Certo dia deparei-me com uma questão inusitada: uma autoridade quis saber se eu tinha conhecimento sobre os “brancos” estarem comprando rapé dos indígenas para misturar com cocaína a fim de vender nas cidades como o nome de “rapé batizado” e, assim, prender seus usuários no costume e, por conseguinte, aumentar as vendas.

Confesso que fiquei com vontade de rir da pergunta, mas como estávamos em uma reunião formal, controlei essa vontade minha. Tentei, em linhas gerais, explicar ao inquiridor sobre esse produto, que faz parte das chamadas “medicinas” dos povos indígenas, não só de nossa região, como também de várias partes da América.

Expliquei, ainda, os diferentes “tipos” de rapé (palavra francesa, que significa “ralar”, “raspar”) hoje vendidos por quase todos os povos indígenas de nossa região, e também por algumas comunidades extrativistas da floresta. E assim encerramos o assunto.

O rapé, cuja designação francesa diz muito pouco sobre sua verdadeira essência para os povos indígenas, aliado com outras importantes medicinas naturais, como a sananga, o kambô, o Uni e o ananate, compõe a farmácia de possibilidades de equilíbrio, tratamento e cura do espírito e do corpo.

Seu uso há muito extrapolou as fronteiras das aldeias, tornando-se cada vez mais o produto de uso social no meio urbano, principalmente entre pessoas jovens. Aqui no Juruá são muitos os relatos, inclusive em jornais locais, sobre estudantes que levam seu potinho de rapé e seu curipe (que é o aplicador individual de rapé) para a escola.  Também entre os indígenas, seu uso cresceu bastante nos últimos anos, tornando-se comum vermos nas aldeias os que andam sempre com um curipe preso ao pescoço ou um tipi sobressaindo-se de dentro de suas bolsas.

O rapé, além de medicina tradicional, representa uma verdadeira ciência dos povos indígenas, tendo toda uma mística em seu feitio e aplicação. E até quando utilizado socialmente, não se desliga de sua natureza mística. Isso porque os indígenas quando o usam atentam para algumas “regras” básicas que instintivamente seguem. É algo que está presente no momento em que pegam seu curipe ou o tipi.

Nessa ciência, as técnicas de uso vão desde o sopro até os pensamentos e energias que devem ser invocadas. Ou seja, não se trata só de “soprar com mais ou menos força”, para obter consequências benéficas, quando bem utilizadas, ou altamente negativas para o yuxin do indivíduo, quando não se seguem os ritos específicos.

Mas, sabe como nós yurá somos, né? Na opinião de alguns velhos e sábios txai é impressionante como a coisa banaliza-se quando o rapé se torna a moda new age do momento, nessa nossa sociedade carente de mestres ou gurus, sempre precisando de um guia que instrua e mostre os caminhos a seguir. Já vi algumas figuras apagadas e confusas que andaram fazendo vivências nas aldeias daqui e, tempos depois, passaram a ter seguidores e a serem chamados de “padrinho” ou mestre quando voltaram às suas cidades.

E o que isso tem a ver com o rapé? Bem, creio que tem muito a ver. Observo que esses ditos “mestres” sempre alardeiam o mesmo roteiro de vida: receberam o conhecimento milenar das mãos de algum grande xamã (ou pajé ou mestre) que revelou os segredos de seu povo. A partir daí, tornam-se especialistas em uso, tratamento e cura com determinada medicina tradicional indígena. Claro que por um preço muitas vezes bem salgado e com resultados quase sempre duvidosos.

Não quero dizer que só os indígenas sabem fazer e aplicar um rapé, ou que rituais com essa medicina só são verdadeiros se for um indígena a praticá-los. Nada disso. Só que, infelizmente, nos dias atuais, os conhecimentos e rituais tradicionais vêm se tornando cada vez mais “produtos de mercado”, com um bocado de gente se dizendo “mestre”.

Na verdade, esse papo de guardião disso ou daquilo, “segredos milenares” guardados e “mestre do conhecimento tal”, nem faz parte da lógica espiritual dos povos indígenas. Essas palavras só são inteligíveis para nossa sociedade, fantasiosa e carente de heróis e de guardiões.

Para muitos dos povos do Acre, os que dominam estas medicinas são chamados, tradicionalmente de “conhecedores de…”. Afinal, mestres (ou mestras) e guardiões (ou guardiãs) são os seres divinos e sagrados da floresta, como a jiboia Yube, a aranha Atxomongiro, o Inka, as cobras Nõki e Hampitõki.

O rapé, como qualquer outra medicina indígena, deve ser usado com bom senso, equilíbrio e parcimônia, afinal, mesmo quando usado socialmente, não se desvincula totalmente de sua finalidade. Também é importante lembrar que a matéria prima de sua fabricação é o tabaco e, como tal, pode sim viciar e trazer problemas de saúde quando usado em demasia ou da maneira errada.

A venda do rapé, ao mesmo tempo em que vem crescendo, também vem gerando, além de certa riqueza para alguns poucos, bastante discussão em algumas comunidades, que começam a se sentir incomodadas vendo o nome de seu povo utilizado para dar mais status e legitimidade ao produto. Explico: às vezes, um membro da comunidade produz e começa a vender muito rapé, não só em sua cidade como, também, fora do estado.

Na identificação do produto o indígena não usa o seu nome, usa só o nome do povo, de maneira que aquele produto passa a ser conhecido como um produto de seu povo, mas o lucro pela venda não é distribuído ou compartilhado, no entanto, o ônus que pode advir recai sobre toda a comunidade.

Uma estratégia começou a ser refletida por algumas comunidades que já procuram meios de “patentear” seus produtos tradicionais, sendo que algumas já estão avançadas no estudo jurídico. Tenho discutido com algumas lideranças a ideia de, em vez de patente, constituir um “selo indígena” para seus produtos, como o rapé. De maneira que não só haja o reconhecimento da procedência do produto como, também, a proteção do conhecimento tradicional daquele povo.

É válido deixar claro que nem todos os povos indígenas daqui usam o rapé socialmente, muitos mantém seu uso restrito às práticas espirituais tradicionais, ligado diretamente a seus rituais de cura sob responsabilidade do pajé. O aumento de seu uso nas aldeias também não é nenhum fenômeno que traga preocupações para a manutenção da cultura, ao contrário, incorpora-se em sua dinâmica.

O excesso de uso no meio urbano, além de desaconselhável, cria situações desagradáveis, pois, assim como a fumaça venenosa do cigarro incomoda, e por isso não se pode usar em locais públicos fechados, os mucos e outros fluidos corporais expelidos quando se usa o rapé não são nada agradáveis de observar quando se está conversando com alguém, principalmente em uma sala fechada.

Jairo Lima
Indigenista. Escritor. Radicado em Cruzeiro do Sul, Acre. Jairo publica seus escritos em http://cronicasindigenistas.blogspot.com.

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One Response

  1. Érika Camille Brito de Oliveira

    Jairo bom dia, você tem algum contato pessoal… face, insta onde eu possa conversar a respeito do kambo e as medicinas da floresta? Fico grata, é muito importante pra mim.

    Responder

Comentários

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