O Fusca, a Ayahuasca e os Povos Originários –

Por: Domingos Bueno

Dia 10 de Agosto no prédio da Funai de Cruzeiro do Sul ouvi um aviso inusitado:  Daqui a pouco chegarão uns parentes que estão vindo do Pará, numa viagem de cinco dias dentro de um Fusca !

Imaginei que seriam figuras de linguagem próprias da euforia que acompanha esses momentos liminares dos encontros e congressos, onde pessoas por vezes desconhecidas ou que se reencontram procuram alinhar expectativas e ansiedades mútuas que extrapolam o sensível. Não era esse o caso.

Após alguma espera e endereços trocados por SMS eis que chega o possante 1300 com rodas de liga leve, portando três queridos txais Xypaia do Pará que formam  uma família com seu filhinho que ainda não interava um ano de idade.

Surpresa total, espanto, fotos, risos e selfies com a criaturinha que depois de 5.000 km de estrada num carro refrigerado a ar sem ar condicionado estava com um ótimo humor. A partir dai iniciava-se um interessante encontro de sociedades e realidades que naquele momento poderiam parecer distintas, mas que guardavam equivalências simultaneamente conflituosas e desejosas.

Os Xipaya são falantes da família linguística Juruna do tronco Tupi que travam desde o século XVII uma batalha épica com extrativistas invasores de seus territórios, sendo obrigados a se submeter a diversas demandas exógenas que lhes subtraem direitos através de sofisticadas formas de cooptação e dominação.

Mas o que tem isso a ver com a Segunda Conferência Indígena da Ayahuasca? Ao longo dos dias esse jovem casal foi nos contando um pouco de sua sofrida trajetória e de seu  recente contato com a ayahuasca. Falantes do tronco Tupi eles receberam em 2016 a visita dos parentes Yudjá (Juruná) do Parque Nacional do Xingú falantes de seu idioma que os iniciaram nos conhecimentos sobre o cultivo, preparo e uso da ayahuasca.

É pacifico hoje em dia na comunidade científica a compreensão de que o conhecimento e uso da ayahuasca é circunscrito aos povos originários das terras baixas da Amazônia através de um longo corredor multinacional que, até onde se sabe, não inclui a Zona Costeira ou a região Central do Brasil. E é ai que entram os vários relatos episódicos da expansão desse conhecimento desses povos, em movimentos centrífugos e centrípedos, isolados ou simultâneos.

Por volta de 2012 os Yudjá tomaram contato com a ayahuasca através da Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (UDV) que manifestaram o desejo de conhecer a ayahuasca, da qual já tinham ouvido falar desde 2005 por ocasião de uma de suas lideranças que já havia visitado a região Norte do Brasil num intercambio com os parentes Ashaninka.

Seus primeiros relatos do contato com o chá nas várias cerimônias ocorridas tanto na própria aldeia como no espaço urbano da UDV são intensos e instigantes propiciando percepções simultâneas tanto do ritual e da doutrina da UDV quanto de seus novos ou revividos caminhos, nawã kene hãtxa kuin: o caminho do povo na língua verdadeira.

Edson Lodi, um jornalista, escritor e sócio da UDV que participou de um desses encontros no Xingú descreve um pouco de sua percepção sobre os reencontros:  “O mundo de Hoasca (ayahuasca) é feito de sons, de luz, de mistérios e por que não dizer? de imagens. E de onde vêm essas imagens encantadas e para onde nos conduzem? (…). “

No contexto das trocas interculturais talvez seja interessante notar que os fundadores das principais linhagens ayahuasqueiras não-indígenas tiveram seu primeiro contato com a ayahuasca através de pajés indígenas ou dos assim chamados caboclos nos idos do século XIX durante a então próspera indústria da extração do látex durante o Ciclo da Borracha, formada por um exército de seringueiros, seringalistas e indígenas. Ainda não está totalmente claro se os caboclos dos relatos desses contatos referem-se aos muitos mestiços de não-índios com índias, os quais constroem essas pontes nas fronteiras geográficas e cosmológicas da floresta com a cidade, ou efetivamente à indígenas que utilizavam essa camuflagem cultural colonizadora que os protegia da virulência dos não-índios .

De fato os Yudjá Juruná hoje cultivam e produzem a bebida ayahuasca em suas terras tendo cada vez mais incorporado essas práticas em seu cotidiano e difundindo-a entre os parentes como no caso dos Xipaya, que tem um fusca, um filhinho e um violão.

É singular perceber essa movimentação intercultural na medida em que  as possíveis barreiras linguísticas, geográficas ou sociopolíticas pouco ou quase nada interferem em seu caminhar. O fundador da UDV José Gabriel da Costa, o Mestre Gabriel, bebeu ayahuasca pela primeira vez em 1959 (na UDV a bebida ayahuasca é chamada de vegetal) das mãos de Chico Lourenço nos seringais da fronteira entre Brasil e Bolívia, num movimento que direciona conhecimentos da floresta para a cidade, pensado muitas vezes como da periferia para o centro e que no presente caso dialeticamente se inverte.

