O SAGRADO INDÍGENA E A DIALÉTICA DO PECADO- Parte II

Imperfeições e o dualismo do espírito humano…

Por Jairo Lima

E seguimos em mais um percursos de subida nesse rio de reflexões que iniciamos no texto anterior, indo mais adiante, vencendo cada volta desse rio sinuoso e por vezes mutante.

Como citei anteriormente, a pecha indelével da imperfeição original herdada das aventuras no Jardim do Éden, juntamente com as demais transgressões pecaminosas do nosso ser material e espiritual, nos leva impreterivelmente a um estado de constante imperfeição.

Esse estado se manifesta em nós principalmente pela busca incansável – e por vezes despercebida – em dar sentido a tudo que nos rodeia, como se este sentido espelhasse diretamente sobre nós mesmos, dando-nos por conseguinte a sensação de que nos encaixamos nesse Cosmos disfuncional, desde que, esse processo de significação não seja interrompido. Daí a necessidade dos rituais dogmáticos e doutrinas estabelecidas que nos possibilitem manter esta conexão.

Aí temos uma pegadinha bem interessante: Crescemos sabendo que nossa passagem terrestre é o tiro de largada para uma maratona de duas fases, sendo a primeira com dois objetivos de chegada plenamente estabelecidos, e que nos traz diferentes sensações.

Esses objetivos são o Paraíso (ou Céu, ou Nirvana, etc) ou o Inferno (ou Hades). E onde está a pegadinha?

A pegadinha está no fato de que já começamos esta maratona em desvantagem total, estando bem mais próximos da linha de chegada para as portas dos Inferno.

Devido a isso, claro, a prioridade nessa corrida é em retardar ao máximo cruzar esta linha de chegada, deixando em segundo plano o outro objetivo.

A segunda etapa dessa maratona, já também estabelecida e inserida em nosso âmago através dos conselhos de nossos pais, passando pelos sarrafos de nossos avós e, claro pelos desenhos e filmes infantis cheios de ‘moral da história’ que assistimos em nossa primeira fase do crescimento, é bastante conhecida: as benesses da eternidade na luz do Paraíso ou a danação excruciante das labaredas infernais do mundo do ‘cramunhão’.

Como todos acreditam de certa maneira num certo sagrado, todos acabam por aceitar e, muitas vezes, seguir alguma espécie de crença, desde as organizadas e compartimentadas,  representadas pelas ditas ‘religiões oficiais’ (no caso as diferentes doutrinas de fé cristã) até as mais desprovidas de qualquer configuração pré-estabelecida.

É por questões como essa que creio que temos a necessidade de ter uma religião, ter algo que nos guie, algo que possamos nos apegar. Infelizmente, é por causa dessa carência que vemos desde os que pagam dízimos a pastores inescrupulosos, até aqueles que se deixam enganar por falsos pajés e xamãs, ou se submetem às bichogrilisses do mal das mais variadas.

Mas, voltemos ao estado e sensação de imperfeição. Ora, se somos  imperfeitos, tudo o que pensamos ou fazemos é imperfeito. Sendo assim, logicamente, o fato de aspirarmos a perfeição é algo absurdo, pois, se já nascemos com a imperfeição espiritual e passamos a vida pensando e fazendo besteira, seria em vão o esforço de alcançar a perfeição, de maneira que, conforme somos pré-programados a acreditar, lutamos a vida inteira somente para que, do outro lado, sejamos abrigados num lugar ‘menos pior’, enquanto aguardamos a graça de alcançarmos a iluminação. (Brumas de Descartes que até hoje infernizam o pensamento ocidental).

Bem idiota isso, mas, creiam, é o que rege e motiva a vida de muita gente e, pasmem, impele muitos na busca da ‘cura’ desta imperfeição, procurando caminhos espirituais dos mais diversos. E essa necessidade diversificada e aglutinante é, de certo modo, exclusiva de nossa sociedade ocidental.

Vemos crescer, então, cada vez mais nos últimos 60 anos, pessoas em busca de um certo ‘caminho do sagrado’ mais alternativo, mais ‘natural’, mais de ‘raiz’. Caminhos esses que, em contraposição à ideia reinante de evitar o ‘inferno’ – ou a tristeza, ou a imperfeição da alma, etc – propiciariam ao peregrino, alcançar a ‘cura’ ou a iluminação espiritual.

Aí tem uma questão bem interessante de observarmos: todos estes ‘caminhos’, representados, em sua maioria pelas crenças orientais (budismo, taoísmo, hinduísmo, etc) e esotéricas diversas, sempre acabaram por transformar-se em uma versão mais ‘gourmet’ de fácil consumismo e entendimento, por parte dos que os adotaram, isso porque os simbolismos e simbologias que regem nossa sociedade, carecem de signos que nos sejam perceptíveis, que tenham significância para nós, pois, do contrário, de maneira quase inconsciente, nos desapegarmos facilmente da mesma ou até, o que é mais comum, nem nos interessaríamos por estes caminhos. Assim, de maneira geral, foi retirada somente o ‘essencial’ (em geral caracterizado pelo superficial) desses caminhos sagrados.

Acelero mais o motor de nosso barquinho para vencer a correnteza e vou direto a um ponto mais específico para nosso próprio entendimento, pelo menos dos que creio que tenham se interessado por esta viagem que iniciamos na semana passada.

Nas chamadas doutrinas daimísticas, representadas pelas igrejas e centros de iluminação que utilizam a ayahuasca como base de seus rituais, também encontramos o que chamarei aqui de ‘cultura do pecado’, onde, os preceitos, signos e simbologias utilizadas trazem muito da herança judaico-cristã, formadora de nossa ‘civilização ocidental’.

