Sobre sentimentos dissonantes… Irooperori aseiki kametha! O melhor da sorte é estar feliz!Por Jairo Lima – O frio chegou com força aqui no Juruá. A chuva fria e o vento gelado indicam que teremos alguns dias de gostoso refrigério natural de 16 graus que, se para os que habitam o Sudeste e o Sul é uma temperatura não tão fria, para nós aqui do Aquiry (Acre) é com se estivéssemos morando no reino de gelo do GoT, aquele do  Game of Thrones,

A semana que passou me arrastou para pensamentos e sentimentos profundos muito particulares, nada a ver com este escangalho todo que assola os pensamentos e a existência política nacional. Cheguei ao sábado, dia que costumo escrever minhas crônicas, num estado de espírito que nos dias confusos que vivemos atualmente pode parecer loucura ou alienação. Pode-se, inclusive achar que este estado poderia ser efeito de algum medicamento ou até mesmo sinal de alguma enfermidade.

É um sentimento que, se expressado abertamente no palco dos dramas e arena de egos, conhecido popularmente como Facebook, geraria emotions estranhos, comentários diversos e, com certeza, algum ‘textão’ com uma reprimenda nos comentários, feito por alguém que se acha o guardião de como os outros devem se sentir ou se comportar.

Mas que estado de espírito tão bizarro seria esse?

Respondo: felicidade.

Sim, felicidade. “Mas, por que raios consegue você sentir felicidade no momento infernal em que o país está passando?” – Posso até ouvir surgirem protestos como estes brotando aqui e ali, nessa horta de vaidades líquidas da nossa sociedade esquizofrênica e limitada.

Mas, vejam bem. Não se trata de qualquer felicidade. Não é como aquela maresia boa e especial que dá quando estamos ‘retornando’ de alguma experiência mística com o huni (ayahuasca).

Não é aquela felicidade maravilhosa de ver os filhos alegres e saudáveis. Também não é aquela felicidade inventada e posada em milhares de selfies e postagens nas redes sociais. É simplesmente estar feliz. Estar se sentindo bem em ver o belo e a alegria brotando nos mais singelos meios, e das formas mais simples possíveis.

Pois é. E qual seria a fonte desse sentimento alienígena que me preencheu neste shabbat ? Não saberia dizer ao certo. Na verdade acho que nem seria necessária toda uma análise sobre o porquê disso, mas, acredito que seja resultado de algumas pequenas alegrias, que somadas e costuradas umas às outras contribuíram com este sentimento.

São alegrias como ver as comunidades indígenas do Juruá em preparação frenética para suas festividades. Arrumam-se os terreiros, faz-se limpeza ao redor das casas, preparam-se as artes e as medicinas para ofertar aos visitantes. Misturam-se os pigmentos naturais e coloridos que, além de embelezar, ligam os yuxin (espírito) às forças encantadas da natureza.

Ensaia-se com os jovens as danças, brincadeiras e manifestações para alegrar a festa.
Também aquela sensação de ‘missão cumprida’ que nos dá uma pequena alegria, em ver se desenvolverem os projetos das aldeias, após grandes esforços para conseguir recursos, motivação e apoio.  Ver o sorriso sincero e agradecido seguido daquele comentário “que legal txai, muito bom, parente…”, que ouvimos do cacique.

E como não se alegrar ao ver o divertimento e estripulias da meninada nas aldeias, em seus corrupios e traquinagens. Com sorrisos estampados, transformando os terreiros das aldeias em palcos das mais diversas peças do cotidiano coletivo, reforçando os laços de parentesco e cooperação, tão em falta em nossos bairros e cidades. E poder presenciar isso é algo que acende uma luzinha lá dentro de nós.

Junta-se a isso aquela sensação de pertencimento, quando chegamos à comunidade e recebemos abraços fraternos, ou quando a maquininha irritante, chamada celular emite seu alarido e, ao atendermos ouvimos uma voz amiga do outro lado dizendo “professor Jairo… aqui é o Maná…” e passamos alguns momentos de descontraído papo, onde as novidades são contadas e sorrisos são dados.

Ou ainda, quando o tinir do aparelhinho informa ter uma mensagem e ao buscarmos a mesma achando que vamos nos deparar com mais alguma notícia chata nos deparamos com uma singela e poderosa mensagem do Assis Txanamashã, dizendo “Ei txai! Vem comer banana com nóis aqui na aldeia…”.

Sabe… é aquele sorriso que aparece em nossa face, nascido espontaneamente quando ao clicarmos no trocinho chamado ‘caixa de mensagem’ do email – que nada mais é que a versão virtual e moderna do nosso ID e superego – nos deparamos com uma carta de convite para uma festa na aldeia. Sendo que esta é mais uma de um bom total de cartas iguais no mês.

