Os Puyanawa fizeram festa, e eu estava lá… 

Por Jairo Lima

Não sei se é porque estou envelhecendo, ou se é por causa da tensão nacional, ou, ainda, se é devido à melancolia que toma conta desta parte do Pindorama. O que sinto e percebo é uma loucura geral tomando conta de todos, onde a miríade de postagens, reportagens e afins tomaram um rumo esquizofrênico e sufocante que nos entristece e tensiona o nosso juízo.

No início da semana que passou recebi visitas interessantíssimas: um velho amigo das longínquas areias do deserto egípcio e uma nova amiga, de um confuso país onde um alaranjado presidente sonha com um muro que o separe do resto do ‘mundo americano’.

Boa conversa, boa comida e boas lembranças deram o mote para sensações saudosas e perspectivas de futuro mais aprazíveis. Visitas boas, mas que duraram pouco, pois, precisavam seguir viagem. Vieram de longe para prestigiarem uma breve estadia com o ‘Povo do Sapo’, o poderoso povo Puyanawa das margens do rio Môa, na segunda edição de seu Festival da Macaxeira Puyanawa.

Indo as visitas para seu destino, dei-me conta que o restante da semana caminhava para o suprassumo da sensação de estar ‘com o saco cheio’ de tudo. Sensação ruim, aumentada pela soma de secura, com frio e calor que tomaram conta da região, trazendo-me ao peito, a sensação fantasmagórica de estar a um passo do desfalecimento.

No ápice do mal-estar resolvi que não ficaria à mercê dessa melancolia toda. Mandei os demais compromissos que tinha às favas e me inseri no grupo que estaria participando do evento. E assim, tal qual desbravador, segui em direção oeste, com o sol erguendo-se soberano às minhas costas, enquanto nosso veículo serpenteava em direção à aldeia Ipiranga, sede do festival.

Mal sabia eu que, assim como no ano anterior, esta visita me traria ensinamentos, percepções e confirmações.

Cheguei cedo ao local, as festividades não haviam iniciado. Busquei logo o cacique Shainay para me apresentar, afinal, estava chegando à casa dele e nela não entraria sem sua ciência. No breve papo que tivemos, aceitei de bom grado tomar um pouco do cipó, preparado especialmente para o evento. Afinal, muitos tomariam também.

Boa maneira esta de prestigiar algo da cultura, quando não se está inclinado a entregar-se aos prazeres da caiçuma ‘brava’. E assim, juntamente com ele, bebi um pouquinho. Depois, misturei-me ao ambiente social colorido e multicultural – assim como multilinguístico – conversando com alguns estrangeiros e demais yura (não-índios) que chegavam.

Sempre me senti muito bem nos momentos e espaços festivos nas aldeias. Ver o colorido das plumas, colares, pulseiras, pinturas e sorrisos, é sempre uma visão que beira a transcendência, nos transportando a um estado gostoso de alegria, bem diferente das artificialidades etílicas e plásticas dos eventos em nossas cidades.

No caso específico do período festivo da sociedade yura (não-índia) acreana, em que se comemora a ‘cultura do boi’, o ciclo de festividades indígenas que tomam conta do estado a partir do mês de junho escancara ainda mais a ignorância e pequenez cultural dos que se divertem arrastando pobres animais para a quentura e secura das chamadas ‘cavalgadas’ que ocorrem nesse período.

Já começava a sentir a ‘força’ enquanto caminhava e observava as diversas barracas sendo organizadas, com todo tipo de produtos possíveis de serem feitos a partir da macaxeira, e eram muitos. Observava também as barraquinhas com os artesanatos e tinturas disponíveis.

Retornei ao grupo do qual fazia parte e juntos fomos a uma das malocas, onde realizam seus rituais de Uni e sentamos para observar a organização da dança que logo se iniciaria. A força chegou com intensidade e, aos meus olhos, tudo se transformou. Olhei ao redor e vi algumas pessoas que também estavam na mesma emanação.

