NADA IMPEDIRÁ: Algumas reflexões febris sobre conformismo e determinação.

Por: Raial Orotu Puri –

Depois de alguns dias de silêncio após um texto suicida, de um sem número de crises por conta de tentar – com parcelas iguais de sucesso e falta dele – escrever a minha tese de doutorado para qualificação antes do final do ano, e antes que meu orientador me mande um bilhete ameaçador acompanhado de antraz, eis que resolvi dar uma pequena pausa para escrever uma reflexão para a semana (neste caso, também antes que eu receba merecidamente uma carta bomba do meu amigo Jairo).

Resolvi começar do zero outra vez, apesar de ter um texto já bem avançado e em fase de fechamento… Acho que como na semana passada não consegui chegar à conclusão, penso que não cabe insistir naquele assunto por hora. Talvez algum dia volte a ele.

Penso ser importante ressaltar um detalhe nada pequeno a respeito do texto presente: dado que meu notebook velho de guerra já está há dias em vias de cruzar o cabo da Boa Esperança, e, infelizmente, nem duas visitas à manutenção foram suficientes para afastá-lo do vale da sombra da morte, este texto está sendo escrito naquela que é praticamente a única ferramenta que está mais ou menos funcionando em toda a estrutura sem que seja necessário reiniciar a cada 10 minutos: o bloco de notas! (Pois é, agora calculem os efeitos disso quando você já está nervosa por conta da necessidade de escrever um trabalho e imaginem o meu nível de simpatia para com a situação…)

Mas enfim… diante desse tipo de peça que a vida, ou a famosa “Lady Murphy” nos prega em horas decisivas, duas coisas me vêm à cabeça. A primeira é exatamente sobre como, por alguma razão inexplicável, as panes nos equipamentos realmente acontecem exatamente naqueles momentos mais decisivos e desesperadores, ou seja, exatamente na hora em que nada devia dar errado, é exatamente quando TUDO DÁ ERRADO.

É interessante, e de fato, por mais piada que pareça, a regularidade com isso acontece nesses momentos decisivos tornam de fato muito plausível e verossímil que a Lei de Murphy efetivamente exista, ainda que não se saiba precisar exatamente se ela advém de princípios da física quântica, ou se apenas da vontade algum tipo de divindade muito sacana que adora ver a cara de desespero dos incautos acadêmicos.

Quem nunca sofreu os efeitos de um blecaute em todo o campus universitário na hora de imprimir um trabalho, ou nunca viu seu micro dar tela azul exatamente no segundo antes de salvar o trabalho inteiro; ou não entendeu perfeitamente a mocinha que, sob a mira de uma arma, se agarrou à sua mochila para não deixar os ladrões levarem o HD externo com a única cópia de sua dissertação*, que atire a primeira pedra…

Mas aviso que se for para tacar pedra, que nunca ouse entrar debaixo desse teto de vidro chamado Academia, porque, amiguinhos, lá o sistema é bruto e um dia você ainda vai ter a sua meia hora de tète a tète com a Lady, e nessa hora, meu bem, só Jesus salva e você não é Jesus, e certamente vai esquecer de salvar, e já era!

A segunda coisa tem me vindo insistentemente à mente enquanto fazia a revisão da parte já escrita de um de meus capítulos, anotando de caneta o que vou, com sorte, modificar e inserir no arquivo digital, é um ensinamento que trago comigo que aprendi de um professor a quem tive o privilégio de dar aula no contexto do curso de formação para professores promovido pela SEE-Acre no ano de 2014 em Plácido de Castro.

Já falei desse ensinamento em outras ocasiões, e a insistência com que ele me vem a mente tem a ver, muito provavelmente com a necessidade de tirar paciência de onde ela não existe, de tentar virar o ser humano focado que eu nunca fui, e dar um jeito de terminar o meu trabalho, apesar de toda insistência da Lady em dificultar o máximo possível.

Vamos então ao ensinamento: bem, acontece que um curso de formação de professores é também um território hábil para manifestação dos poderes da Lady, de modo que, durante a semana em que estive dando aula, tudo deu errado, desde impressoras falhando, passando por data-shows em pane, e até mesmo chegando no nível da sacanagem épica dos pincéis atômicos secos, apesar de novos. A todos esses contratempos, meu aluno Ravi Nawa costumava dar a mesma resposta: “Mas, nada impedirá!”

“Nada impedirá” acabou virando uma espécie de lema da sala, que arrematava todas as conversas sobre as inúmeras dificuldades sofridas e sentidas por aqueles que se investiam do cargo tão honroso de docente.

