Este texto-denúncia foi postado pela “Redes da Maré – Somos Todos Maré” no Facebook  sob o título Uma rotina de medo na Maré, em 23 de fevereiro de 2017.  É, também, um pedido de socorro de uma população que “não aguenta mais viver a possibilidade de morrer na próxima esquina ou dentro de casa.”

Eram 5h50 da manhã quando dona Maria acordou para fazer o café de seu neto. Como faz todas as manhãs acordou o menino, separou o uniforme escolar e foi até a cozinha; seu marido foi tomar banho para se preparar para o trabalho enquanto a filha já estava arrumada e sairia em 5 minutos.

Porém, a rotina foi interrompida quando todos ouviram o som de um helicóptero da polícia voando tão baixo que fez tremer a casa. Como sabiam que era da polícia? Só ela faz isso naquele horário. Sem falar uma única palavra, toda a família se abrigou na pequena cozinha, único lugar onde tinham certeza que não poderiam ser alvejados.  Na favela, todos sabem onde é o lugar do abrigo, onde se está mais protegido em casa, onde a “bala não pega”.

Em pouco tempo os tiros cortaram o dia que mal amanhecia em Nova Holanda, uma das dezesseis favelas que compõem o conjunto de favelas da Maré. Os moradores, jovens ou velhos, já sabiam que este seria mais um dia difícil, um dia de medo, tensão e perigo de vida.

Mais um dia sem aulas, sem postos de saúde, sem trabalho, sem brincadeira na rua, sem paz, sem respeito, sem direitos. O fato é que, desde o começo do ano, a Maré vem sofrendo com as constantes operações das forças de segurança do Estado e com os constantes confrontos entre os grupos armados locais.

Até hoje, 23/02/17, pelo menos 4 pessoas haviam sido assassinadas em confrontos armados. Confrontos esses que se estendem pelo dia e noite e, também, nos finais de semana. No meio desses conflitos, travados com armas de guerra cada vez mais poderosas e mortíferas, estão, como se fossem alvos prontos para serem alvejados, os moradores da Maré. Como foi o caso da menina Fernanda, de 7 anos, atingida por uma bala disparada a dois quilômetros de distância de sua casa.

Nas últimas duas semanas, a situação se agravou de maneira assombrosa. Os poucos momentos de paz duram apenas os instantes em que as armas são recarregadas e depois o que se ouve são os estampidos ensurdecedores dos fuzis e pistolas. Cada um imagina onde as balas podem parar, e, impotentes, torcem para que não atinjam mais alguém. Hoje não foi diferente, a operação policial que acordou a família de dona Maria foi realizada, justamente, segundo as forças policiais, para interromper os confrontos entre grupos criminosos locais.

Porém, ao contrário de interrompê-los a entrada da polícia, da forma como se deu, só agravou ainda mais a situação. O resultado foi a morte de duas pessoas: entre elas um policial (ainda não confirmada pela PMERJ) e mais quatro moradores feridos. Até aqui são pelo menos 6 mortos e uma dezena de feridos em pouco mais de um mês. Imaginem o escândalo se isso acontecesse em outro lugar, um bairro da classe média da Zona Sul, por exemplo. Não é possível que este estado de coisas permaneça.

A população da Maré não aguenta mais viver sob tanto medo, não aguenta mais viver a possibilidade de morrer na próxima esquina ou dentro de casa. Não aguenta mais ver seus filhos sem aula e apavorados. O silêncio ensurdecedor do governador, do secretário de segurança, da mídia e da cidade é desolador.

É preciso que nós, moradores ou não da Maré, nos mobilizemos para dar um basta à insanidade dos confrontos que continuam tragando vidas diariamente.

É preciso cobrar do Estado outra política de segurança. Uma política que garanta a vida e respeite os direitos das pessoas. Por último, é preciso que o problema da violência armada na Maré seja um problema da cidade, sob pena de ameaçar a nossa própria democracia.

Hoje, mais uma vez, a Biblioteca Popular Escritor Lima Barreto, projeto cultural e educativo da Redes da Maré, foi atingida por tiros.

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