Em tempos de pandemia, rituais funerários, como o Kuarup, requerem diálogo

Por: Fábio Zuker

A cerimônia anual congrega grupos de 16 etnias e convidados na Terra Indígena do Xingu, no Mato Grosso

O caso do jovem do povo Yanomami que morreu de Covid-19 e foi sepultado no cemitério da cidade de Boa Vista, capital de Roraima, sem o consentimento dos pais, gera indignação e preocupação às populações indígenas no país. A ordem de enterrar indígenas na cidade para evitar a propagação da contaminação do novo coronavírus é vista por especialistas como uma violência à cultura dos povos tradicionais, que pedem por mediações. No Alto Xingu, nordeste do estado do Mato Grosso, onde também rituais funerários indígenas são muito marcados, há preocupação entre as lideranças indígenas e especialistas.

O Parque Indígena do Xingu antecipou a proteção do território. É lá que todos os anos acontece o Kuarup, um ritual de homenagem aos mortos ilustres, celebrado pelos povos indígenas da região.

No Parque Indígena do Xingu vivem diversas etnias, como os Kamayurá, Kuikuro, Mehinako, Kalapalo, Matipu, Waurá, Kaiabi, Aweti, Ikpeng, Kawaiwete, Kisêjê,Nahukuá, Naruvotu, Tapayuna, Trumái, Yawalapiti e Yudjá. Há também fortes indícios de presença de populações indígenas em isolamento voluntário.

O ritual do Kuarup possui variações conforme as etnias. Para muitas delas, o ritual se centra na figura de Mawutzinin, o demiurgo, primeiro homem do mundo da sua mitologia. Os troncos feitos da madeira “kuarup” são a representação concreta do espírito dos mortos. Também durante o Kuarup ocorre a luta Huka Huka, disputada entre duplas de guerreiros de diferentes aldeias, e o rito de passagem das meninas que iniciam a vida adulta – e envolve preparos e reclusão.

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Luta Huka Huka entre guerreiros (Foto: Hilda Azevedo / Funai)

A liderança Kaiulu Kamaiurá conta que “mesmo antes das orientações dos órgãos oficiais do governo federal, os caciques e as lideranças tomaram as iniciativas de restringir o acesso dos visitantes não indígenas e o trânsito de indígenas para os municípios do entorno da terra indígena”. Ela diz que “ficou apenas permitida a entrada dos profissionais da saúde”.

Contando com mais de 2.642 hectares, o Território Indígena do Xingu, como preferem chamá-lo os indígenas, dissociando a noção de zoológico embutida na palavra “parque”, foi a primeira Terra Indígena homologada pelo governo federal, pelo Presidente Jânio Quadros, em 1961. Hoje, o território está cercado por fazendas que produzem soja.

Rituais mortuários
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Tronco, enfeitado com adornos coloridos, que representa a pessoa falecida
(Foto: Hilda Azevedo/Funai)

Antonio Guerreiro é antropólogo e professor da Unicamp. Ele possui uma pesquisa de longa data sobre rituais mortuários Kalapalo, um dos povos indígenas do Alto Xingu. O pesquisador afirma que há uma variedade nos modos como os povos indígenas lidam com seus mortos, “penso que cada Dsei [Distrito Sanitário Especial Indígena] deveria dialogar com representantes dos povos indígenas que atendem para elaborar protocolos de ação específicos para cada contexto”.

Os rituais mortuários no Xingu acontecem em três momentos distintos. Há grande receio de que esses rituais possam, em cada uma de suas três fases, aumentar o risco de contaminação pelo novo coronavírus: “a preparação do corpo, o enterro, e os banhos para tirar a tristeza dos enlutados envolvem a manipulação direta dos corpos. O Kuarup, por sua vez, reúne um grande número de pessoas, e tem como ápice confrontos esportivos de uma modalidade de luta praticada pelos povos daquela região. No contexto atual da pandemia, todas essas situações podem representar sérios riscos de disseminação do novo coronavírus, algo que precisa ser discutido com as comunidades”, reflete Guerreiro.