Como eu disse, carrego esse e outros ensinamentos que recebi naquela semana preciosa para a vida, e sempre sou levada a pensar nisso em momentos críticos. Pensar sobre isso também me faz colocar as coisas na escala devida, e ver que um micro em pane é um problema sim, mas não chega a ser uma hecatombe.

 

Por obra e graça da minha cabeça nerd ligeiramente febril (pois é, como se não bastasse, ainda fiz a façanha de conquistar um resfriado graças à longa exposição a ar condicionado dos últimos dias!) acabo fazendo uma conexão entre esse lema e um livro desses pocket comprados em bancas de jornal que eu li na adolescência.

O livro chama-se Mukinta, escrito por um cara chamado Billy Pueblos, e conta a história de vingança, ou talvez mais precisamente ‘revanche’ de um único sobrevivente de todo um povo exterminado, que usa a vida que lhe resta para ir eliminando um a um aqueles que considera culpados pelo desaparecimento de seu povo. O livro termina com a morte do herói, alvejado pelo seu último oponente, que, no entanto, não consegue escapar da vingança.

Trata-se de um livro bastante denso e triste – cheio daqueles silêncios e desertos tão comuns às histórias de faroeste. Sei que a comparação pode parecer estranha e despropositada aos olhos de quem me lê, coisa que eu particularmente acho super estranho e despropositado, porque a coisa que eu mais faço nesta vida e nestes textos são comparações e aproximações estranhas e aparentemente despropositadas entre assuntos que, de saída, não parecem nem de longe aproximados… Sendo assim, pela honra da Maionese Airlines, eu vos peço que me deem o mesmo voto de confiança de sempre, e acreditem: ‘nada impediá’ a mim de juntar o lé com o cré!

O que tem a ver o Mukinta e sua vingança implacável, os trabalhos acadêmicos zicados pela lei mais invariável do universo e o meu aluno Ravi? Tudo, uai! Tudo isso tem a ver com determinação, essa palavra tão em voga que, a mim, cabe como antônimo de conformismo e da imobilidade que ele gera.

Determinação é o que separa o ‘não adianta’ do ‘vamos persistir e tentar até dar certo’, pois outra coisa que a gente costuma aprender muito sendo nerd e fã do Batman e de histórias de fantasia é que, no fim das contas, o que faz vencer batalhas não é a força, a valentia, nem mesmo a sabedoria. É a determinação e isso é coisa que os professores indígenas do Acre, e eu diria mais, os povos originários no Acre, sobreviventes que são de mais de um século de escravização da borracha, tem a ensinar de sobra a quem quer que tenha vontade de com eles aprender.

Por outro lado, agora que estou nesta empreitada de construir meu texto, eu outra vez me lembro de Mukinta, mas para diferenciar trabalhos acadêmicos daquilo que fazem os professores indígenas, aqui no Acre, ou no resto do Brasil.

É preciso que eu diga, com toda a honestidade, não consigo pensar nas duas situações – ser professores indígena e fazer um trabalho acadêmico – como coisas equivalentes. Considerando que atualmente já me encontro no Doutorado, já há muito me despi da ilusão de que um trabalho acadêmico, por mais engajado e bem intencionado que seja, será capaz de fazer qualquer coisa para além de tentar reproduzir em texto e linguagem acadêmica uma parcela de um contexto observado – isso, com sorte. Porque há casos… bem, há casos…

Eis daí o porquê de eu realmente não conseguir ver uma conexão entre a academia e a arte de ser mestre da vida, como são os professores indígenas com os quais tive um curto, porém intenso contato: Porque enquanto eu escrevo um texto, eles escrevem e instruem vidas, eles replicam a cultura e mantém viva essa cultura nas novas gerações. Percebem?

Nesse sentido, sei, com muita lucidez, que tudo o que devo almejar do esforço que estou empreendendo com esse trabalho é receber uma boa nota e um grau acadêmico. Se por cargas d’água algo mais advir dele, será um lucro muito bem-vindo, mas de todo inesperado.

Penso ser muito necessário escrever tal coisa como um lembrete, mais para mim do que necessariamente para quem eventualmente me leia, e o faço pela consciência dolorosa do quanto o ambiente acadêmico é, desde sempre, terrivelmente cruel para com os sonhadores. E, bem, no mundo dos sonhadores, eu sei que sou, desde sempre e para sempre, a Imperatriz…

E falando de novo no Mukinta, lembro que quando li aquele livro, fiquei um tempo pensando sobre o quanto aquela vingança era tola e vã, afinal de contas, não importa que ele matasse 10, 20 ou 200 homens brancos; eles se reproduziam e apareciam em levas cada vez maiores, tal como as hordas intermináveis de formigas.

