Por Leonardo Boff – X57

Uma das chagas mais sofridas no mundo, e também entre nós, é seguramente a falta de respeito.

O respeito exige, em primeiro lugar, reconhecer o outro como outro, diferente de nós. Respeitá-lo significa dizer que ele tem direito de existir e de ser aceito assim como é. Essa atitude não convive com a intolerância que expressa a rejeição do outro e de seu modo de ser.

Assim um homo afetivo ou alguém de outra condição sexual como os da comunidade LGBT não devem ser discriminados, mas respeitados, primeiramente, por serem pessoas humanas, porta- doras de algo sagrado e intocável: uma dignidade intrínseca a todo ser com inteligência, sentimento e amorosidade; em seguida, garantir-lhe o direito de ser como é e de viver sua condição sexual, racial ou religiosa.

Com acerto, disseram os bispos do mundo inteiro  reunidos em Roma, no Concílio Vaticano II (1962-1965) em um dos mais belos documentos “Alegria e Esperança” (Gaudium et Spes): “Cada um respeite o próximo como ‘outro eu’, sem excetuar nenhum” (n.27).

Em segundo lugar, o reconhecimento do outro implica ver nele um valor em si mesmo, pois ao existir comparece como único e irrepetível no Universo e expressa algo do Ser, daquela Fonte Originária de energia e de virtualidades ilimitadas de onde todos procedem (a Energia de Fundo do Universo, a melhor metáfora do que Deus significa).

Cada um carrega um pouco do mistério do mundo, do qual é parte. Por isso entre mim e o outro se estabelece um limite que não pode ser transgredido: a sacralidade de cada ser humano, no fundo, de cada ser, pois tudo o que existe e vive merece existir e viver.

O budismo, que não se apre- senta como uma fé, mas como uma sabedoria, ensina  respeitar a cada ser, especialmente aquele que sofre (a compaixão). A sabedoria cotidiana expressa no Feng Shui integra e respeita todos os elementos, os ventos, as águas, os solos, os vários espaços. Semelhantemente, o hinduísmo  prega o respeito como a não-violência ativa (ahimsa) que encontrou em Gandhi seu arquétipo referencial.

O cristianismo conhece a figura de São Francisco de Assis que respeitava cada ser, desde a minhoca do caminho, a abelha perdida no inverno em busca de alimento, a plantinha silvestre que o Papa Francisco em sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum”, citando São Francisco, manda respeitar porque, a seu modo, também louva a Deus (n.12).

Os bispos, no documento acima referido, alargam o espaço do respeito afirmando: “O respeito deve se estender àqueles que em assuntos sociais, políticos e mesmo religiosos, pensam e agem de maneira diferente da nossa” (n.28). Como tal apelo é atual para a nossa situação brasileira, atravessada de intolerância religiosa (invasão de terreiros do candomblé), intolerância política com apelativos desrespeitosos a pessoas e a atores sociais ou de outra leitura da realidade histórica.

Temos assistido a cenas de grande falta de respeito por parte de alunos contra professoras e professores, usando de violência física além da simbólica com nomes que sequer podemos escrever. Muitos se perguntam: que mães tiveram aqueles alunos? A pergunta correta é outra: que pais tiveram eles?

Cabe ao pai a missão, por vezes onerosa, de ensinar o respeito, impor limites e repassar valores pessoais e sociais sem os quais uma sociedade deixa de ser civilizada. Atualmente, com o eclipse da figura do pai, surgem setores de uma sem pai e por isso sem o sentido dos limites e do respeito. A consequência é o recurso fácil à violência até letal para resolver desavenças pessoais como, não raro, se tem visto.

Armar a população como pretende o atual Presidente, além de ser irresponsável, só favorece a falta perigosa de respeito e o aumento da ruptura de todos os limites.

Por fim, uma das maiores expressões de falta de respeito é para com a Mãe Terra, com seus ecossistemas superexplorados, com o espantoso desflorestamento da Amazônia e com a excessiva utilização de agrotóxicos que envenenam solos, águas e ares. Essa falta de respeito ecológico nos poderá surpreender com graves consequências para a vida, a biodiversidade e o nosso futuro como civilização e como espécie.

Leonardo Boff: Eco teólogo, filósofo e escritor, escreveu entre tantos Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2018.

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