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Sobre o ódio cego, que assassina, e a vida, que insiste em resistir – Por Raial Orotu Puri –

Eu às vezes fico me perguntando se existiria uma correlação entre as pessoas que assistem alguns tipos de filmes e o modo como eles encaram a realidade que as cerca.

Por exemplo, pessoas que se interessam muito por filmes de guerra, teriam esse interesse específico para suprir ou situar a violência do mundo no ambiente ficcional?

Pensando assim, talvez ser fã de filmes sangrentos hiper-realistas – mas ainda assim irreais – seria só uma outra espécie de escapismo, de tentativa de colocar a brutalidade, a própria ou a dos outros, em uma situação controlada, visto que ela se limita ao tempo e ao ambiente da película e não extrapola para o plano do real (pelo menos em tese, e guardadas as devidas exceções sociopatas-inspiradas, o esquema funciona bem, e os aficionados em violência fictícia permanecem sendo pessoas normais e não necessariamente capazes de atos violentos reais simplesmente porque gostam de vê-los representados no cinema).

Pessoalizando um pouco o tema: eu sempre fui muito interessada na Segunda Guerra Mundial… Li uma quantidade considerável de livros e assisti outros tantos filmes sobre o tema.

E, no meu caso, não tem nada a ver com qualquer tipo de interesse bélico, muito pelo contrário. Meu foco quase sempre foram as narrativas sobre as vítimas, embora também tenha dedicado alguma atenção sobre a análise psicológica dos algozes. Sou levada a pensar que isso também era uma tentativa minha inconsciente de expulsar do meu cotidiano certos níveis de crueldade cujas dimensões chegam ao insuportável.

Tentativa infrutífera no meu caso, é claro, posto que a verdade que eu conheço é muito diferente, e não existe qualquer possibilidade de conforto para ela: a crueldade de dimensão insuportável não está adstrita ao que houve na Segunda Guerra Mundial, e aquele não chegou a ser o único holocausto. Nem sequer o maior deles.

Da mesma forma, aqueles ódios que se colocaram na história como os mais viscerais e terríveis estão aqui, bem perto, neste lado do trópico, a despeito de serem aqui tão fora de qualquer sentido. E minha proximidade com as vítimas é indissociável, seria impossível ignorá-la, mesmo que eu quisesse.

Nada do que eu penso é necessariamente novo e todo mundo já conhece a quase cantilena onipresente em meus escritos, acerca do fato de sermos o que resta de cinco séculos de genocídio. De fato, nada de novo.

Mas, ainda assim, a capacidade de me espantar segue me relembrando  a condição de ser vivente, pois a mim parece que a morte se aproximará no dia em que eu for tomada de apatia e indiferença. E é assim que me vejo outra vez nesse estado, à medida que, chegando pelas redes, se somam os relatos de ameaça e violência ocorridos no Rio de Janeiro, noticiados pelos parentes, muitos dos quais de meu próprio povo.

É, como eu disse, tudo muito igual, e nem por isso irreal: muda o cenário, mas as vítimas potenciais são sempre as mesmas, assim como é invariável o ódio. Esse sentimento tão estranho, tão feroz e absurdo. O ódio que deseja o extermínio. Motivo? Nenhum que seja racional, é claro: a simples existência, a insuportável insistência em insistir dos diferentes. E só, em síntese.

Eis que na capital do Rio de Janeiro, um grupo de indígenas, remanescentes, sobreviventes, resistentes, insistem em permanecer vivos, a despeito de tantas tentativas de extirpá-los de toda a história. Lá estão, em sua teimosia. Recriando e revivendo a Aldeia Ancestral, no meio da cidade, no meio do asfalto, no meio da cidade raion (não-índio). Maracanã é o nome de um desses espaços que insiste em ser sagrado, em perdurar e resistir. Multiétnica, feita de partes de muitos povos, acolhedora também

Para os não-indígenas que precisam de pouco e conforto num ambiente tão hostil.

Maraká’nã, papagaio, a ave de grito estridente que imita o maracá… Nada mais a propósito para o nome do local onde os parentes fazem sua morada, insurgindo-se contra toda a ordem, inclusive a de despejo. E então surgem os cartazes, as ameaças, as intimidações, o fogo, a demolição, o desterro reincidente. Essa mesma violência de sempre. Esse mesmo ódio que já dizimou tantos de nós. Que nos quer apenas nos livros, nos museus, mas que odeia com todas as forças o fato de nossa resistência.

Não raro, vem a ordem taxativa: “Volta pra aldeia!”. A alternativa para quem teima é uma só: ficar e morrer; ficar é morrer. É como assinar um termo autorizando a ser vítima de toda a violência e sadismo que eles quiserem nos causar. É ser culpado da própria morte, porque, afinal, eles avisaram. Irônicos eles, não? Ignoram com todas as forças os fatos óbvios de que a cidade chegou por cima da aldeia, que a aldeia foi queimada, destruída, e foram quase todos mortos.

