Sobre o rapé que dá barato, o sapo fumado e a lisergia jornalística…

 Por Jairo Lima –

Dois assuntos sacudiram as redes (anti)sociais estes dias, pelo menos as que eu frequento. Não se trata do circo político. O assunto foi sobre o rapé e a ayahuasca, especificamente sobre duas matérias publicadas em jornais de referência que, teoricamente, tem entre seus objetivos a clareza de suas matérias e a certeza do que estão afirmando.

Pois bem.

Assim, dando um tempo do ‘barquinho’ (que prometo voltar em breve), não poderia deixar de dar meu pitaco nestas histórias, melhor, nestas estórias. Estes dois assuntos abrem portas para outras reflexões, que eu mesmo venho martelando no decorrer da jornada iniciada desde a publicação da primeira crônica do blog, no ano de 2016.

Assim, por não me atrever a calar minha ‘pena’ é que também trago minha contribuição, se não para clarear, mas, ao menos, para somar minhas reflexões a alguns colegas que já trataram a respeito do tema, além, é claro, de atiçar mais um pouco a brasa para que ela não se apague.

O principal assunto  é sobre uma matéria publicada num dos maiores jornais do Brasil, a Folha de São Paulo, sob o título “Rapé, pó amazônico alucinógeno, conquista adeptos em baladas de SP”, onde cita o poder ‘lisérgico’ dos vários tipos de rapé feitos e vendidos em São Paulo, onde servem aos prazeres dos gandaieiros paulistas, em suas incursões perdidas em buscas do prazer da matéria, através do entorpecimento mental propiciado pelas etílicas aventuras e pelas experiências ‘lisérgicas’ possíveis.

Além de ridiculamente ignorante, achei a tal matéria de uma infantilidade quase senil, abusando de palavras e percepções superficiais para passar uma mensagem sem eira nem beira. Mas vamos lá.

Em resposta a esta desinformação ‘lisérgica’ do sarcástico e intrépido jornalista tivemos dois excelentes textos, escritos pelo jornalista juarense Leandro Altherman (“Rapé na Balada” ou a desonestidade intelectual da Folha de São Paulo, clique aqui), e pela pesquisadora Daiara Tukano (Um sopro sobre o tabaco e os brancos – clique aqui). São textos de uma perspicácia e conhecimento que me fazem indicar a leitura, para aprofundar mais sobre esse ‘suco de pupunha’ que o jornalista tentou enfiar goela abaixo dos leitores.

Tá, mas se eles já dizem tudo, o que mais você teria a acrescentar?

Realmente, não teria a riqueza de argumentos dos dois amigos citados acima para aprofundar o que estes escreveram, mas, os faço assim mesmo, nadando na beirada,  tal qual uma arraia à espreita de um desavisado que ouse passar em seu caminho.

Neste mundo tão globalizado e virtual, onde se noticia de tudo, a todo momento, para se manter relevante e garantir a manutenção de seus salários, alguns profissionais de comunicação, por vezes, falam sobre o que não se sabem, ou usam termos conhecidos para chamar atenção. Deve ser isso ocorreu com o jornalista, o que mostra o quão fácil deve ser trabalhar num jornal destes onde o status do mesmo granja respeito para piruetas jornalísticas e fantasiosas como a que foi publicada.

Sei que rola, sim, rapé nas baladas. Assim como rola noutro bocado de espaço, como em escritórios, em salas de instituições, etc. Agora, esse papo de lisérgico, caramba… aí já é querer demais, né?

Escrevi em texto há um tempo atrás sobre esta questão de uso social e ritualístico do rapé , de maneira que não me repetirei. No entanto, creio que a mesma desinformação passada pelo sujeito pode gerar, ainda, posturas e construção de ‘verdades’ que não contribuem muito para com o entendimento do assunto em si.

Por exemplo, cito o fato de se sacralizar demais as coisas. Explico. Sabe-se que na feitura do rapé tem-se suas composições tradicionais, dentro das especificidades e conhecimento indígena, voltado às suas práticas ritualísticas e sociais. Sabe-se ainda, que atualmente, muitos outros temperos vem sendo incorporados nessa feitura, em busca de ampliar sua força e, também, de garantir mais mercado para o produto.