O antropólogo explica os diferentes momentos que compõem os rituais funerários no Alto Xingu: “o primeiro envolve a preparação do corpo, que deverá ser pintado (idealmente por algum não parente, ou um parente por casamento do/a falecido/a), e depois o enterro, que é feito de diferentes maneiras, e em diferentes lugares da aldeia, dependendo da idade e do prestígio da pessoa.”

O segundo momento ocorre depois do enterro, e inclui “ações para instruir a alma do morto a se afastar dos parentes vivos, e com o tempo é preciso ‘tirar a tristeza’ dos enlutados. Esse último processo consiste em banhos rituais, que serão dados nos enlutados pelas mesmas pessoas que cavaram a cova e fizeram o enterro (ou seja, não parentes ou parentes por casamento)”, afirma Guerreiro. Estes banhos podem acontecer ao longo do tempo, e se repetirem, para aos poucos irem “tirando a tristeza”, afirma o antropólogo.

O terceiro momento, por fim, é o ritual indígena mais conhecido do país, o Kuarup, eternizado pelo escritor Antonio Callado e por inúmeros estudos. Segundo Guerreiro, consiste em “homenagear/lembrar os mortos e separar de vez suas almas dos vivos”. Guerreiro explica que não é um ritual feito para qualquer pessoa, e sim quando se trata da morte de “um/a chefe ou de parentes próximos de chefes”, afirma ele.

De acordo com o antropólogo, “geralmente, ocorrem vários [Kuarup] todos os anos no auge da estação seca, entre agosto e o começo de setembro, nas aldeias onde pessoas importantes faleceram. O Kuarup é um elemento fundamental da identidade dos povos alto-xinguanos.”

Importância do diálogo

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No Kuarup acontece também o rito de meninas (Foto: Hilda Azevedo/Funai)

Para Antonio Guerreiro, aquilo que ocorreu “com o rapaz Yanomami, que foi sumariamente sepultado sem que sua família fosse consultada, é o oposto do que deveria acontecer”.

Guerreiro acredita na importância do diálogo, para encontrar soluções possíveis: “é preciso avaliar e esclarecer os riscos de contágio, e discutir quais são as alternativas possíveis para garantir que um povo possa dar a seus mortos um destino que considera digno, dentro das limitações impostas por essa situação gravíssima que vivemos”. O antropólogo é propositivo, ao afirmar a importância de se estudar formas de lidar com os mortos neste contexto. “Deveria haver ações na direção de identificar os fatores de risco nas formas de lidar com os mortos, e pensar junto com os povos indígenas as melhores formas locais de contornar esses riscos”, afirma Guerreiro.

Kaiulu Kamaiurá também aponta para uma necessidade de diálogo, de acordo com os rituais de cada povo e em diálogo com as autoridades sanitárias. “Eu acredito que os rituais funerários serão realizados conforme a decisão e orientação dos caciques de cada povo respeitando as orientações dos cuidados de prevenção”, afirma a indígena.

Ela acredita que o importante Kuarup terá que se adaptar, envolvendo restrição à visitantes não indígenas e em diálogo com os profissionais da saúde. “A realização do Kuarup dependerá decisões dos organizadores responsáveis pela realização. Caso mantenha a cerimônia do quarup será com a restituição de visitantes não indígenas, e também ouvindo a avaliação dos profissionais da saúde sobre como está estado de saúde das comunidades”.

A indígena solicita, como melhor forma de combate ao novo coronavírus, a melhoria da infraestrutura de saúde disponível à população indígena, como “adquirir equipamentos ,material de proteção dos profissionais de saúde, medicamentos, implantar hospital de campanha,comprar respiradores, treinar os profissionais para atender os pacientes com Covid-19”, pontua Kaiulu Kamaiurá.

Fonte: Amazônia Real                 

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