Politicalha Tropicaliente: Quando os “bicho ruma” começam a chegar às aldeias

Por Jairo Lima –

E vem aí 2018…

Eu sei que o ansiado mês de dezembro ainda está relativamente longe, e com ele aquela sensação de que, com a mudança de calendário anual, tudo será diferente. Infelizmente, como estamos descobrindo a cada dia, o ano de 2016 até hoje parece não ter terminado.

E mesmo tendo a sensação de continuidade do ano anterior, ao que parece, pulamos direto para as portas do seguinte. Por quê acho isso? Simples. Basta ver a sanha de futuros candidatos e de políticos posando para fotos nas comunidades indígenas aqui pelo Aquiry. Todos seguindo o protocolo de sempre: cocar na cabeça, pote de caiçuma nas mãos, cara de feliz, urucum no rosto, postado ao lado de um txai fazendo o sinal de ‘legal’ com o polegar…

Claro que as câmeras não mostram um outro lado desses candidatos: a carinha de nojo na hora de beber um gole (bem pequeno) de caiçuma, o desconforto por estar suado e com insetos rondando, os assessores fazendo piadinhas nos ouvidos uns dos outros e rindo de alguma coisa que ninguém sabe o que é, os celulares tirando fotos sem que seus donos tenham sequer pedido autorização…

A campanha de 2018 já começou, pelo menos por aqui. A vontade de se tornar parlamentar ou chefe do executivo suscita desde a mais terna compaixão até a mais covarde vilania. São aspirantes querendo chegar ao trono e os entronizados querendo manter a cadeira. As tramas são dignas de constar numa versão contemporânea de GoT*.

As comunidades começaram a receber visitas constantes dessas figurinhas, muitas delas carimbadas no meio político acreano. E nesse período em que começam os festivais é que as comitivas infestam o ambiente das aldeias, tal qual um enxame desagradável de piuns**, que não servem pra nada, a não ser sugar o sangue da gente. Acho interessante que os caras nem disfarçam, e em muitos casos a cara de impaciência, desejando sair dali o mais rápido possível.

Porque não vão discretamente fazer suas visitas? Boa pergunta, e a resposta certamente já deve ter pipocado no pensamento de quem a lê nesse momento.

Chegam nas comunidades e, claro, anunciam um céu de brigadeiro de benesses que virão para toda a comunidade que apoiar sua candidatura. O que chama atenção é que nenhum deles põe por escrito ou assina qualquer promessa.

Seria ótimo que esses políticos chegassem numa aldeia e, enquanto falassem, uma ata estivesse sendo escrita por algum de seus aspones e, ao final da fala, após colher algumas impressões da comunidade, assinasse o documento que, em seguida seria lavrado em cartório.

Isso seria ótimo, mas impossível de ocorrer.

A pauta indígena não é de interesse das classes políticas dominantes. Amplio ainda mais a frase: as pautas ambientais, com seus povos tradicionais e originários, não são pautas sérias das classes políticas dominantes.

Não vemos uma mobilização verdadeira e contínua dessas classes em prol das populações indígenas. Não vejo sequer um único político do parlamento estadual e federal que ostente a bandeira de luta dos povos indígenas. O máximo que se faz é juntar a pauta indígena no mesmo leque de demandas de minorias, ou de ideologias.

Quando vejo alguns parlamentares ostentando um cocar, me dá uma coisa ruim, principalmente quando são aqueles que possuem suas fazendas cheias de cultivo transgênico, ou apinhadas de boi. Ou, ainda, aqueles que nunca defenderam os povos e as políticas indígenas e, por ocasião de algo específico, ostentam adereços e falam em nome dos povos indígenas.

Ridículo.

A política indigenista está virada de cabeça pra baixo e, fora as manifestações de lideranças, movimento indígenas e indigenistas, nada de concreto está sendo feito, por parte de nossos representantes. Ops, corrijo a frase: por parte desses representantes.