Já afirmei e repito que este produto é o ganha-pão de muitos indígenas que conheço e que são pessoas honestas e respeitáveis. Infelizmente, muitos yura (não-índio) corrompem sua utilidade, desgarrando-o para práticas excessivas, como misturá-lo com álcool ou outras ‘cositas más’, sem saber que também arrumam carga pras próprias costas.

No entanto, temos que relativizar bastante a questão pois, como venho também citando, o rapé indígena vem ganhando cada vez mais adeptos pelo Brasil e fora deste. Vejo isso diariamente com os txai aqui enviando suas vendas para vários locais.

Também, mesmo sabendo ser este parte das chamadas medicinas indígenas, temos que convir que o produto não vem com alguma espécie de ‘bula’, ou, ainda, que os sites e demais vendedores que repassam o produto para o ‘mercado’ urbano não se preocupam em alertar para os cuidados com o mesmo, ou para sua verdadeira função.

Se vem ocorrendo esse fenômeno de consumo que está transformando o rapé em produto do momento nas casas e ruas da boemia das grandes cidades, é sinal, primeiramente, da qualidade do produto e, não, de supostos princípios ‘lisérgicos’ que podem trazer algum barato melhor que as trocentas porcarias que este povo fuma, injeta ou cheira nas baladas.

Até concordo que é preciso haver um estudo por parte dos organismos de controle para que, ao menos, se derrubem certos mitos urbanos que surgem em torno do rapé, como a suposta mistura com cocaína ou cristais de ayahuasca. Nada provado, é algo que ninguém viu, só houve falar. Claro que estes estudos não poderão mostrar a cagada que os que usam este produto de maneira tão leviana estão causando para si mesmos, pelo menos, no plano etérico da coisa, se é que me entendem. Mas quer saber? Duvido que estes se importassem ou acreditassem, caso fossem alertados.

Por fim, para terminar de fritar de vez este peixe, creio que é um bom tema para se discutir nas comunidades. Refletir sobre este mercado que vem ganhando cada vez mais espaço e, graças a matérias como esta do lisérgico jornalista, certamente vai se ampliar, pois aí é que os malucos vão querer mesmo saber se a parada dá o barato que foi veiculado. Eu sei e não seria cego o suficiente para achar que só porque a pessoa é indígena tudo pode. Nada disso, mas, como eu mesmo citei, há de relativizarmos as coisas.

Creio que esse papo ainda vai render muito. Vai aparecer muita presepada no futuro. Mas, para os que utilizam o rapé dentro de uma mística e respeito, ou até mesmo para que não tenham lá tanta mística na coisa, mas apreciam seu uso com moderação e em momentos específicos (que não são as baladas, frise-se), essa marola toda não vai perturbar mais que o necessário, ou seja, em breve passa.

Agora, concordo totalmente com a Daiara quando finaliza seu texto comentando sobre esta necessidade danada de se ter um bode expiatório, ter a quem culpar por tudo e, nesse caso específico, claro, não poderiam ser outros que não os indígenas… sempre eles. Como se estes fossem personagens do seriado Breaking Bad, tentando subverter uma sociedade pura como a paulista…ops, corrijo, como a nossa, trazendo para as pobres almas alguma nova droga para embalar sua pobre existência.

Para fechar esse assunto que, na verdade, já tá é enchendo o saco, vale citar que a imagem usada na reportagem é fake e os retratados não gostaram muito da presepada. Ponho aqui  ao lado o comentário do envolvido.

E o outro assunto? Putz. Você cita no começo que tem outra ‘estória’ e nem fala o que é?

Claro! Não poderia deixar de fora o outro assunto. Pelo menos em parte.

