Por Zezé Weiss

“Ninguém esperava que, tantos anos depois, surgisse novamente o pesadelo das invasões de garimpeiros. Voltou à tona o medo das violências e da contaminação por doenças.” Dominque Gallois – Antropóloga, professora e pesquisadora da USP.

Os Waiãpi, que também se autodenominam como Iane (nós), são um povo indígena com uma população de cerca de 900 pessoas que vive na Terra Indígena Waiãpi, de 607 mil hectares, no extremo norte do estado do Amapá, na fronteira com a Guiana. Existe também uma população de cerca de 400 a 600 Waiãpi que vive na Guiana, e há relatos da existência de dois grupos de indígenas isolados, também da mesma etnia.

Descendentes dos antigos Guaiapi que viviam na região do baixo Xingu no século XVII, os Waiãpi permaneceram na região norte do rio Amazonas há mais de dois séculos. O contato ocasional com o “branco” os fez avançar rumo ao extremo norte do país, especialmente na década de 1960, para escapar do Projeto Jari, instalado na região onde viviam pelo milionário norte americano Daniel Ludwig.

Mas foi em 1973, com a construção da rodovia BR-210, que a Funai fez o primeiro contato com o povo Waiãpi. E com o contato veio a tragédia da invasão das aldeias por caçadores de peles, garimpeiros, madeireiros, e também das empresas de mineração. Ao longo de décadas, os Waiãpi se organizaram para a resistência. Em 1994, foi criado o Conselho das Aldeias Waiãpi, conhecido como Apina. Em 1996, a Funai demarcou a área indígena.

Desde então, muitos Waiãpi morreram vítimas de doenças como o sarampo, levada pelos invasores. Ataques às aldeias, entretanto, não foram registrados nos últimos 30 anos. O assassinato do cacique Emyra no último dia 22 de julho reacende o medo dos Waiãpi da volta às situações de violência por eles vividas nas décadas de 1970 e 1980. A seguir, o relato dos indígenas (extraído de notas emitidas pela Apina – www.apina.org.br sobre o ocorrido nos dias que se seguiram à invasão do 22 de julho.

 

Segunda-Feira, 22 de julho – O cacique Emyra Wajãpi, de 68 anos, foi assassinado na região de sua aldeia Waseity, próxima à aldeia Mariry, na Terra Indígena Wajãpi, no estado do Amapá. O ataque violento que resultou na morte do cacique Emyra não foi visualmente testemunhado por nenhum indígena, mas os rastros de pessoas não-indígenas, provavelmente garimpeiros, foram encontrados pelos Wajãpi por toda a área. Os indígenas relatam que os invasores deixaram vestígios de armas de grosso calibre.

Sexta-Feira, 26 de julho – Os Wajãpi da aldeia Yvytotõ, que fica na mesma região, avisaram, por rádio, as demais aldeias que haviam encontrado um grupo de não indígenas armados. Ao cair da noite, o grupo armado invadiu a aldeia Yvytotõ, se instalou em uma das casas e fez ameaças às famílias que, com medo, fugiram de suas casas e se abrigaram na aldeia Mariry. Nessa mesma noite do dia 26, os indígenas conseguiram acionar a Funai e o Ministério Público Federal. Na madrugada de sexta para sábado, moradores de uma outra aldeia, a Karapijuty, avistaram um invasor nas cercanias.

Sábado, 27 de julho – A notícia chegou ao lado de cá do mundo. Os indígenas enviaram mensagens a seus aliados pedindo socorro. Do México, o cantor Caetano Veloso, denunciou a tragédia. Em terras brasileiras, após denúncia do vereador Jawaruwa Wajãpi, do município de Pedra Branca do Amapari (AP), o senador Randolfe Rodrigues (Rede/AP) divulgou em suas redes sociais o assassinato e a invasão à terra dos Wajãpi. Pela tarde, a Funai se deslocou para a aldeia Jakare, próxima a Waseity, para entrevistar parentes do morto e, de lá, voltaram a Macapá para acionar a Polícia Federal. A proteção e guarda dos Wajãpi continuou por conta de seus próprios guerreiros, que montaram guarda próximo à aldeia Jakare. Invasores também foram vistos nas proximidades de outra aldeia, chamada Karapijuty. Durante a noite, ouviram-se tiros na região da aldeia Jakare, próxima à BR-210. No mesmo dia, o MPF abriu uma apuração sobre a morte do chefe Wajãpi e a possível invasão na Terra Indígena. Um Gabinete de Gerenciamento de Crise (GGC) foi constituído pelo Ministério Público Federal (MPF), pela PF, pelo Ministério Público do Amapá, pelo Exército, pela Funai e pela Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Amapá, para investigar a invasão e o assassinato da liderança na terra indígena.