Creio estar na hora de mudar esse triste cenário. Tá na hora de acabar com essas oligarquias e feudos políticos. É preciso fortalecer e estabelecer definitivamente o espaço indígena nos círculos de tomada de decisão. Em todas as esferas de poder há de se garantir este espaço.

Fico olhando esses movimentos desses ‘bichos de ruma’ rondando as aldeias, enganando os txai e se aproveitando do pouco contato que muitas comunidades têm com a sujeira política. Prometem o que não podem cumprir e, quando ganham, somem. E quando não somem aparecem nas comunidades para fazer propaganda, para criar feudos de poder.

Vejo a falta de apoio quando candidatos indígenas pleiteiam vagas no legislativo e executivo. São aceitos pelos partidos, mas relegados a uma posição de enfeite nas campanhas.

Na eleição passada, aqui no Acre,  teve candidato ingressando na justiça para garantir sua entrada para proselitismo político em terras indígenas, mesmo tendo sua entrada proibida pelas lideranças que decidiram barrar toda e qualquer entrada de candidatos. Vejam bem como é a sanha colonizadora dos caras: em prol de garantir o direito das comunidades (pelo menos em seus discursos) vão contra uma decisão da comunidade.

Venho acompanhando as discussões do movimento indígena acreano, nas comunidades, sobre os candidatos indígenas a serem apoiados nas próximas eleições de 2018. Alguns nomes já foram definidos. Agora é arregaçar as mangas e buscar o apoio das demais lideranças e comunidades para se lograr êxito. Parece uma empreitada impossível mas não é, e o exemplo disso foi a estrondosa vitória do professor Isaac Toto Ashaninka para a prefeitura de Marechal Thaumaturgo.

A cada dia novas lideranças e jovens das comunidades vem adquirindo conhecimentos e dominando as ferramentas de comunicação e o resultado disso, para o futuro, é a conquista de espaços cada vez maiores, pois a comunicação é uma ferramenta poderosa que pode ser usada em prol das lutas indígenas.

É preciso mudar essa realidade e, com sua mudança, não só os povos indígenas sairão ganhando. Todos nós ganharemos, pois teremos no poder aqueles que não se preocupam somente com seus bois ou suas monoculturas transgênicas.

Tá mais que na hora de lutar por esse espaço, e nessa luta acredito que os txai não estarão sozinhos.

Chega de se contentar com migalhas ou com refugos das políticas de desenvolvimento jogadas nas comunidades sem qualquer qualidade. Chega. Eu já afirmei uma vez e reafirmo: Às vezes, o nada é mais digno que qualquer coisa.

Essa história vai mudar, no futuro. Eu creio piamente nisso e, no que concerne especificamente sobre essa crença, me apego nas palavras proferidas pelo saudoso e majestoso Ariano Suassuna: ‘existem dois tipos de pessoas nesse mundo: as que concordam comigo e as que estão erradas’.

ANOTE AÍ:

Notas do autor:

* Game of Thrones

** Pium é, segundo comentou Tastevin, em suas memórias no início do século XX uma das pragas certamente saída dos infernos, e sobre a qual ele iria pedir uma autorização especial do Papa para excomungá-la. É uma espécie de borrachudo que suga o sangue e azucrina o corpo e a paciência durante todo o dia.

Sobre o autor:

 

 

Jairo Lima, indigenista e escritor acreano, publica seus escritos, semanalmente, em seu blog; www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br. Por gentileza de Jairo seus excelentes textos são reproduzidos também aqui, neste nosso site da Xapuri.

Imagens: As imagens que ilustram esta matéria foram selecionadas por Jairo Lima e são da autoria de: 1) Jaider Esbell; 2) Terrasnauas; 3) Mana Huni Kuin; 4) Ibã Hunikui; Capa: Terrasnauas.

 

About The Author

Jairo Lima

Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano.

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