“Uma serpente rasteja por toda a América. Há muito a enrodilha em seu abraço. E não é a Jiboia Yube, na língua Hãtxa Kuin, a “língua verdadeira” dos Huni Kuin, não, ela não esteve nas águas profundas com kenewma e kenewsi, não emplumou seu ser com Quetzalcóalt, nem irmanou estrelas na amplidão pampeana como as rubras chamas de mboitá. Esta Serpente não é daqui, vem de além, de outras lonjuras. Chegou nestas paragens quando era a terra sem amo, sem América, imensa, rica e vegetal.”

O texto acima é parte da introdução de um interessante livro que estive lendo estes dias, chamado livro “IIRSA – A Serpente do Capital”, adaptação da Tese de Mestrado do Cientista Social Daniel Iberê, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Sempre acreditei que cada livro ou texto que lemos nos acrescenta algo, como uma espécie de “milhagem” de conhecimentos e conteúdos, que associados a outras fontes de informação e aprendizagem, nos possibilitam uma leitura de contexto e de realidade mais completa e ampla.

É o caso da obra de onde retirei o excerto que o principia este texto, assim como embasa o restante desta minha crônica , que foi motivada em grande parte pela notícia que li nas mídias sobre as informações atuais sobre o assassinato da ativista e pescadora Nilce de Souza Magalhães, cujo corpo, com mãos e braços amarrados, foi encontrado no fundo de um lago após cinco meses do seu desparecimento, em janeiro de 2016.

A “Nicinha” (como era chamada) militava no grupo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Ela foi uma das dezenas de mães de família que foram diretamente afetadas e perderam suas terras após a construção da usina hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. Era filha de seringueiros e morava num acampamento de pescadores, pois não conseguiu ser assentada em um novo local.

Essa notícia, aliada a outras envolvendo a morte de indígenas em sua luta pela terra, me deixou com a mente remoendo pensamentos, o que afastou Morfeu da minha cabeceira, deixando-me insone.

O start para esses pensamentos foi a união da ótica sagaz da obra de Iberê, que nos apresenta a Iniciativa para a Integração Regional Sul-Americana (IIRSA) – através da implementação de uma rede energética, de comunicação e transportes, que envolve os países da América Latina – e a profundidade da reflexão de Noam Chomsky – um dos maiores pensadores do planeta – no excelente documentário Requiem For American Dream (disponível no Netflix) onde analisa, de forma brilhante, temas ligados à riqueza, política, democracia e sociedade citando, no decorrer de sua análise, o tal “reordenamento econômico”.

Mas que raios isso tudo tem a ver com o indigenismo?

Bem, se você vive na Amazônia e tem contato com a floresta e seus povos – sejam indígenas, ribeirinhos ou extrativistas – repondo: tem tudo a ver!

E vou além: isso tudo é pertinente, mesmo para você que não é um indigenista ou não tem contato com estes dade onde vive.

Vamos lá…

Nos últimos anos temos visto a profusão de projetos de desenvolvimento econômico que, em suas justificativas, pregam a melhoria das condições econômicas e sociais como resultante destes investimentos, onde o mote é “alcançar novos mercados, expandir investimentos, propiciar maior interação entre países”. O que chama a atenção é para onde a bússola desse desenvolvimento todo aponta e o que tem em seu caminho.

Para os que planejam, trata-se somente de um traçado no mapa, ou um ponto num croqui descolorido, ou ainda uma maquete virtual num fundo azul ou verde.

Mas esses traços, ou riscos, ou maquetes,  incidirão e transformarão biomas, e dentro desses biomas, além das riquezas naturais existem povos que há muito lá habitam e que sofrerão direta ou indiretamente o impacto destes empreendimentos.

A tal da “Serpente” então se apresenta. Em sua testa reluz a palavra “integração”. Palavra de duplo sentido que tanto significa unir quanto significa “morte cultural”. Sua cantilena encanta e seduz, tornando sua sibila agradável aos ouvidos, convencendo de seus ideais e princípios e nos deixando suas crias: projetos de integração e desenvolvimento.

Com isso, nós que ficamos aqui, sentados à beira dos rios, respirando esse ar amazônico,  somos informados de necessidades que não sabíamos que tínhamos. De planos de futuro que não havíamos planejado.

Assim, dos ventos que nos chegam, vem notícias dos “projetos” que nos impulsionarão de tal maneira que chegaremos “lá”. Lugar desconhecido e sobre o qual as referências que temos sobre os mesmos, e que nos chegam de outras regiões que “quase estão lá” não são nada boas.