Certamente que minha percepção transformou-se completamente, como se estivesse vendo tudo através de um prisma multicolor. Os aromas, as vozes, o farfalhar das saias de palha, o barulhinho dos adereços… tudo se mesclando harmoniosamente… tudo fazendo sentido.

Ao passo que a força subia, e meus ouvidos zumbiam, me dei conta de que eu estava onde deveria estar. Dei-me conta de que as peias cotidianas e o quizumba infernal da semana tinham ficado bem longe, em algum lugar que, definitivamente, não era ali.

A maloca sagrada, onde fazem seus rituais é um local bem grande e seu interior é envolto em uma penumbra convidativa, o que propicia uma pequena ilusão de ótica quando estamos adentrando-a: tem-se a impressão que esta não tem fim, pois parece estender-se indefinidamente como um longo túnel.

Esta impressão só deixa de existir quando vamos adentrando-a mais e mais e chegamos ao seu final, quando nos deparamos com o trono do cacique (e curador) Shainay, onde, logo à sua frente, vê-se uma pequena mesa onde o vinho sagrado repousa em pequenas garrafas.

Então, fiquei ali, sentado, sentindo a emanação da energia deste local, observando o movimento que a cada momento aumentava o frenesi do ambiente, como se pequenas descargas elétricas acendessem os ânimos de todos. Vi alguns tomando um pouco de cipó, enquanto outros faziam os últimos ajustes na pintura facial ou nos enfeites do corpo.

E eu ali… sentado… meus companheiros ao meu lado, nitidamente na mesma energia que eu. Sinceramente, fazia muito tempo que não me sentia tão seguro e tão confortável em um lugar, como me senti naquela maloca.

O frenesi deu lugar a uma rápida organização enquanto todos se perfilavam para sair da maloca em direção ao centro da ‘rena’ (como chamam o local) onde um grande campo de areia branquíssima destaca-se em relação ao verde da floresta e as cores das malocas ao redor.

Chama a atenção não ter penduricalhos pelas paredes, tipo cocares, quadros new age, imagens, cristais, etc. Na verdade, o espaço não tem glamour ou enfeite de qualquer tipo. É um espaço tão simples que nem energia elétrica tem, onde a iluminação é feita à base da poronga. Ou seja: PERFEITO!

Sua função sagrada é perfeitamente observável ao notarmos que é isso mesmo: ela é um canal para a viagem sagrada e não necessita de enfeites que macaqueiem e disputem a atenção de quem participa do ritual. A grandeza da natureza ao redor já é o enfeite necessário.

E assim, perfeitamente organizados os vi sair do ambiente, o que causou outra visão muito interessante, pois, como estávamos dentro da maloca e esta é bastante escura por dentro, a porta de saída, com a iluminação solar parecia como um portal de fogo onde os corpos envolviam-se em pura luz. Respirei fundo e pisquei algumas vezes, como que para me dar conta de que precisava, também, me dirigir para este portal de luz, e assim segui a procissão colorida e alegre.

Passei pela porta e me vi totalmente banhado pela luz do astro-rei e assim, juntamente com meus colegas, perfilei-me sob sua luz e força para apreciar o início das festividades. Olhei para o céu que estava totalmente azul, sem uma única nuvem que maculasse sua cor. Um vento frio trazia para o ambiente um aroma doce, oriundo da floresta, bem como refrescava nosso corpo, lembrando que na noite anterior a temperatura havia sido muito fria.

Fiquei observando a dança e a cantoria já há muito conhecida por mim, e olhando ao redor vi os convidados locais e os visitantes internacionais sentados, também observando tudo. Forcei a vista para ver, ao longe, um alvissareiro de aves voando sobre a copa verde das árvores. Tudo era paz e harmonia, uma sensação boa, leve. As energias fluindo do bailado e das cantorias.