Bom… é claro que aquele livro pequeno e despretensioso não tinha esse tipo de margem reflexiva. O que eu penso é que o personagem tinha um objetivo imediato, e foi totalmente bem sucedido nele. Penso que talvez ele não tenha pensado nesse nível macro de que iam chegar outros, e penso também que se isso fosse refletido por ele, ele provavelmente concluiria que já não faria tanta diferença para ele, pois ele já estaria morto, ou já estava, visto que todo o seu povo fora assassinado…

Enfim… vejo nisso algo que muitas vezes vejo também na nossa realidade de Brasil. Quanto batem os inúmeros desânimos sobre a necessidade de continuar lutando por causas que, ao que parece, já nasceram perdidas. Tipo pelo meio ambiente. Tipo por dignidade humana. Tipo por respeito para com a diversidade. Tipo por identidade. Tipo por continuar vivo.

É. As vezes realmente a gente acaba se dando conta dos muitos trabalhos inúteis aos quais a gente se dedica. Uns enormes. Outros nem tanto. Acontece que mesmo um trabalho inútil é necessário, quando, em algum momento de sua vida você de dispôs a fazê-lo, e, no caso, eu me dispus a isso, cerca de três anos atrás, quando resolvi achar que um Doutorado era uma boa desculpa para mudar-me para o Acre. Seria tudo perfeito se quatro anos não passassem num piscar de olhos e agora a desculpa que eu inventei não tivesse se convertido em um prazo determinado e apertado para entregar o resultado.

Para a sorte do programa de Doutorado e azar meu, eu sou do tipo que costuma cumprir promessas feitas, de modo que estou eu aqui, toda montada no ‘Nada impedirá!’ (nem a Lady!) para escrever um trabalho que se propõe a etnografar a Federação do Povo Huni Kui do Acre – Fephac, instituição na qual tenho sido assessora jurídica voluntária desde o ano de 2015.

Mas, mais uma vez, repito, executo esse trabalho com a certeza de que ele não é e não será nada mais que um bom trabalho acadêmico, e para a Fephac terá valor apenas enquanto um registro documental de sua história de atuação. Tudo o que esteja para além disso é vaidade e pretensão, e creio já ter chegado a um certo nível de maturidade ou ceticismo no qual as pretensões são substituídas por perspectivas mais realistas e desapaixonadas sobre a vida.

Sei que isso soa cruel, mas acontece, meus caros, que o mundo acadêmico é ainda mais cruel que isso. Eu digo mais: a Academia é perversa, pois que se vende como algo que não é, e nunca será capaz de ser. Qualquer um que já tenha passado por ela, ou ainda esteja passando, entende bem o significado e a dimensão dessa crueldade que faz transformar em prazos e notas tudo aquilo que no mundo real são valores, ideais, sonhos, convicções e engajamentos; que é capaz de exigir dos acadêmicos que abandonem e tudo – família, amigos, namorados(as) redes de apoio – que não seja Ela; que é capaz de minimizar e relativizar o fato de que ela adoece e até mesmo tira vidas – (os índices de patologias e suicídio entre estudantes estão aí para provar que eu não estou exagerando).

E tudo isso, para que exatamente? Para escrever laudas e laudas de um trabalho, que talvez até vire um livro, mas que provavelmente ninguém além da banca e de pessoas que realmente te amam irá ler.

Infelizmente é assim que é. E acho que é uma pena. Porque ainda acho que a Academia devia ser uma outra coisa. Alguma coisa mais humana e útil. Talvez quem sabe, em um futuro distante isso se faça possível.

E sim, antes que me perguntem, penso que isso vale para qualquer tipo de trabalho acadêmico; dentro da minha área ao menos, com toda a certeza. E penso que este ensinamento deveria ser ministrado desde sempre para todos aqueles que se enveredam pela Antropologia, sobretudo aqueles que o fazem com certo nível de convicção ‘salvacionista’ de que sua presença junto de determinado povo é algo semelhante a segunda vinda de Cristo à terra, e que será pelas suas mãos que este ou aquele povo há de ser salvo e ver a luz, quando muito, e com alguma sorte, tudo o que aquele povo verá será uma cópia do seu querido e provavelmente para eles inútil trabalho acadêmico.

Pois sim, e lamento frustrar os espíritos mais iludidos, a verdade é que salvo raríssimas exceções, trabalhos acadêmicos não têm mesmo muita utilidade para os povos indígenas. Porque eles não são feitos para nós, e sim para a Academia. É certo dizer, no entanto, para contrabalancear a balança que, por vezes, sim, trabalhos acadêmicos são demandados pelas próprias comunidades, e, em muitos casos, eles tentam atender a temas e objetos de interesse dos pesquisados.