E assim somos apresentados ao “programa” através de lindas fotos e folders por especialistas e técnicos bem arrumados, saudáveis e regiamente pagos que nos mostram o quão imperfeito é nosso viver atual, que o progresso nos arrebatará com suas benesses e que finalmente os “avanços da civilização” transformarão nossa sociedade.

Dizem-nos que tudo ocorrerá bem e todos sairão ganhando. Se precisar mudam-se leis, mas não se mudam os programas. E assim somos conduzidos extasiados para esse “sonho que virará realidade”.

Infelizmente, implantado o projeto, as crias dessa serpente se revelam assustadoras, ferozes e com uma avidez digna de uma manticora. E assim as pessoas deixam de serem pessoas e viram números. Os biomas transformam-se em meros desafios naturais a serem vencidos.

Os problemas advindos de sua implantação tornam-se “efeitos colaterais necessários”. Os males sociais, ambientais e culturais advindos tornam-se “danos a serem mitigados”. Os acidentes e desastres que acontecem tornam-se “fatalidades” que servem no protocolo de contenção de danos.

Olhe, veja o que vem ocorrendo. Faça uma busca rápida em seu navegador, procure  por palavras ou nomes como: Belo Monte, Hidrelétrica de Jirau, Samarco, Transgênico, Guarani-Kaiowa, PEC-215, PEC65/2012, entre outros.

Você terá uma desagradável surpresa, mas, ao menos você desnudará a alma dessa serpente.

Infelizmente, as “milhagens” de minhas leituras e a experiência de vida profissional e social não são assim tão amplas que me permitam bater asas tão longe ou enxergar como o Boitatá. De maneira que restrinjo ainda mais a minha perspectiva, trazendo-a para a terra de Galvez e suas adjacências nacionais e internacionais. Afinal, a bússola demorou, mas voltou a apontar para essa direção.

Há alguns anos prega-se ao vento e aos ouvidos da maralha acreana que é necessário “integrar-se” com o mundo econômico moderno e mundial, e assim já há muito tempo, alguns projetos e programas vem sendo insistentemente inseridos no rol de anseios que se tornam verdadeiras bandeiras de luta política. Posso livremente citar algumas dessas “bandeiras”.

Entre as bandeiras de desenvolvimento tem-se o anseio de ver brotar de nosso argiloso solo o tão cobiçado petróleo ou ainda, o gás natural que magicamente transformará nosso combalido e verde estado numa verdadeira Arábia de riquezas, poder e facilidades.

Digo Arábia porque, como sabemos pelas notícias atuais, a Cidade Maravilhosa que em muitos as aspectos servia de referencia de pujança, continua linda, mas encontra-se falida.

Felizmente, esse anseio encontra-se embargado pela justiça federal, devido a problemas no licenciamento, provando estar errada a especialista que tão prepotentemente discursou para as autoridades acreanas que ao se referir às normas ambientais das áreas de proteção – como as Terras Indígenas – troçou: se a gente obedecesse a distancia de dez quilômetros aqui e dez ali, o que sobraria pra gente né?

Né não, cara pálida!

Não sou contra os projetos de desenvolvimento econômico ou social, sejam eles quais forem.

Tenho ressalvas de como esses projetos são implantados e as consequências dos mesmos sobre algo que, no meu entender é fundamental para algo maior que o simples enriquecimento nacional ou local: o meio ambiente e seus habitantes tradicionais.

Os exemplos que temos logo aqui em nossas fronteiras são terríveis.

Infelizmente a cultura da leitura informativa e educativa em nosso país e mais ainda em rincões como nossa região ainda é algo muito precária, o que faz com que notícias como o que vem ocorrendo na região de mineração em Madre de Dios, no Peru, ou os vazamentos de óleo no Equador, ou ainda os efeitos do desastre em Mariana, não cheguem aos olhos e ouvidos de todos tão abertamente.

Agora juntemos a tudo isso a questão dos povos tradicionais que habitam nossas florestas e sofreriam diretamente o impacto dos chamados “projetos de desenvolvimento”.

Temos extrativistas, ribeirinhos e indígenas que convivem (em sua expressiva maioria) intimamente ligados ao meio em que vivem, mantendo (em menor ou maior grau) singularidades culturais e sociais que precisam ser valorizadas e preservadas, pois são partes de nossa própria identidade cultural e o elo de nossa ligação com a natureza que tão zelosamente nos trouxe até a existência atual.