Que a morte não é ‘só’ física, é também étnica. Que quem sobreviveu viu seu mundo ser assassinado incontáveis vezes, que carrega em si as cicatrizes de tudo o que foi morto – seus parentes, as plantas, os rios, a natureza toda; que tem de suportar a dor de não ter para onde ir, de não ter mais quase nada de si mesmo e dos seus para se agarrar e seguir em frente.

E, apesar disso tudo, seguir em frente. E talvez isso seja a causa de tanto ódio… essa indesculpável capacidade de sobreviver e se reinventar. De dizer basta. De dizer chega. De dizer que não aceita mais ser morto, que só vai para onde seu desejo mandar, e se quiser, vai ficar sim. E de fazer da vida resistência e também denúncia. De usar sua voz estridente que imita o maracá, e gritar: Meus ancestrais foram mortos por vocês!

Eu sei, eu vejo. Nós sabemos. Nós lembramos! Desde o maldito dia em que as caravelas se desenharam no horizonte, a morte chegou com seus ancestrais. E depois trouxeram acorrentados milhares, escravizados, desterrados também. E assassinaram muitos. E mancharam de sangue este solo sagrado para nós. E fizeram sobre nossos túmulos suas lavouras, suas cidades, sua riqueza. Construíram uma pátria sobre estupro e assassinato, e ainda querem ter orgulho disso.

Desde sempre, chegaram querendo reivindicar direitos sobre uma terra que já tinha dono, e ainda hoje insistem nessa inversão de valores, de chamar de invasor aqueles que são originários, de aculturado aqueles que eles mesmos se encarregaram de bombardear com toda a massiva imposição cultural, religiosa e moral.

Se seu mundo é caduco, o nosso se lembra: Desde 12 de outubro de 1492 vocês estão nos matando, mas nós estamos vivos. Não queremos vingança, porque nossa própria vida é a vingança maior que temos. Estamos vivos. Temos memória. Resistimos e vamos continuar resistindo. Acostumem-se.

E eis que o ódio também se apresenta no espaço com esse nome tão pomposo e falso: Universidade. O nome que pressupõe a abertura e o acesso a todos, mas que no fim é tão fechada e enclausurada em sua parcela de iguais, que não suporta a diferença, e que está o tempo todo a lembrar aos diferentes que, na sua branca opinião, não deveriam estar ali. Não deviam estar ali. Não deviam sequer ousar querer estar ali.

Universidade, templo do saber e da erudição, não é? E, pessoas tão bem-educadas deveriam ser realmente mais abertas e condescendentes, não? Que nada! Como bem me lembrou ainda hoje meu caro Samman Poteh, pessoas letradas são capazes de níveis de baixeza inimagináveis…

Não foram exatamente essas as suas palavras, tampouco era sobre isso a nossa conversa, eu sei. Mas, meu amigo de análises sempre tão acertadas também não errou nesta, que eu contemplo mais uma vez, enquanto escrevo sobre o caso das recentes pichações ameaçadores que tomaram as paredes do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais e no Centro Acadêmico de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e que foram levadas a público pela página do coletivo “Ocupa IFCS”.

Lá estão elas, as palavras de ódio, direcionadas às mesmas vítimas de todos os tempos: indígenas, negros, minorias, todos os que não estão em conformidade com o modelo esperado dos ‘homens de bem’. Nelas também a exaltação do ódio máximo, aquele mesmo de sempre, o culto dos grandes odiadores, Nazistas.

E, claro, não posso deixar de pensar na desagradável ironia desses fatos se passarem nos setores de Filosofia e Ciências Sociais. Filosofia, aquela, do amor à sabedoria, do pensamento livre, do debate apenas no nível das idéias.

Aquele ramo de conhecimento tão radioso e brilhante que poderia apontar à humanidade a porta de saída para fora da caverna das imagens turvas, que poderia mostrar-lhes a beleza inigualável de Conhecer sem subterfúgios… mas não, lá está o selo macabro que veda qualquer escapatória, representada nos dois algarismos alinhados que formam o anagrama da cegueira total. O ódio concreto, do qual não se pode escapar.

Ciências Sociais, a que reúne as áreas de Sociologia, Ciência Política, Antropologia… as áreas onde, por excelência e por obviedade, inclusão e acessibilidade deveriam ser pedras de toque. Deveriam, mas não são. Como já aludi em texto anterior, aparentemente, parece que na cabeça de uma boa quantidade de acadêmicos dessas áreas, o diferente só é aceitável enquanto objeto de estudo, nunca como colega de Academia.

