Sagrado Indígena: Reflexões sobre e Reflexos da Conferência da Ayahuasca 2016

“Teve um tempo em que o índio para ser um cidadão brasileiro tinha que usar roupas, ser batizado, parar de falar a língua indígena, falar a língua do branco. Tudo isso para ser considerado gente. Será que não estamos violando os direitos sob a justificativa de estarmos protegendo algo? Afinal, pode ser que reconhecer a ayahuasca contradiga a essência da coisa”.

Este é um excerto  da fala de Francisco Piyanko Ashaninka, durante uma reunião em que estávamos discutindo, juntamente com o IPHAN e a presidência da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), as bases para a realização, em 2017, de uma série de encontros regionais e, ao final, uma grande conferência estadual para discutir um assunto que vem gerando diferentes posições e pequenos conflitos: a patrimonialização da ayahuasca.

Como!?

Pois é, o assunto não morreu como eu já havia alertado em textos anteriores, para desalento de um querido amigo que, em nossos encontros pós-conferência, insiste em demover-me de uma visão e posicionamento que, segundo ele, é equivocada.

Esforço louvável, mas inútil ante a convicção que me move e que ficou clara nas falas proferidas pelas lideranças durante as assembleias regionais que vem ocorrendo.

Assim, embalado pelas manifestações das lideranças e também pelo excelente texto do Iberê Guarani, bato na tecla do principal erro da “conferência de coisa nenhuma”: juntar farinhas diferentes no mesmo saco.

Ou seja, querer transformar um evento de cunho científico (e sem “espírito”) em um encontro de linhas, doutrinas, interesses e visões sobre um assunto que é profundo, complexo e etéreo, e, por isso mesmo, inalcançável para a compreensão de boa parte dos doutores e “mestres” presentes.

Está claro que cada nicho (igrejas, estudiosos, indígenas que viajam, etc) tem um interesse nesse movimento de “patrimonialização” ou “reconhecimento” do seu uso. Muitos destes interesses são de cunho pessoal, seja por status, seja para legitimação ante a sociedade e os órgãos de controle, assim como também sua legitimação junto ao meio científico/acadêmico. Não entrarei no mérito e nos interesses que movem tal reconhecimento. Mas é um assunto que ainda trataremos.

O tema vem sendo discutido nas assembleias das organizações regionais do Juruá (OPIRJ, OPIRE e OPITAR*), em parte pela má impressão que ficou da “conferência de coisa nenhuma”, em parte devido à retomada do processo de patrimonialização através do IPHAN.

O indicativo que vem saindo desses encontros é a confirmação da dissonância observada na conferência entre indígenas e os demais presentes. Dissonância essa que foi muito além da carta de manifestação dos indígenas – e toda a bizarra situação que a envolveu, que fez com que a mesma tivesse duas versões, atendendo a interesses nitidamente diferentes: indígenas e organização do evento.

É interessante observar as manifestações a respeito do assunto deste reconhecimento. Venho observando, em diferentes situações, que em geral os indígenas não veem com bons olhos este processo, principalmente quando são informados sobre o procedimento de estudo necessário.

Pude ouvir um pouco sobre isso na assembleia da OPIRJ, realizada na TI Puyanawa recentemente, e também em conversas com diferentes lideranças e algumas comunidades.

Claro que este reconhecimento, em certo grau, atende aos desejos de um grupo de indígenas que viajam propagando a cultura de seu povo, seja no território nacional, seja em terras distantes como a do Velho Mundo.

Mas será mesmo necessário isso para que estes propagadores da cultura tenham legitimidade? Até onde este interesse é pessoal?

Isso faz sentido para a comunidade e os verdadeiros detentores do conhecimento originário sobre a ayahuasca? São questões complexas que necessitam serem debatidas em espaços próprios, específicos para um bom “papo de índio”.

E é essa necessidade que motivou a construção de um projeto interinstitucional que promova conversas regionais e a realização de uma grande conferência onde todas as terras indígenas do Acre, e parceiros afins, possam discutir o assunto e decidir se querem ou não fazer parte deste movimento de patrimonialização que vem sendo discutido e que estará em processo num horizonte não tão distante, processo este encabeçado pelas igrejas que utilizam o sagrado chá.

– E esse papo de ayahuasca como patrimônio da humanidade? – Pois é, papo doido esse e ininteligível para muitos, principalmente para as comunidades indígenas. E a justificativa de que seu consumo, de certa maneira, já se espalhou pelo mundo, nada mais justo legitimá-la e, assim, retirar da marginalidade tanto os núcleos religiosos quanto os terapeutas holísticos que a utilizam em suas práticas. Vale lembrar que recentemente tivemos a situação de um terapeuta brasileiro que foi preso na Rússia por portar e utilizar a ayahuasca no solo moscovita.

É importante citar que países como o Peru e a Bolívia já possuem estes processos de salvaguarda dos conhecimentos tradicionais dos povos originários quanto suas práticas espirituais e de sua medicina. No entanto, a realidade das comunidades indígenas acreanas são bastante singulares em relação ao tema.

