José Datrino: O profeta do Princípio Gentileza

Cada época tem seus profetas que denunciam, anunciam, consolam e mantêm viva a chama da esperança.  [Nossa época se caracteriza] pelo estigma da falta de cuidado e pela perda da gentileza nas relações interpessoais e sociais. Este estigma afeta principalmente os grandes conglomerados urbanos, como a cidade do Rio de Janeiro. É uma cidade onde a gentileza da paisagem se mostra com generosidade na composição ecológica do mar, da montanha e da floresta, e com uma população cheia de humor e leveza.

Mas lentamente viu brutalizadas as relações sociais pela violência contra meninos e meninas de rua, pelos assaltos frequentes e pelo nervosismo do tráfego.

Nesse contexto, surgiu um homem, José Datrino (1917–1996), que começou a pregar a gentileza como alternativa para a cidade e para a humanidade. Seu impacto nas camadas populares foi grande, a ponto de ser chamado “Profeta Gentileza”.

(…) Tinha uma pequena empresa de transporte de carga na zona norte do Rio, em Guadalupe. Vivia normalmente como qualquer trabalhador das classes populares. Até que no dia 17 de dezembro de 1961 ocorreu um grande incêndio no circo norte-americano, no outro lado da Baía da Guanabara, em Niterói. Tal tragédia abalou José Datrino.

(…) Às vésperas de Natal, tomou seu caminhão, comprou duas pipas de vinho de cem litros, foi a Niterói e lá, junto às barcas, começou a distribuir em copos de papel vinho para todos, anunciando: “quem quiser tomar banho não precisa pagar nada, é só pedir por gentileza… é só dizer agradecido”.

Depois instalou-se por quatro anos no local do incêndio. Cercou-o e transformou-o em um jardim cheio de flores. Colocou dois portões, um de entrada e outro de saída, com as inscrições: “Bem-vindo ao Paraíso do Gentileza. Entre, não fume, não diga palavras obscenas, porque tornou-se agora um campo santo”.

Consolava a todos que chegavam desesperados dizendo: “seu papai, sua mamãe, sua filha, seu filho não morreu, morreu o corpo, o espírito não. Deus chamou. Mas o pior pecador se salvou porque Deus não é vingativo… Eu fui enviado por Deus e vim consolar vocês”. Efetivamente os que vinham e ouviam sua mensagem saíam consolados (…)

Tomou a sério sua vocação: confeccionou uma bata branca, tomou um bordão e levou um estandarte cheio de apliques com mensagens ligadas à gentileza. Peregrinou pelo Brasil, especialmente pelo Norte e pelo Nordeste, até se instalar definitivamente no Rio de Janeiro. Circulava pela cidade, pregava pelas praças, colocava-se nas barcas entre Rio e Niterói, vivia continuamente no meio do povo.

A partir de 1980, inaugurou uma nova fase de atividade profética. Inscreveu seus ensinamentos em 55 pilastras do viaduto do Caju, à entrada da cidade do Rio. Denunciava as ameaças que pesam sobre a natureza, produzidas, dizia, pelo “capeta-capital”.

Mas a força de sua mensagem se centrava na gentileza. Para expressá-la, usava o código que conhecia, a simbologia trinitária católica. Tudo era pensado e anunciado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Curiosamente, não só utilizava a terminologia trinitária, mas também a quaternária, a mais rara (…). É um código para significar uma totalidade integrada. Para isso usa [também] o número quatro – Pai, Filho, Espírito Santo e Natureza ou Maria. O quarto elemento é sempre feminino (…).

Mas o princípio norteador de tudo é a Gentileza, como modo de ser. A tempo e contratempo anuncia sem cessar: “Gentileza Gera Gentileza”. Recusa-se a dizer “muito obrigado” porque ninguém é obrigado a nada, pois todos devemos ser gentis uns para com os outros e relacionar-nos com amor.

No lugar de muito obrigado, devemos dizer “agradecido”; ao invés de “por favor,” devemos dizer “por gentileza”, pois assim, dizia, nos religamos à Gentileza, ou à Graça que é Deus, porquanto Ele criou tudo com gentileza e na graça da gratuidade (…).

Essa gentileza fontal, ele a viveu pessoalmente, não apenas a pregou. Tratava a todos com extrema finura. Quando o chamavam de maluco, respondia: “seja maluco como eu, mas seja maluco beleza, da Natureza, das coisas divinas”. Dava-se conta da importância mundial do princípio Gentileza. Durante a Eco-92, no Rio de Janeiro, conclamava os representantes dos povos e os chefes de Estado a viverem a Gentileza e a se aplicarem ao uso da Gentileza.

Alquebrado, quis regressar à cidade onde nasceu, Cafelândia – SP. Mas morreu em Mirandópolis – SP, no dia 28 de maio de 1996, aos 79 anos de idade.

ANOTE AÍ:

Este texto é um excerto do livro Saber Cuidar, de Leonardo Boff. Editora Vozes, 2012. Por razões de espaço,  há edições com exclusão de alguns parágrafos.

About The Author

Leonardo Boff

Filósofo, Teólogo, Escritor

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