Não é, claro, um caso isolado. (Como eu já disse em texto recente, cada vez sou mais convicta de ‘caso isolado’ é o nome de uma figura lendária, mais ou menos como um unicórnio ou algo assim).

Há cerca de um mês, o DCE da mesma instituição denunciou a exibição de um quadro com uma imagem nazista, no campus da Praia Vermelha, na Urca, Zona Sul do Rio. Há cerca de um ano, também na UFRJ ocorreu o assassinato do estudante de arquitetura Diego Vieira Machado. Paraense, negro, cotista, de sexualidade ‘fora do padrão’; apelidado de ‘paraíba’, ridicularizado, alvo de ameaças, e possivelmente vítima de um crime de ódio dentro da instituição, no Campus do Fundão da UFRJ, crime esse ainda sem solução.

Não muito antes disso, ele denunciara um caso de violência ocorrido no mesmo local, outro crime de ódio, não apurado. Pouco tempo depois, ele recebeu mensagens literais e taxativas de sua morte anunciada, assinado por um grupo alinhado com o culto dos grandes odiadores, Nazistas.

Nazistas na Universidade. Eu sei: só eu com os meus valores idiotas insisto em achar isso um paradoxo. Mas tenho de admitir derrotada a verdade: talvez porque por tanto tempo o conhecimento representou nesse país uma das mais severas barreiras para o acesso de quem nunca teve espaço algum.

O outro nome para Universidade é Instituição de Ensino Superior… parece que eles supõem que o ‘superior’ aqui adjetiva uma casta acima das demais, e não um mero degrau a mais de uma escada. Talvez porque lá, eles sempre estiveram entrincheirados, vendo o mundo de cima, intocáveis por trás de suas paredes brancas de hipocrisia, e seu ideal ridículo de pureza. Lá, criam-se mais separados que em quaisquer outras esferas de poder e classe.

Mas isso acabou, não foi? Nós entramos! E a reação se fez sentir. Hostilidades. Piadas. Comentários depreciativos de professores e ‘colegas’ de turma. Pichações, ameaças, coerções, humilhações.

Cada aluno indígena, negro, pobre, trans – seja cotista ou não – nesse país há de ter um pequeno ou grande repertório de narrativas dessas violências. Porque esperar que na UFRJ “a maior e melhor do país” fosse diferente?

Afinal de contas, na opinião dos odiadores, o que faz daquela universidade ‘a maior e a melhor do país’ é justamente o fato de ser absolutamente hermética, preconceituosa, racista e intolerante. E é assim que eles pretendem que ela se mantenha. E estão dispostos a matar para que assim seja.

Nazistas no Brasil. Aí sim, eu posso encontrar eco na minha percepção de total incongruência, já que esta ideia é ridicularizada até por aqueles que são adorados pelos discípulos tupiniquins,  os precursores do movimento de ódio na Europa, que mais de uma vez advertiram dessa verdade tão óbvia: senhores nazistas brasileiros, não importa quanto ódio vocês tenham, não importa que seus ancestrais tenham chegado aqui bem depois, não importa o seu avô alemão, a sua tia austríaca, a sua mãe italiana, nem o papai português, aos olhos do mundo vocês todos não passam de um bando de latinos!

E isso, trocando em miúdos, quer dizer que se as teorias de supremacia e pureza da raça viessem a persistir e o mundo tétrico que vocês tanto desejam fosse real, vocês também seriam exterminados, lado a lado com tudo o que vocês têm negado e odiado ao longo de suas miseráveis existências.


Notas da Autora:

Exceto o trecho da pichação ameaçadora escrita em um dos banheiros do IFCS (‘a maior e melhor do país), neste texto eu me recuso a reproduzir ícones, símbolos ou palavras desse ódio insidioso, mas caso queiram saber mais detalhes, seguem alguns links:

Link para a postagem do Ocupa ICSC de hoje, dia 20/06/2017:

https://www.facebook.com/OcupaIFCS/posts/1865175720411597

Notícia sobre o caso no site do Globo:

https://oglobo.globo.com/rio/estudantes-denunciam-pichacoes-nazistas-dentro-da-ufrj-21496377

Notícia sobre o assassinato de Diego em 2016:

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/07/aluno-da-ufrj-e-encontrado-morto-dentro-do-campus-do-fundao-rio.html

* Todas as imagens desta matéria foram selecionadas por nosso parceiro Jairo Lima  (www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br) e são  do pintor Elin Bogomolnik, nascido na Moldavia em 1976, atualmente radicado em Israel.

Raial Orotu Puri (Andréia Baia Prestes Puri) é graduada em Direito e  doutoranda em antropologia pela UFPR. Mora no Acre onde atua na Divisão Técnica do IPHAN/AC e na Assessoria Jurídica da Federação do Povo Huni Kuin do Acre (FEPHAC).

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