Sou chão, sou terra, sou cerratense

Sou chão, sou terra, sou cerratense

Sou chão, sou terra, sou cerratense

Há beleza em nossa savana? O que me diz você? O Cerrado é belo para você?

Por Iêda Vilas-Bôas

Posso dizer, a partir da mira27da de meus míopes olhos que o Cerrado é o lugar mais lindo do mundo, mas há que se ter sensibilidade para perceber suas minúcias.

O Cerrado vai se mostrando aos poucos. Não possui a exuberância das florestas tropicais, nem o apelo das paisagens beira-mar. Ele vai se mostrando, como nosso povo goiano, em pequenas saliências.

Qual de vocês já se debruçou sobre uma Caliandra, que em seu festivo carmim espraia alegria e vermelhidão por entre a vegetação coberta de pó? Qual de vocês já se deitou debaixo de um pé de sucupira florido e não cismou amores? A cor roxa de suas flores traz reminiscências… a Paixão de Cristo, a sua paixão, a minha, a de todos nós… Porque ser Cerratense é, sobretudo, ser apaixonado.

Qual de vocês não gastou tempo observando as proezas do urubu-rei e do caracará? E ver, ali, que a cadeia alimentar e a luta pelo seu topo recomeçam, instantaneamente, ao primeiro brilho do sol?

Para mim, ser Cerratense e falar de leituras, literatura e cultura que valorizam minha região me traz um enorme sentimento de pertencimento ao meu chão.
Sim, sou chão. Sou deste chão sarobento, cheio de toá, chão amarelo, chão poeirento. Sou chão, sou terra, sou Cerratense. Deste espaço geográfico amplio minha visão para múltiplos mundos e possibilidades, mas volto. Sempre!

É aqui que meu espírito mora. Talvez amarrado num pé de pequi carregadinho de bagos. Ou anda meu espírito preso pelas cagaiteiras, nos pés de mangaba, pelos jatobás, ou simples que seja preso nas ramadas das quaresmeiras em flor.

Iêda Vilas-Bôas (1963–2022) – Escritora Cerratense. Excerto do texto “A Literatura como forma de manutenção dos referenciais da Cultura Cerratense”, publicado originalmente no Portal Cerratense: http://cerratense.com.br/.

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https://www.xapuri.info/racismo-e-preconceito-cronica-de-um-passeio-pelo-seculo-xvii/
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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