Não querer fazer parte desta patrimonialização é um direito das comunidades indígenas e, a meu ver, até certo ponto, é um gesto de resistência ante à broca insensível do desejo de posse, que move essa nossa sociedade ocidental que, desde suas raízes fundadoras, apega-se à pratica de tomar para si tudo o que lhe é de desejo, nada está seguro ante esta voracidade.

Acho isso interessante: o desejo de reconhecer algo, de ser dono de algo que o legitime diante do outro. A busca pela legitimação e status, mesmo que procure trazer para o âmbito da sociedade material algo que, a priori “não é deste mundo”.

Manter o “véu de mistério” talvez seja uma das estratégias de proteção desse conhecimento tradicional dos povos indígenas.

Cerrar as portas do sagrado, impedindo que esse conhecimento seja mapeado, dissecado e publicado como princípio para sua proteção parece ser algo desproporcional quanto aos benefícios que hão de vir para as comunidades e os detentores originários dessas práticas.

Afinal, como encalacrar em uma caixinha de conhecimentos algo que é tão amplo, diverso e profundo como a ciência espiritual do Huni, do Kamarãpy, do Uni**?

Analisando friamente o outro lado da “cortina”, vê-se que, de certo modo, o universo a ser mapeado da cultura dita ayahuasqueira promovida pelas igrejas é um campo limitado a conhecimentos históricos e fundantes de certa maneira já conhecidos, ou que possuem suas bases assentadas em preceitos sincréticos mais ou menos definidos.

Também para os doutores bioquímicos, antropólogos e cientistas acadêmicos, esta linha de estudo “ayahuasca” não é de todo um universo infinito. No entanto, no mundo indígena, a coisa não é tão simples e o horizonte não é tão visível assim.

Há de se entender o que realmente seria esta salvaguarda patrimonial, bem como os diferentes interesses, benefícios ou malefícios que esta possa representar, na atual conjuntura mundial de uso do chá ou de seus princípios ativos. Onde as comunidades se enquadram nisso? – É uma questão a ser refletida e respondida.

Para isso, logo após a malfadada festa (por vezes mambembe) protagonizada pelos doutores de Ibiza e seus satélites, veio tomando corpo o movimento de reunir as comunidades para tratarem deste assunto. E um primeiro passo vem sendo dado com a inserção do tema nas reuniões das organizações regionais indígenas do Juruá. É um papo que tem que ser feito com calma, no “tempo indígena”, respeitando as dinâmicas de discussão e tomadas de decisão.

As comunidades indígenas vêm a cada dia discutindo e tomando decisões quanto ao controle e proteção de seus conhecimentos. Algumas delas, inclusive, vêm manifestando por escrito à FUNAI, o seu desejo de não aceitar a entrada de pesquisadores que tenham como objetivo, o estudo de sua cosmologia e suas práticas ritualísticas.

“Eu entendo que vocês tem dificuldade de compreender isso, mas nós índios temos clareza que isso vai impactar a longo prazo os índios, pois terão que se enquadrar para ter este conhecimento reconhecido, igual a ter que mudar seu jeito de ser para ser considerado gente” – Reflexão interessante feita pelo Francisco Piyanko enquanto analisávamos as diferentes posturas das comunidades em relação a este assunto, durante a assembleia da OPIRJ.

Aprendi que a cultura indígena tem como preceito não deixar assuntos pendentes, e todo esse movimento que se apresenta para o ano de 2017 é justamente acabar com esta pendencia.

Se os doutores de Ibiza e seus satélites não entenderam o recado que foi dado, ou se preferiram acolher a versão mais aprazível da manifestação dos representantes indígenas, ou ainda, que desqualificaram as posições destes representantes citando-os como jovens ou desconhecedores da verdadeira tradição, agora será o momento em que realmente teremos um espaço verdadeiramente legitimado e totalmente aberto para o diálogo sobre o tema.

Um espaço gratuito de participação, aberto a todos onde o direito de fala e de contradição é assegurado e onde tomar-se-á a decisão sobre o interesse dos povos indígenas acreanos em fazer parte ou não deste processo de patrimonialização.

Um espaço onde os “doutores e mestres” não precisam de diplomas. Um espaço onde a arrogância acadêmica de alguns não intimida as posições e falas dos participantes. Um espaço onde, acima de tudo, o que vale é a participação de todos, é ouvir cada um dos presentes tendo como objetivo simplesmente o bem comum e o direito de não ser ensacado no mesmo saco de farinha puba dos que se refestelaram em sua arrogância colonialista.

Certo Raial Orotu? O que você me diz sobre isso? Conta pra nós como foi esta assembleia na terra dos Puyanawa!

ANOTE AÍ!

 

Jairo Lima, o autor desta matéria, é indigenista, radicado em Cruzeiro do Sul, Acre. Além de parceiro da Xapuri, Jairo publica seus escritos em seu próprio blog: cronicas indigenistas http://cronicasindigenistas.blogspot.com.br/ 

* OPIRE (Organização dos Povos Indígenas do Rio Envira); OPITAR (Organização dos Povos Indígenas do Rio Tarauacá) e; OPIRJ (Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá).

** Cada povo indígena possui uma designação par a ayahuasca.

Todas as imagens utilizadas neste texto são de autoria do artista plástico acreano Tiago Tosh

About The Author

Jairo Lima

Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano.

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