Domingo, 28 de julho – Um efetivo da Polícia Federal e outro do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope) chegaram à Terra Indígena. Os indígenas informam que, embora orientados pelos Wajãpi, os policiais não seguiram os rastros dos invasores, sob a alegação de que a região “é de difícil acesso e que não tinham condições de permanecer lá e dar continuidade às buscas pelas dificuldades de deslocamento e alimentação”. De volta a Macapá, as autoridades emitiram nota informando da morte do cacique, porém desconhecendo a existência de conflito na região. Os indígenas informaram em nota que, ao deixar a Terra Indígena, os policiais informaram que passarão a estudar a região por meio de satélites e, em caso de identificação de sinais de garimpo na área, farão sobrevoos de averiguação. Os Wajãpi não concordam com a decisão e pedem o apoio da Funai para continuar as buscas no solo.

Quarta-Feira, 31 de julho – Os Wajãpi reportam a presença de invasores na aldeia CTA, às margens da BR-210. Por volta das 18 horas, ao se dirigir ao igarapé para o banho, um jovem da aldeia foi abordado “por um homem alto e forte, de cabelo crespo e barba” que apontou para ele uma arma. Com medo, o jovem voltou à aldeia para pedir socorro. Quando retornaram, só encontraram rastros humanos, que foram fotografados. Ante a ausência do poder público, os guerreiros das aldeias Wajãpi se organizaram para fazerem, eles mesmos, a busca dos invasores e a vigilância das comunidades. Próximo às aldeias, os Wajãpi continuam encontrando pegadas de garimpeiros.

Os Wajãpi continuam muito preocupados com os invasores que eles sabem que estão na região norte da Terra Indígena Waiãpi. “Nas aldeias da região, as famílias estão com muito medo de sair para as roças ou para caçar. Algumas comunidades saíram de suas aldeias para se juntar a outras famílias de outras aldeias para se sentirem mais seguras”.

Segundo organizações de defesa dos direitos humanos e indígenas, como a OAB, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)  e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), essa situação tende a se agravar, particularmente por conta da posição do presidente da República, que insiste em anunciar a abertura das Terras Indígenas para a mineração.

No mesmo 27, dia em que soubemos do ataque aos Wajãpi, o presidente afirmou, durante uma formatura militar no Rio de Janeiro, que uma das atribuições de seu filho Eduardo como embaixador do Brasil nos Estados será a de buscar parcerias no “primeiro mundo” para explorar as áreas indígenas.

Essa posição reforça as declarações do ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque que, em março deste ano, informou, em um evento no Canadá, que o governo pretende autorizar a mineração em Terras Indígenas sem que sequer os povos originários sejam consultados.

E assim seguimos. Enquanto do lado de cá diversas organizações, entidades, artistas e políticos se manifestam em defesa do povo Wajãpi, o alto comando da nação primeiro ignora o conflito e depois, sob pressão da sociedade, anuncia a instalação de procedimentos meramente burocráticos para monitorar a região.

Enquanto isso, os Wajãpi seguem pedindo socorro. “Mataram feio e nós estamos com medo, com muito medo”, é o grito que lançam dos confins de sua terra invadida.

Zezé Weiss – Jornalista

Nota: É importante relatar que a Polícia Federal emitiu um laudo necroscópico apontando a morte por afogamento.   os laudos da polícia não reconhecem o assassinato e que os indígenas reafirmam o ataque, a morte e o medo. No dia 16 de agosto, a APINA emitiu nota conestando o laudo, assinado por dois  médicos legistas.  Os indígenas reafirmam que houve ataque e assassinato, e que eless coninuam com medo.

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