Creio que isso é básico, mas, verdade seja dita, por mais básico que seja, ainda acontece, mais vezes do que a Academia gostaria de admitir, de trabalhos excelentes serem produzidos tratando de questões cosmológicas da ordem do universo, sem que seus autores se preocupem em gastar uma linha ou duas para citar o fato de que aquele mesmo povo que produz filosofia de nível que deixaria Platão morto de inveja se encontra, naquele mesmo momento, numa situação de conflito extremo e até mesmo correndo risco de vida.

Talvez seja assim pela mesma razão que leva tanta gente a preferir se dizer ‘apaixonado pela cultura indígena’, desde que ela seja devidamente glamorosa e xamânica (sic), mas não serem encontrados exemplares desses seres apaixonados em meio ao inferno verde-soja regado a de veneno no Mato Grosso do Sul…

Por essa razão, eu costumo dizer que cada vez mais admiro algumas figuras que, dentro da Academia, não são tão famosos, mas que do lado de fora dela, no mundo real, são reconhecidos por terem feito coisas imensamente maiores do que produzirem artigos para incluir no Lattes.

Tratam-se de pessoas que optaram por deixar aquela Matrix para ver e viver no mundo tal qual ele é e, fazendo isso, fizeram pelos povos originários bem mais do que qualquer academia pode fazer, não importa quanto tempo e quantos quilômetros de texto seja capaz de produzir. Algumas dessas pessoas, eu encontrei aqui mesmo pelas voltas de rio do Acre, como a querida e maravilhosa Dedê Maia, mulher cuja história de vida se confunde com a do indigenismo; e o grande e admirável ‘txai’ Terry Aquino, que na semana passada fez aniversário.

Falando dele, acabo por me lembrar de uma entrevista que li tempos atrás, na qual Siã Osair faz a belíssima afirmação de que “Terri é um Yuxibu”. Este reconhecimento tem a ver com o fato de Terri ter participado ativamente da demarcação de quase toda as terras indígenas do Acre. Daí o sentido de situá-lo na ordem dos grandes e poderosos espíritos Yuxibu, capazes de alterar a natureza ao seu redor, pois é disto que se trata. E diga-se de passagem, uma coisa que eu sei de sobra e eu espero que seja bem clara, é que não se muda a natureza ao redor sentadinho no banco da Academia…

Do mesmo modo que sei que de nada valeriam os poderes e a determinação de pessoas como Dedê e Terri, se não houvessem entre os povos indígenas do Acre os muitos Ravi, dos diferentes povos que sobreviveram às correrias, ao cativeiro, e que persistiram lutando para alcançar o seu reconhecimento enquanto povo e a garantia de seus territórios. Alguns deles,  inclusive os Nawa, ainda seguem lutando, diga-se de passagem. E fazem isso, apesar de todo um contexto cada vez mais hostil e contrário à sua luta. Porque, não importa quantas forças se levantem em contrário, ‘nada impedirá!’.

Por essas e outras também, finalizo este texto na certeza de que, assim como nada me impedirá de terminar o meu trabalho, também nada me impedirá de entender que o que eu vim fazer no Acre pode até ter a ver com o meu Doutorado, mas não está limitado a ele, e assim, o que quer que eu tenha ainda a fazer por aqui, seja na Fephac, no Iphan, ou em outro lugar para onde os ventos me encaminhem será feito de forma apaixonadamente implacável, como é da minha natureza. Porque se tem uma coisa na qual Mukinta, Ravi Nawa, e os Puri são semelhantes é em serem tremendamente teimosos e determinados nessa arte de, contra tudo e contra todos, seguir lutando e rExistindo.

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* para quem não viu a história da moça que lutou contra bandidos para defender a única cópia de sua Dissertação (como disse meu colega Arlan Hudson, isso sim a gente pode chamar de defesa de Mestrado!), o fato teria ocorrido na África do Sul, e foi divulgado amplamente na mídia, provavelmente pelo grau nonense e quase inverossímil. Segue o link de uma das matérias: http://www.bbc.com/portuguese/internacional-41261885

Todas as imagens desta matéria foram selecionadas por nosso parceiro Jairo Lima (www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br) e são de autoria do artista Lucio Kansuet.

Raial Orotu Puri (Andréia Baia Prestes Puri) é graduada em Direito e  doutoranda em antropologia pela UFPR. Mora no Acre onde atua na Divisão Técnica do IPHAN/AC e na Assessoria Jurídica da Federação do Povo Huni Kuin do Acre (FEPHAC).

 

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