos crescer e se solidificar uma perigosa polarização que dividiu nossa sociedade entre “nós e eles”?

Confesso, amigo leitor, que cheguei no dia de sexta-feira última sem condições ou ânimo de atender o celular, ligar a televisão ou, acima de tudo, entrar no Facebook. Entrei no quarto, decidi que não iria para o escritório à tarde, avisei às crianças para que não extrapolassem demais em seus corrupios infantis, para não fazer barulho.

Deitei-me no quarto escuro e passei a refletir sobre toda a semana, sobre o que vi, vivi, li, recebi, enviei, etc. Sentindo o incômodo, pensamento e mal-estar típicos de quem acha que estamos diante de um fim iminente. Nisso lembrei de algo essencial, de quando este mesmo sentimento tentou se apoderar de mim. Fui até a prateleira de livros, onde resgatei meu diário da viagem acima narrada, e lí logo ao final dos registros de minha estadia junto aos Ashaninka: “As lutas são constantes, os desafios são enormes, os obstáculos parecem intransponíveis, mas continuemos a luta.

Os povos indígenas seguem lutando com mais força que outrora, sofrendo os mais variados tipos de violência nessa sociedade colonizadora, mas não perdem a alegria, o colorido, a coragem, a presença de espírito e a intimidade com o seio da natureza criadora, mesmo vivendo um ‘fim do mundo’ desde o contato, há mais de meio século atrás.”

Após ler este registro me senti, novamente, ridiculamente caricato de mim mesmo, reproduzindo a mesma reação de dezesseis anos atrás. Levantei, peguei o “zap zap”, apaguei uma série de mensagens e sai de basicamente todos os “grupos”, ficando somente em dois ligados a escritores, indígenas e indigenistas; Fui no meu Facebook, desfiz um bocado de “amizades” com pessoas que eu nunca tive qualquer contato mas que, em muitos casos, jogavam sobre mim através de suas postagens, mensagens negativas e catastróficas intermitentemente, ou que pregavam situações ridículas como ditadura militar, Bolsonaro e surtos do tipo; Bloqueei outro bocado de gente nessa rede social; Exclui da barra de favoritos outro bocado de site e blogs de mensageiros do apocalipse que nunca nos mostram alguma luz no fim do túnel.

Refiz-me e sorri ao refletir, com clareza, que, assim como o mundo não acabou no chuvoso mês de novembro de 2001 quando eu estava com os Ashaninka, assim, também, não acabará agora e que ao longo de nossas vidas passamos por situações drásticas, confusas e tensas, e que as lutas são o que são, que os acontecimentos que me afligiam nos últimos dois meses nada mais são do que momentos, ou o ‘Zeitgeist’**.

E que os eventos recentes protagonizados pelos Povos Originários, mais uma vez mostraram que é possível vencer, mesmo quando se é derrotado em alguma batalha, pois, em verdade, no ‘fim’, a vitória virá, afinal, ao contrário da sociedade nawa, para estes povos, sempre restará a “aldeia mística”, para onde irão, e que, certamente, deve ser em mais divertida e fascinante do que as possibilidades da sociedade colonizadora.

Não posso afirmar que todo o mal-estar, ou a ansiedade que vinha sentido desapareceu totalmente neste fim de semana. No entanto, asseguro que colhi mais um grande ensinamento e atestei que, em suma, é hora de voltar a usar, como filtro, a receita ensinada na parábola das tais ‘três peneiras de Sócrates’***.

ANOTE AÍ:

Jairo Lima, escritor e indigenista acreano, publica seus textos semanalmente no blog www.cronicasindigenistas.blogsport.com. Por gentileza de Jairo, suas crônicas são publicadas também aqui, no site da Xapuri: www.xapuri.info.

NOTAS DO AUTOR:

 

* Segredos de Fátima – é a expressão atribuída a um conjunto de revelações alegadamente apresentadas por Nossa Senhora a três crianças portuguesas, Lúcia dos Santos (de 10 anos), Francisco Marto (de 9 anos) e Jacinta Marto (de 7 anos), mais conhecidos como “os três pastorinhos de Fátima”, no dia 13 de julho de 1917.

** Zeitgeist – pronúncia: tzait.gaisst: é um termo alemão cuja tradução significa espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo.

*** Para conhecer a parábola: https://pensador.uol.com.br/frase/NTU5ODg/

As fotos desta matéria foram selecionadas por Jairo Lima e são da autoria de:

Foto 1: Huni Kuin – Foto: Ion David
Foto 2: Foto: Maria Emilia Coelho
Foto 3: Foto: Midia Ninja
Foto 4: Foto: Instituto Socioambiental – ISA
Foto 5: Foto: Site Outras Mídias
Foto 6: Foto: Jailson Mendes
Foto 7: Ashaninka – Foto: Acervo Isaac Piyanko
Foto 8: imagem do diário de Jairo Lima, com excerto da Terceira Revelação de Fátima, 2001
 

 

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