Alimentos: Da lavoura à mesa,  é grande o desperdício

Uma carreta entra em um lugar ermo do Cerrado, para, levanta a caçamba e despeja oito toneladas de batatas. Vem outra e faz o mesmo e outras mais. Jogam fora batatas-inglesas sadias, mas descartadas na seleção mecanizada, feita logo após a colheita, pela sua forma irregular.

Esta cena é muito comum no município de Cristalina (GO), o maior produtor de batatas do país. Toda aquela carga, todas aquelas batatas irão apodrecer sob as intempéries, caso os animais das redondezas não as comam e alguns humanos não aproveitem um pouco delas como alimento.

Não distante dali, carretas e mais carretas abarrotadas de soja, milho e outros grãos, singram as estradas aos sacolejos, deixando rastros de sementes por onde passam. Já nas lavouras, parte considerável das safras havia ficado pra trás, apesar do requinte tecnológico das máquinas colheitadeiras.

Nos atacadões das cidades, final de dia, restos de frutas, legumes e verduras formam montanhas de um luxuoso lixo, de destino incerto e não sabido. O mesmo ocorre com carnes, peixes e frutos do mar, que são descartados prematuramente, como resultado do mal acondicionamento na armazenagem e comercialização.

São, esses todos, flashes de um cenário de desperdício de alimentos que se reproduz Brasil afora, em toda a cadeia produtiva. Estão onde estiver o modelo agrícola em vigor no país, que prefere o caminho concentrador, em que tudo é enorme, tristemente gigantesco, inclusive as sobras ou perdas, no conceito da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o tema.

Embora este seja um problema sempre presente da história da Humanidade, o assunto é pouco estudado com profundidade. De todo jeito, dados da própria ONU revelam que em torno de 1/3 da produção global de alimentos é desperdiçado, variando de região pra região e de país pra país, com casos, como o brasileiro, que se destacam pela sua gravidade.

O organismo da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO) coloca o Brasil entre os dez países que mais desperdiçam alimentos no mundo. E aponta alguns recordes alarmantes, como o de que cada cidadão brasileiro, morador das dez principais capitais, joga fora mais hortaliças comestíveis (37 kg/ano) do que ele próprio come (35 kg/ano).

Isto, com agravantes. Por exemplo, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o aspecto econômico da questão, mais aparente, cada vez mais cede lugar aos impactos ecológicos e ambientais, de difícil mensuração, do ponto de vista monetário.

Começa pelo fato de que o total de terreno plantado cresce ano após ano, seguindo a expansão populacional e do mercado externo, o que significa novas áreas desmatadas, especialmente na Amazônia e no Cerrado.

Espécies da flora nativa, muitas delas ainda desconhecidas, dão lugar a monoculturas, em grande parte de grãos destinados ao mercado internacional. Isto, sem falar nos efeitos sobre os recursos hídricos, atingidos de forma direta pelo próprio desmatamento e também pelo uso de agrotóxicos.

No entanto, as perdas e o desperdício de alimentos ocorrem na cadeia total, do plantio na lavoura ao prato servido nos domicílios ou restaurantes. Do total desperdiçado no país, 10% ocorrem durante a colheita; 50% no manuseio e transporte dos alimentos; 30% nas centrais de abastecimento; e os últimos 10% ficam entre os supermercados e consumidores.

A FAO estima que 28% dos alimentos que chegam ao final da cadeia em países latino-americanos são desperdiçados”, informa documento da Embrapa que trata do assunto. E arremata:

“O Brasil, graças a esforços de pesquisa agropecuária e a programas sociais como o Bolsa Família, saiu do mapa da fome da FAO, no qual constam países com índice de insegurança alimentar grave acima de 5%. A insegurança alimentar grave foi reduzida de 7%, em 2004, para 3%, segundo pesquisa do IBGE realizada em 2013”.

DA SEMENTE À PANELA

A produção em larga escala de soja, milho e outros grãos mudou bastante de endereço no Brasil, na última década. Primeiro, acabou de ocupar o Centro-Oeste e parte do Nordeste, passando em seguida ao Norte. Pelos estados de Tocantins e Pará, por um lado, e por Rondônia pelo outro, já chegando ao Acre.

Esse reposicionamento geográfico da produção tem uma série de implicações, mas a de maiores proporções se deu no setor de transportes, sem dúvida. Os rios amazônicos entraram em cena, com processos de carga e descarga, e longos percursos por rodovias ruins se tornaram fatores de aumento do desperdício dessa produção agrícola.