É, ainda, aquela sensação de proteção quando, num momento em que a tristeza, o cansaço e pensamentos obscuros se aproximam e, do ‘nada’, você recebe uma visita de um txai querido. Bate um papo bem interessante e a conversa termina com ele apertando sua mão com força e dizendo: “vamos tomar um cipó txai… afastar essas coisas pra longe que elas não são da gente não. São umas embiaras quaisquer perdidas nesse matagal que esses nawas criaram no coração deles…”.

É o desprendimento dos lastros perniciosos do cotidiano citadino ao nos darmos conta que estamos cercados de floresta por todos os lados, e que a sensação de que o ‘espírito’ da natureza está ali, mesmo que invisível aos olhos dos demais, personificada na árvore no fundo do quintal; da cantoria lamentosa da cigarra; Do cricrilar hipnótico dos grilos à noite; Do cheiro gostoso de floresta molhada pela chuva; Da luz que tudo irradia e não encontra barreiras que possam limitá-la, como os prédios das grandes cidades.

É tudo isso e outras tantas coisas, repletas de pequenas alegrias e sentimentos bons que, um belo dia, as percebemos. E isso, a tal percepção, pode ser dar de maneiras mais diferentes possíveis. Seja através de uma música que lhe tocou o coração, seja através de um momento de reflexão profunda, seja através de um sonho. No meu caso foi através de um sonho.Um daqueles que você sabe tratar-se de algo além do simples entorpecimento das sinapses.

Acordei com uma coisa boa em minha mente, um sentimento bom em meus pensamentos e uma tranquilidade que há dias não sentia. Enquanto o mundo das tristezas e das polaridades se avolumava à minha volta, ou tentava se jogar sobre mim através da tela sem sentimentos do meu computador, eu me sentia indiferente. Meus pensamentos estavam nas pequenas coisas, na soma destas.

Lembrei-me de pessoas que, um belo dia, dão uma ‘sumida’ deste teatro dos horrores, como minha amiga Eliane Fernandes ao pintar todo o rosto de urucum, como os Ashaninka, indicando que ela estava ‘invisível’ tanto na terra como no mundo cósmico. E assim como ela, outros tantos que tenho a honra de manter contato, e que, convivendo com os povos indígenas aprenderam tantos ensinamentos que vão além dos rituais e que, sem percebermos, acabamos por adotar como filosofia de vida.

Eu me senti especial. Não de maneira grosseira e hipócrita como um certo senhor de toga que mandou ‘a modéstia às favas’. Mas, especial como alguém que faz parte de um grupo de pessoas que escolheram ‘um lado’ que nada tem a ver com política partidária, ideologias ou crenças pré-estabelecidas.

Um grupo que teve um contato com as raízes da simplicidade e da espontaneidade. Que foi recebido e ‘dividiu um pouco com muitos’, não satisfazendo totalmente, mas, recebendo por igual. Um grupo onde as alegrias e tristezas são encaradas como transitórias e parte de um caminho que deve ser trilhado por todos.

Um grupo que não precisa de gurus, padres ou pastores para ensinar o caminho, pois tudo se resume a equilíbrio e desequilíbrio entre o yuxin e a natureza e que, para corrigir isso, a própria natureza trouxe as medicinas naturais e sagradas.

Por tudo isso que descrevi até agora e olhando para minha trajetória e todos que me cercam (e que eu também os cerco) é que me senti preenchido por este estranho sentimento, tão em desacordo com o que ando vendo espalhado e compartilhado até a exaustão.

Sei que estou um tanto dissonante do que vem sendo dito, escrito e gritado pelos quatro cantos da Pindorama mas, me respondam: se todos só entoássemos canções de guerras,  quem ainda saberia entoar as melodias de paz?

Irooperori aseiki kametha! (‘o melhor da sorte é estar feliz’ – adágio Ashaninka)

ANOTE AÍ:

Jairo Lima é indigenista e escritor acreano. Radicado na região do Vale do Juruá, Jairo publica seus textos semanalmente no blog: www.cronicasindigenistas.blogspot.com.

Por gentileza do autor, suas crônicas são publicadas também aqui neste nosso site da Revista Xapuri.

 As imagens utilizadas nesta matéria foram selecionadas por Jairo  e são da autoria de:

Imagem 1: Autora: Heloisa Paim; Imagem 2: Autora: Delfna Muños Toro;       Imagem 3: Autora: Edilene Sales Huni Kuin; Imagem 4: Autora: Rosi Araújo.

 

About The Author

Jairo Lima

Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano.

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