Cinquenta anos após a fundação da UDV, uma instituição ayahuasqueira tipicamente urbana que se organiza em torno de um escopo doutrinário que utiliza uma linguagem próxima ao cristianismo reencarnacionista, ela torna-se – tal qual Chico Lourenço – o agente facilitador entre mundos distintos que não mais colidem e a partir daí podem prosseguir num certo tipo de fluxo originário que suporta faces e olhares múltiplos.

Os Xipaya do Fusca, como carinhosamente alguns de nós os referíamos, nos contaram episódios terríveis que tem vivenciado no Pará. A Cacique Juma nos contou que só nesse ano já foi vítima de cinco atentados contra sua vida, além do assédio constante das empresas de extração que a isso dedicam atenção permanente, cooptando inclusive atores e agentes das próprias instituições oficiais que deveriam protegê-los.

Uma dessas formas de dominação relatada é similar às praticadas em regiões de conflitos interétnicos globais que promovem migrações dentro de territórios ocupados promovendo a inseminação forçada de mulheres através de estupros e os casamentos interétnicos de conveniência, como os que acontecem no Pará.

Naquele contexto os não-índios que historicamente mantém relações de dominação e submissão com mulheres indígenas casam-se oficialmente com elas e a partir dai ocupam áreas de terra e criando novas aldeias em que se tornam lideranças pretensamente autênticas com direito a voto nas assembleias indígenas, que por sua vez terminam por se constituir em foros dominados pelos patrões. Estes por sua vez, referendados por uma aura de legalidade participativa, persuadem os diferentes agentes governamentais que atuam na região a agir segundo seus próprios interesses.

É nítida a percepção nesse momento das diferenças de atuação política e representação social entre os povos originários do Norte em relação aos de outras regiões do país, onde não são percebidos como guardiões dos conhecimentos milenares da floresta mas sim obstaculizando a execução de projetos de desenvolvimento regional, tal como ervas daninhas que devem ser domesticadas ou arrancadas.

Nesse sentido a Conferência Indígena da Ayahuasca cumpre um papel de relevância que extrapola (se é que isso seja possível) seus objetivos primários e imediatos ligados ao uso indiscriminado da bebida, a regularização e normatização de seu transporte para uso ritual extra-aldeias e além da crescente pressão de grupos neoxamânicos ou mesmo indígenas em relação a sua universalização com a consequente incorporação de significados e substâncias outras, como o rapé e a cannabis,  que nos remete a um novo e conflituoso patamar de elaborações sobre os conceitos de originalidade e tradição.

Para os Xipaya, que viajaram cinco mil quilômetros num Fusca para participar de uma vivência de imersão junto a seus parentes do Norte, essas são questões menores quando comparadas ao feito de unir mais de 200 lideranças, pajés e artistas indígenas – dentro de suas contradições, avanços e recuos – num objetivo comum. A quantidade de energia produzida nesses dias de debates, apresentações artísticas e rituais, representa fielmente a importância e a centralidade que as tradições ayahuasqueiras vem alcançando no cenário não apenas regional mas nacional. Essa intrincada rede de pensamentos, percepções, línguas e tradições é construída continuamente através de laços invisíveis,  resistentes e duradouros através desses elos de liana.

Como ainda nos diz Edson Lodi: Quantas faces tem a face de Hoasca? Eu, da mesmo forma que ele, desconheço a resposta embora nesse contexto me agrade pensar, diante da impossibilidade de compreender e delimitar essa multiplicidade de expressões, numa perspectiva que me conduza a imaginar menos de suas possibilidades de abrangência e mais do que nela não encontraria um lugar.

Parece que nesse sofrido país de Jorge Bem Jor, daqueles que tem um fusca, um pandeiro, um violão e um histórico de violência e desigualdade, os Xipaya encontraram um porto seguro para ancorar.

Haux Haux!!!

Domingos Bueno  (à esquerda, na foto acima) é Etnomusicólogo, Professor Mestre da Universidade Federal do Acre (UFAC) e Doutorando pela Universidade Federal do Paraná(UFPR).

Esta matéria foi publicada originalmente no blog do indigenista Jairo Lima: http://cronicasindigenistas.blogspot.com/2018/08/o-fusca-ayahuasca-e-os-povos-originarios_20.html#more Conheça a página do Crônicas Indigenistas no Facebook (clique aqui). Lá encontrará, além de nossos textos, várias e diversificadas informações. Também temos o canal do YouTube: Crônicas Indigenistas – Música Indígena (clique aqui). As fotos desta matéria nos foram cedidas por Jairo Lima.

 

 

 

 

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