No entanto, essas doutrinas trazem um diferencial importante e essencial no que diz respeito à atenção que se dá ao pecado e, também, ao caminho que o peregrino (no caso aquele que segue a doutrina) deve trilhar para que possa, simultaneamente, disputar a tal maratona, anteriormente citada, em igual condições de alcançar um dos dois objetivos finais que se mostram ao horizonte final da vida.

Nestas doutrinas, ao invés de somente atendermos a dogmas e rituais de purgação do pecado, graças a ayahuasca, somos postos em perspectiva em relação ao mesmo, vendo-o e mergulhando profundamente nele. Dissecamos seu entendimento enquanto contemplamos didaticamente suas mazelas e desgraceiras. Sendo ainda mais audacioso na análise posso dizer que, no ritual, ‘vivemos’ esse pecado e nos relacionamos intimamente com ele, de maneira que este se apresenta em toda sua forma e força. No entanto, no pólo contrário, também vivemos o ‘estado de iluminação’ e contemplação da assim chamada ‘luz’ divina, vivenciando-a e sendo instruído continuamente por ela.

Porém, mesmo nessas doutrinas, a figura do ‘ser externo’ responsável por nossa iluminação e cura possui também papel essencial, como o guia que nos mostra o caminho a seguir.

No entanto, o panteão de seres e divindades dessas doutrinas propiciam aos seus seguidores, a possibilidade de agregação de simbolismos e demais signos de todo um universo de percepções do ‘Sagrado’, aglutinando diferentes significados e significâncias acrescentadas a estas no decorrer de sua existência, a partir de diferentes personagens que dela participam e contribuem com a sua constituição.

Dessa maneira, em contraponto com a estática imutável de crença e de percepção que em séculos vinham sendo constantemente fixados pelas ‘religiões oficiais’, temos, sim, um caminho do sagrado em constante mutação, onde paulatinamente, a ‘cultura do pecado’ tem menos importância que a busca pelo ‘conhecimento do sagrado’, ou seja, a ‘busca em alcançar o paraíso’ citado no texto anterior.

Mas, mesmo com todo esse diferencial, estas doutrinas, ainda assim, ancoram-se basicamente nas dialéticas constitutivas de nossa civilização ocidental que, no decorrer dos últimos dois mil anos, fez uma salada danada com as diferentes percepções do Sagrado.

O interessante é que mesmo imbuídos de todo esse compêndio secular de conhecimentos filosóficos e religiosos, bem como de toda a possibilidade de acesso ao entendimento da essência milenar de busca pela iluminação, a linguagem e simbologia empregadas nas diferentes doutrinas ainda não conseguem contemplar o entendimento, ou saciar a ‘sede’ de muitos dos que as seguem, de maneira que não é incomum vermos os que ‘experimentam’ continuamente diferentes correntes esotéricas ou rituais complementares  em outras linhas sagradas, para dar mais sentido ao seu ‘eu espiritual’.

Não que seja errado ou desaconselhável tal procedimento. No entanto, fazer desses experimentos complementares parte do processo de contato com o sagrado, pode fazer com que o peregrino se depare com um constante antagonismo que assombra o caminho de todos, e que é responsável por fazer com que alguns se percam ou fiquem confusos na caminhada: o de vivenciar uma experiência somente ‘no raso’, o que acrescenta mais dúvidas do que ‘verdades’ no caminho originalmente escolhido, ou seja, da doutrina à qual integra.

Mas, por ora, deixemos este foco nas doutrinas, pois, a citação sobre estas foi no sentido incidental da coisa, no intuito de trazer mais uma ‘chave’ para o entendimento do que procuraremos tratar durante a fase mais ‘crítica’ de nossa  viagem, no próximo percurso.

Assim, diminuo a velocidade de nosso barquinho e chamo a atenção de vocês para um detalhe importante: notaram que não me referi a Deus nem no texto anterior nem neste? É intencional, até porque não tem muito sentido no contexto, pois o ponto central desta viagem toda é o caminho do sagrado e, não, o Supremo Arquiteto – tenha este a denominação que for: Deus, Javé, Alá, Ilúvatar,  Krisna, etc. – ou, ainda, os seres divinos que o auxiliam na empreitada: Jesus, Juramidãm, São Miguel, São Gabriel, fadas, caboclos etc.

E o sagrado indígena, hein? Nele encontramos todos esses signos e simbologias? E a questão do pecado? E o que isso tem a ver com as doutrinas do Daime, ou Descartes e o escambau a quatro? – Escuto ao longe as vozes de protesto…pois bem.

Finalmente vejo que chegamos no ponto em que o motor tem que ser desligado, para que possamos vencer o próximo percurso um pouco mais devagar, no remo mesmo. É preciso, pois entramos num afluente desse rio, onde a subida é um pouco mais complexa.

Vocês continuarão comigo?

ANOTE AÍ:

Jairo Lima, escritor e indigenista acreano, publica seus escritos no blog www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br Por gentileza do autor, nós os reproduzimos semanalmente aqui neste nosso site da revista Xapuri.

As imagens desta matéria foram selecionadas por Jairo Lima e são da autoria de:

Imagem 1: Autor: Harry Ini Metsa

Imagem 2: “Guerreiro”, autor: Danilo de S’Acre

Imagem 3: Autora: Hushahu Yawanawá
Imagem 4: Autora: Rosi Araújo

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