Trafegar por estradas como a BR-163 (Cuiabá-MT/Santarém-PA) é uma grande aventura. Especialmente nos trechos ainda de terra, no sul do Pará, que se tornaram intrafegáveis no atual período de mais chuvas, quando os caminhões ficam presos em atoleiros por semanas a fio e, quando andam, o intenso sacolejo espalha grãos pelo caminho.

No final de fevereiro e início de março, um trecho de terra de perto de 200 quilômetros até o município de Itaituba (PA) reteve perto de 5.000 caminhões carregados de soja. Eles saem do norte de Mato Grosso, rumo a Miritituba, no rio Tapajós, onde há um moderno terminal portuário. Mesmo com a redução das chuvas, no entanto, o tráfego forma filas de até 50 km na buraqueira.

O mesmo ocorre em Rondônia, onde a BR-364, asfaltada desde o sul do país até Porto Velho, enfrenta problemas ao norte, até Rio Branco, capital do estado vizinho, o Acre. Esta rodovia serve ao escoamento de grãos produzidos naquelas duas unidades da federação e também ao noroeste do Mato Grosso, que por ela chegam ao rio Madeira.

Também ali, o regime de chuvas amazônicas mostra suas diversas fisionomias. Se, por um lado, a rede rodoviária fica severamente prejudicada nas águas, por outro, a estiagem registrada no final do ano passado reduziu a navegabilidade do rio Madeira. Isso forçou as barcaças a navegarem com 30% a menos de carga. São problemas que se refletem no manuseio do volume transportado, levando a desperdícios consideráveis.

Segundo o Ministério dos Transportes, 58% das cargas do país são transportadas pelo sistema rodoviário, o menos eficiente para longas distâncias. Conforme estudo de viabilidade econômica dos transportes de cargas, o modal rodoviário é o mais adequado para as distâncias inferiores a 300 km.

Para distâncias entre 300 e 500 quilômetros, o desejável é utilizar o meio ferroviário (responsável por 25% do movimento) e, para mais de 500 quilômetros, indica-se o fluvial (17%). No Brasil, no entanto, a situação é inversa. E mais grave ainda nas regiões Centro-Oeste e Norte, onde mais de 80% das rodovias federais ainda são de terra, segundo a Confederação Nacional de Transporte (CNT).

A Ferrovia Norte-Sul, que percorre trajeto semelhante ao da rodovia Belém-Brasília, de Belém (PA) a Anápolis (GO), já está concluída na parte de trilhos, permitindo o tráfego de locomotivas e vagões. Mas ainda carece de terminais de carga apropriados, de modo que vem sendo subutilizada no escoamento de grãos do Norte de Goiás e Tocantins.

A deficiência da rede de armazenagem nessas regiões complica ainda mais a situação, pois apressa os deslocamentos da produção aos centros de consumo ou portos de exportação. Há ausência de políticas oficiais de incentivo à construção de armazéns e os que existem quase sempre padecem de problemas de operação ou não atendem às necessidades de suas microrregiões.

Isso, somado a falhas na operação das lavouras, citadas pela Embrapa como um fator de desperdício nessa fase da cadeia produtiva. É o caso da escolha do momento certo da colheita, de modo que os grãos não chegam a maturar direito ou apodrecem no transporte, fator apontado por centros de pesquisa (o IPEA, pra citar um) como causa de grandes perdas.

ATACADÕES E VAREJO

Nos grandes mercados atacadistas de hortifrutigranjeiros do país inteiro são visíveis o desperdício e as perdas. O Ceagesp, de São Paulo, sempre citado como exemplo, desperdiça pelo menos 1% do total comercializado por dia, o que representa perto de 200 toneladas diárias.

Trata-se do maior centro comercial deste tipo na América Latina, mas em todas as cidades brasileiras de médio e grande porte há um deles, que reproduz as mesmas práticas. Em todos eles, um conceito é básico: produto que entrou ali não volta. Em dias muito chuvosos, por exemplo, em que as vendas caem, a quebra é maior.

É certo que em muitas centrais de abastecimento há políticas de doações das sobras a entidades beneficentes, mas isso não chega a alterar as estatísticas gerais do mercado atacadista. E há casos de retrocesso. Na capital paulista, por exemplo, recentemente a prefeitura suspendeu os sopões que eram feitos com restos do Ceagesp e servidos a populações carentes, inclusive os moradores de rua.

É nesta fase do atacado que se dão alguns dos maiores exemplos de agressão à segurança alimentar, com destaque ao desperdício de frutas, que atinge a média nacional de 30%. O morango, de cultivo delicado, registra perdas de 39%.

Mas a campeã dentre todas é a banana, considerada alimento básico, que é cultivada em todo território canarinho e é também a mais consumida por toda a população, por razões culturais e por manter preços mais acessíveis. No entanto, em função de métodos antigos de colheita e deslocamentos, menos de 50% da produção chega à mesa dos consumidores.