Trata-se de uma matéria do periódico espanhol El Paíz sob o título “La ‘droga de los dioses’ llega a España” (clique aqui) onde um assustado repórter nos transmite sua preocupação com o crescente fluxo de rituais em Ibiza, com uso de substâncias que possuem o componente DMT, presente em plantas como a ayahuasca (não vou explicar o que é DMT, é bem chato).

A foto que ilustra a matéria é a de um sapo (ou rã? Afinal, o kambô é uma rã e chamam de ‘vacina do sapo’) e fala a respeito de uma substância fumada, extraída do deste anfíbio. Juro que, ao ler e olhar para a imagem, achei que as pessoas lambiam o bicho em vez de fumar.

Fiquei pensando em como fazem para fumar o tal componente extraído dele. Claro que a matéria, ridiculamente pequena, não diz muito, além de citar a necessidade de que as autoridades busquem solucionar esta situação. Tá certo… o El Paíz deveria mesmo era se preocupar mais em apoiar a luta secular dos bascos e catalães pela autonomia, enfim.

Que andam ocorrendo presepadas de todos os tipos, com pajecas e pseudo-xamãs andando pra todo canto querendo ganhar dinheiro e se dar bem com as mulheres isso a gente vê aos montes.

Assim como é comum vermos a cada dia, várias postagens de grupos convidando pessoas para cerimônias pagas, onde se usa de tudo, da ayahuasca a outras plantas de poder e, pasmem (eu fiquei pasmo), em alguns casos tem até a possibilidade da pessoa misturar estas plantas sagradas, como peyote e ayahuasca.

Há, mas tem gente que diz que não tem nada de errado nisso, são plantas que juntas podem trazer muita luz!

Papo furado esse. Furadíssimo. Se alguém que vocês conhecem fala isso, é bom começar a ter certas reservas em relação à seriedade com que a mesma trata o sagrado. É doideira demais, acreditem. E tão furado quanto este papo é o que venho ouvindo ultimamente, de pessoas que se dizem xamãs (e pajés) que aprenderam o sagrado de maneira autodidata, fazendo dietas e o escambau sozinhos, com ‘os espíritos ensinando tudo’. Bobagem, e coitado de quem cai nessa.

Isso sem falar daqueles que espalham ter recebido o ‘mistério’ de algum pajé, como se isso fosse capaz, o que não creio, pois, o que estes grandes espíritos encarnados (no caso os pajés de verdade) fazem, é ajudar a pessoa a encontrar seu equilíbrio e trilhar seu caminho, como uma espécie de ‘mestre Yoda’ dos caras, de maneira que ‘repassar’ isso ou aquilo para alguém é bazófia e não passa de auto-promoção para ganhar mais ‘clientes’.

O que tem de gente se passando por índio, ou querendo uma ancestralidade que não possui, para justificar bobagens como estas do parágrafo anterior, é algo que até assusta. E se resolvêssemos realmente expor estes pilantras que vivem como sanguessugas da cultura alheia, seria preciso gastar muita ponta de lápis. E o que é interessante é que estes figuras nunca querem ser mobilizadores sociais, que buscam ajudar as aldeias. Os caras querem só é ser pajé mesmo.

Vixi. Falei demais. Acho que, para quem tem muitas ‘branquices’, até que consegui passar o recado claramente. né?

Mas tenho que dizer que tô até agora pensando que, assim como o jornalista da Folha de São Paulo, o seu homônimo do El Paíz deve estar é lambendo o tal do sapo lisérgico que apareceu lá em Ibiza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANOTE AÍ: 

Jairo Lima, escritor e indigenista acreano, publica semanalmente seus escritos no blog www.cronicaindigenista.blogspot.com.br

Por gentileza de Jairo, seus excelentes textos são reproduzidos, também semanalmente, aqui neste nosso site da revista Xapuri.

As imagens que ilustram esta matéria foram escolhidas por Jairo e são da autoria de:

Imagem 1: Autor: Bryan Lewis Saunders
Imagem 2: Divulgação – divulgação
Imagem 3: Esclarecimento
Imagem 4: Sapo bufo alvarius – Site ‘Lieaceito’

 

About The Author

Jairo Lima

Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano.

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