No Acre, temos cerca de quatorze povos contatados e uma quantidade de outros que ainda perambulam livremente (mas sob risco) pelas regiões inexploradas de nossas florestas, principalmente na bacia do Juruá.

E o bioma onde vivemos, com florestas ainda inexploradas, ricas em espécies da fauna e flora amazônica? É comum lermos relatos sobre novas espécies descobertas. E o potencial medicinal destas variedades de plantas que temos?

Faço um contraponto direcionado a mim mesmo. Dou-me o poder do contraditório e questiono-me: mas então devemos manter intocado toda essa potencialidade? Não devemos pensar em projetos de desenvolvimento? As populações das cidades, aldeias e vilas não podem ser beneficiadas por projetos? Quer dizer que tudo é pernicioso e perigoso?

Não! Mas há de se garantir ferramentas e espaços para que os projetos possam ser devidamente apresentados e discutidos, de forma transparente e dando a todos o poder de se expressarem a respeito. É o tão chamado e escorraçado “amplo direito de consulta”, continuamente desrespeitado ou camuflado. Há de se garantir rigores e controle da lei sobre os projetos. Há de garantir que se respeitem as manifestações técnicas contrárias ao projeto. Há de…

Assim, vejo que não há experiência e segurança para tais empreendimentos sem ferir os direitos e princípios básicos não só das populações da floresta como também dos citadinos. Não dá pra confiar quando vemos leis serem mudadas para facilitar este ou aquele empreendimento que claramente beneficiam poucos em detrimento de muitos.

No entanto, muitas iniciativas já se encontram em andamento e claramente trazem desafios para os povos tradicionais, entre estes os indígenas, constantemente acusados de “atrasar o progresso”. E o que fazer?

A militância e atuação indigenista deve estar sempre se atualizando, pois, do contrário já não é possível dar conta, nos tempos atuais, dos desafios e lutas que se apresentam. Afinal, as “crias” da serpente estão aí se enrolando e apertando gradualmente algo bem mais amplo que as terras indígenas.

O foco agora é o acesso à informação e a afirmação dos direitos coletivos destes povos em opinar sobre estes projetos, fazendo valer seus direitos originários e adquiridos.

Nas rodas de rapé, após as sessões de huni, nos momentos das refeições e nas reuniões os assuntos são discutidos e os planejamentos são feitos. Afinal, entre as principais armas da “Serpente” estão a desinformação e a desorganização.

Além de indigenistas vemos o imenso esforço de lideranças indígenas pelo Brasil todo. São lideranças “inominadas” às quais só conhecemos através de imagens das ocupações de fazendas; dos acampamentos em frente à esplanada dos ministérios em Brasília; das sessões sombrias e polêmicas do Congresso Nacional; dos braços dados em protesto nas rodovias federais, etc.

Corpos pintados e encimados de plumas coloridas, armados de arcos e flechas e munidos de discursos que geralmente são recebidos por paredes humanas protegidas com escudos, armadas com gás e munidas de muita indiferença e intolerância.

Respiro fundo e tento conter o mal-estar. Afinal, como bem disse Sartre: “não sou obrigado a escolher, a minha liberdade está na chance de poder escolher”.

Refletindo sobre o que acabei de escrever olho novamente a foto da “Nicinha” na matéria sobre sua morte. Olhos que me fitam tristes, mas, resolutos e conscientes das lutas e de onde isso poderia levá-la (e levou).

Lembro-me de ter visto este mesmo olhar tantas outras vezes no passado e me faço a mesma pergunta que o poeta e ganhador do Nobel, Bob Dylan fez em sua canção: Quantas orelhas um homem precisará ter antes que ele possa ouvir as pessoas chorarem? Sim, e quantas mortes ele causará até saber que pessoas demais morreram?*

Pois é, amigo Iberê, boa sacada a do teu livro. E te digo uma coisa: A Serpente não nos vencerá!

 

ANOTE AÍ:

 

Jairo Lima, indigenista acreano. Escreve e publica seus escritos regularmente no site cronicasindigenistas.blogspot.com.br

As imagens desta matéria foram, em sua maior parte, selecionadas por Jairo e são da autoria de: 1) Iberê – foto de Eurilinda Figueiredo; 2) Ion David; 3) Museu da Amazônia (MUSA); 4) Sérgio Vale; 5) Tashka Yawanawa; 6) Nicinha – foto do Jornal Nortal.

 

About The Author

Jairo Lima

Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano.

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