Terminada a dança de abertura, tivemos uma palestra das duas autoridades responsáveis pelos festejos, o cacique Shanay e o presidente da associação e principal divulgador da cultura Puyanawa, Puwe.

As palavras eram pronunciadas com força, embaladas pela energia do Uni e, para os que estavam na mesma emanação, assim como eu, parecia que essas palavras ecoavam por todo o ambiente, e falavam a respeito de uma luta pela recuperação da cultura, iniciada há alguns anos atrás, e de como no decorrer dessa caminhada muitos desafios foram vencidos.

Shainay, de olhos fechados palestrando, movia o corpo na intensidade em que contava essa história. As penas de seu cocar davam-lhe um ar de majestade. Aqui preciso citar uma coisa muito interessante: Tanto ele, como o Puwe e os demais membros da comunidade, não costumam usar muitos cocares, na verdade, além de serem bem simples, usam sempre o mesmo, pois faz parte de sua identidade, e seu uso vai além do simples aspecto decorativo.

Vencida a abertura, com suas danças e cantorias, bem como a palestra dos anfitriões, o sistema de som anunciou que haveria uma pausa para o almoço, e em seguida, seriam feitas as pinturas em todos os convidados, a fim de iniciarem a segunda parte do dia, dedicado às brincadeiras. Saí do transe sem me dar conta que estava nele. Olhei ao redor e vi que não havia sido só eu que me encontrava numa espécie de transe, pois isso era nítido nos rostos de todos.

Peguei meu cachimbo, pedi o violão do Shainay emprestado e, enquanto todos iam para as pinturas ou apreciar um delicioso almoço à base de peixe, fiquei sentado num lugar, fumando, tocando violão, conversando com algumas pessoas, e me sentindo uma pessoa felizarda de ter em minha história pessoal a felicidade de me encontrar com este povo.

O dia foi lindo, cheguei mesmo a esquecer das peias que me infernizaram nos últimos dias, a única coisa que ecoava em minha mente, além das sensações que havia experimentado neste dia, foram as palavras que eu mesmo escrevi em uma de minhas crônicas sobre este povo e que vejo ser necessário repeti-las aqui, pois, no momento, não encontro mais palavras para descrever o que sinto:

“Por fim preciso dizer que a terra dos Puyanawa é um local lindo de se visitar.

Preciso dizer que aquele povo sabe receber e tratar muito bem seus visitantes. Preciso dizer que as festas são lindas de ver.

Preciso dizer que a caiçumada é forte e realmente nos embebeda com um misto de cultura e volúpia que nos faz acreditar ser esta uma das caiçumas mais fortes que se pode encontrar na região.

Preciso dizer que a alegria de todos é contagiante e nos eleva a um estágio de conforto e proximidade humana que poucas vezes dispomos em nossas cidades de pedra e de isolacionismo social.

Preciso dizer que os igarapés e lagos propiciam um delicioso refrigério para o corpo.

Preciso dizer que a noitada de cipó nos eleva ao mais alto grau da espiritualidade e contato com a Mãe-Terra.

Preciso dizer que suas canções nos emocionam e nos alegram ao mesmo tempo.

Preciso dizer que me sinto um privilegiado de ter a oportunidade de estar em constante contato com povos como este.

Preciso dizer que, se um povo como os Puyanawa não existisse, o mundo indígena acreano e o Acre como um todo seria menos alegre e colorido”.

ANOTE AÍ:

 

 

Jairo Lima, indigenista e escritor acreano, publica seus escritos, semanalmente, no blog:  www.cronicasindigenistas.blogspost.com.

* Todas as imagens desta matéria foram selecionadas por Jairo Lima e são de autoria da fotógrafa Alessandra Melo. Mais imagens serão disponibilizadas, em breve, na página do Crônicas Indigenistas no Facebook:
https://www.facebook.com/cronicasindigenistas/

 

 

About The Author

Jairo Lima

Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano.

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