Segundo a FAO, o nível mais elevado de desperdício de alimentos nas sociedades mais ricas resulta de uma combinação entre o comportamento do consumidor e a falta de comunicação ao longo da cadeia de abastecimento, como variações de preços. Portanto, ocorre na ponta final do fluxo de produção, nas feiras, nos sacolões e supermercados.

Assim, os consumidores não conseguem planejar suas compras de forma eficaz e compram em excesso ou exageram no cumprimento das datas de validade dos produtos. Isto, embora muitas redes varejistas façam campanhas de incentivo às compras seccionadas e até mesmo, ao embalar seus produtos, já induzam a um certo planejamento.

Além do mais, conforme estudos do Ministério da Agricultura, “com a expansão da sociedade de consumo, amplamente influenciada pelo estilo de vida norte-americano, o consumo se transformou em uma compulsão e um vício, estimulados pelas forças do mercado, da moda e da propaganda”.

Ao mesmo tempo, muitas vezes os padrões estéticos e de qualidade levam o distribuidor a rejeitar grandes quantidades de alimentos perfeitamente comestíveis. Já este acusa o consumidor brasileiro de escolher demais, ou seja, manusear exageradamente os produtos hortifrutigranjeiros nas prateleiras, apressando seu envelhecimento.

Pesquisas de entidades e estudos acadêmicos revelam ser hábito desse comprador apertar o tomate uma, duas, três vezes e, depois, deixá-lo na prateleira. Ou quebra a ponta do quiabo e o deixar de lado, de modo que ninguém mais o quer.

Com as frutas, então, é um tal de pega e aperta, de jeito que elas vão formando nódoas escuras e têm sua aparência alterada. Ou tira grãos de cacho de uva, que também é deixado na prateleira, já inutilizado.

Na Europa, alguns países têm feito experiências que visam mudar alguns hábitos dos consumidores. Na Suécia, por exemplo, foi criada uma rede de supermercados que só vende produtos usados, reciclados. Na Dinamarca, os hortifrutigranjeiros próximos do vencimento são vendidos a preços mais baixos.

SUSTENTABILIDADE

Como se trata de bens perecíveis, as perdas de alimentos podem ser consideradas como parte dos processos de produção agropecuária. Mas, a partir de um limite tolerável, passam a ser tratadas como desperdício, em que se caracteriza descaso das pessoas responsáveis, em cada uma das fases da cadeia alimentar.

O conceito de Segurança Alimentar foi adotado pela ONU em 1948, quando o mundo se recuperava da Segunda Grande Guerra, com a Europa arrasada e a fome sendo um dos mais graves problemas da Humanidade. A partir de 1993, com a Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, em Viena, na Áustria, a segurança alimentar passou a ser tratada como um dos direitos fundamentais da pessoa humana.

No Brasil, por algumas décadas, este foi tema de muitas das iniciativas populares e de governos. Inclui-se aí, por exemplo, o Movimento Contra a Carestia, que, ao combater os aumentos exagerados de preços, buscava assegurar um maior acesso da população aos alimentos básicos.

Contudo, foi só a partir de 2003 que a questão da comida em quantidade suficiente, com qualidade e regularidade passou à condição de política de Estado, com a implantação do Programa Fome Zero (PFZ).

Desde a sua implantação, o Fome Zero era composto por três dezenas de programas complementares, destinados a combater as causas imediatas e subjacentes da fome e da insegurança alimentar. Eram ações implementadas pelo ou com o apoio do governo federal, voltadas a tirar o país do mapa mundial da fome, dentre as quais podemos citar o Bolsa Família, uma ajuda financeira às famílias de mais baixa renda.

Outros programas, como os de distribuição gratuita de vitaminas e suplementos alimentares, de construção de cisternas nos sertões nordestinos e de restaurantes populares também faziam parte do Fome Zero. O mesmo ocorria com iniciativas delegadas aos governos estaduais e municipais, mais diretamente ligados às populações carentes.

O programa cumpriu seu objetivo de retirar o Brasil do Mapa Mundial da Fome, instrumento da ONU de referência global. Mas, ainda assim, sempre esteve longe de combater o desperdício com maior eficácia.

Tampouco têm sido obtidos resultados de grande envergadura com programas voltados para o Desenvolvimento Sustentável, que assegurem a produção de alimentos com preservação do meio ambiente.

Na realidade, vem ocorrendo o contrário, com a implantação de monoculturas que desrespeitam as regras de manutenção de áreas de preservação ambiental e os limites de uso de agrotóxicos. A observância desses aspectos são princípios básicos da sustentabilidade.

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